José Abrão
Goiânia – Já dizia Guimarães Rosa que o real não está no começo nem na chegada, mas na travessia. Em seu mais novo romance, Mata de Dentro (negalilu editora, 133 páginas), a escritora goiana Lari Mundim explora a jornada e as transformações do ser por meio da história da professora Sílvia Vicente, uma mulher que primeiro conhecemos sem nome e morando na rua. Junto com o leitor, ao longo da obra, a protagonista vai, de várias maneiras – psicológica, corporal e sensorial –, deixar quem é para trás e, ao mesmo tempo, encontrar quem realmente é.
Temas como jornada e descobrimento, presentes em obras anteriores, como Agora eu te amo (2014) e Sem Palavras (2013), retornam neste romance mais maduro e de maneira mais aprofundada. “Existe, eu acho, muito mais consciência nesse processo de escrita do que nos livros anteriores, que eram mais um exercício estético, no Sem Palavras, ou um exercício narrativo, no Agora eu te amo. No Mata de Dentro, existe um esforço de colocar para jogo um processo de formação ao longo desses 12 anos de trabalho como escritora e como editora”, avalia.
O livro também é o que tem uma estrutura narrativa mais clássica, causal, afastando-se da abordagem mais focada na estética de obras anteriores. “Eu percebo que, na minha primeira experiência como escritora, a estética, a arquitetura, funcionavam para mim como um amparo para o desenvolvimento da narrativa. É como se a estrutura posta me conduzisse por caminhos seguros. Em seguida, nos processos de formação de lá para cá, eu senti muito uma necessidade de me aproximar cada vez mais da literatura, no sentido de que a minha produção sempre esteve associada a outras linguagens artísticas. Acho um desafio a gente conseguir se aproximar cada vez mais dos detalhes, dos detalhes… de construir relações cada vez mais envolventes e aprofundadas do personagem com quem lê, independentemente do perfil da pessoa que lê. Esse é meu objetivo, sabe? Contar uma história cada vez mais cheia de possibilidades”, avalia.
Goiana Lari Mundim explora a transformação interior no romance ‘Mata de Dentro’. Novo livro será lançado em Goiânia na próxima quinta-feira (6/8)https://t.co/QMXZ2HW0ih pic.twitter.com/umRxY0dkCW
— Jornal A Redação (@aredacao) August 3, 2026
“O livro trata, do começo ao fim, de questões de gênero. Tanto é que um texto que eu tenho trazido nas dedicatórias, que eu considero uma frase que sintetiza, é: sobre a fuga do corpo e a impossibilidade da fuga do corpo. Eu tenho descoberto que o livro foi estruturado em três momentos, então a minha personagem está em movimento. Existe um primeiro movimento, um movimento num plano secundário que então a leva a um desfecho, consolidando o que tenho chamado de ‘abandono radical’”, conta.
Palavra específica: por que abandono? “Eu tenho refletido muito sobre essa palavra, sobre o verbo abandonar, primo ali do verbo desistir, mas que tem uma carga de culpa euro-cristã. As pessoas se recusam a abandonar ou assumir o abandono, e a desistência soa como um fracasso. Eu tenho ensaiado muito esse sentimento que é sobre o segundo lugar, o que fazer com essa massa de derrotados que somos. E aí o reconhecimento da possibilidade da desistência ou do abandono é uma vitória para Sílvia Vicente”, reflete. “Porque ela é ex. Ela é ex tanta coisa. Ela é ex-professora, ex-esposa de um marido morto, ela é a ex-tutora de um gato morto em um incêndio e ela também é a ex-Sílvia. Acho que o abandono tem a ver com isso”, completa.
Participação na Flip
Pela primeira vez, Lari Mundim participou da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), maior evento literário do país. Foi uma grande agenda: lançamento do novo livro juntamente com a primeira participação da negalilu editora, com a presença e obras de outros autores goianos publicados pelo selo.
“Tivemos uma primeira experiência muito intensa. Eu acho que, depois de 12 anos de trabalho, nós estivemos na Flip nas melhores condições possíveis. Há muitos anos eu recebo convite para estar lá como editora, mas nunca a gente teve uma condição tão ideal quanto agora, porque eu viajei com alguns autores e autoras que puderam estar com a gente, representando seus livros”, avalia.

Lari Mundim e o estande da negalilu editora na Flip (Foto: divulgação)Mundim também celebra o bom desempenho por lá: “Vendemos muito livro. Todo o catálogo praticamente estava em exposição. Nossa mala voltou vazia, sabe? Isso eu acho que é um sintoma importante. Tanto a literatura quanto a poesia de Goiás estavam lá disponíveis, e percebi uma curiosidade”, comenta. Na sua leitura, “as pessoas estão muito cansadas da literatura feita pelo homem cis-branco, sudestino, que se declara heterossexual. As pessoas querem outra coisa. E, às vezes, nessas variáveis interseccionais, o território é um dos mais interessantes: querem descobrir a literatura do Pará, do Piauí e aqui de Goiás”.
“Muitas pessoas visitaram a nossa banca, manifestaram interesse em conhecer a nossa poética, o que nos motiva, o que nos move, quais são os nossos temas, o nosso vocabulário. É como se, de alguma maneira, as pessoas estivessem mais despertas para a diversidade de maneira real, um interesse real. Acho que existe essa curiosidade e isso também fez bastante diferença”, conclui.
Serviço
Lançamento “Mata de Dentro”
6 de agosto
18h
Coletivo Centopeia (Avenida Cora Coralina, 140, Setor Sul, Goiânia)
