Jales Naves
Especial para o jornal A Redação
Goiânia – Mais longevo dos gestores culturais goianos, com uma atuação de destaque nas sete oportunidades em que ocupou o cargo de Secretário de Cultura, o escritor Kleber Adorno defendeu a união para fortalecer a cultura, que se apresenta frágil frente às outras áreas, e que é importante, inclusive para o fortalecimento da própria economia. Ao falar na manhã desta sexta-feira, dia 17, no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás sobre políticas culturais, lembrou o episódio do Césio 137 em Goiânia, que está chegando aos 40 anos, no qual a cultura exerceu um papel importante na recuperação da imagem e do processo econômico, a partir das campanhas culturais que foram realizadas naquele momento. “Temos que trabalhar em equipe, somar forças para superar nossas fraquezas e pensar de forma coletiva, para alcançar novos objetivos”, disse.
Humilde em sua avaliação pessoal, creditou à equipe com quem sempre trabalhou os bons resultados alcançados em suas gestões, explicando que uma pessoa só não consegue fazer avançar seus projetos, e se referiu a cada um, indicando a sugestão que apresentou e como o trabalho foi conduzido. Inclusive, pediu que o colega presente se apresentasse para que todos o conhecessem. Ao dividir o êxito de suas iniciativas com aqueles que o ajudaram, reafirmou a importância do trabalho conjunto, às discussões que tiveram e o empenho de cada um para que cada ação tivesse destaque. “Era preciso ficar atento, pois a cultura é sempre a primeira a ser afetada em caso de crises ou cortes. Por isso, a necessidade da união e do fortalecimento de nossas ações”, disse
Antes da palestra, foi aberta a Exposição Vida e Obra, na Casa Rosada de Goiânia, do IHGG, a 20ª montada nesse espaço, resgatando sua trajetória e focando nas obras que realizou como Secretário de Cultura do Estado e do Município de Goiânia, ao invés de mostrar seus diplomas e honrarias recebidos. Como ressaltou o curador da mostra, Nilson Jaime, ele foi responsável pela implantação de dezenas de espaços culturais e políticas de cultura durante os governos de Henrique Santillo, Darci Accorsi, Iris Rezende, Paulo Garcia e Maguito Vilela.
Dentre os espaços culturais criados, alguns há 40 anos e a maioria ainda existentes, estão seis centros culturais – CC Marieta Telles Machado, CC Gustav Ritter, CC Martim Cererê, CC Octo Marques, CC Goiânia Ouro e CC Casa de Vidro; o Sistema Estadual de Museus e cinco unidades: Museu Pedro Ludovico, Museu de Arte Contemporânea de Goiás, Museu da Imagem e do Som, Museu Ferroviário de Pires do Rio e Museu Confaloni (Estação Ferroviária); e o Cine Cultura, em Goiânia, o Cine Teatro São Joaquim, na Cidade de Goiás (recriação) e o Cine Goiânia Ouro, igualmente na Capital.
Palmas
Ao abrir a sessão, o presidente do IHGG, Jales Mendonça, afirmou que a melhor homenagem que se presta é aplaudindo o trabalho realizado e por isso convidou a todos para uma saudação ao escritor Kleber Adorno. Auditório lotado, os presentes, de pé, o aplaudiram, em reconhecimento ao que realizou. Citou como uma de suas numerosas obras, na gestão do governador Henrique Santillo, a primeira restauração da Casa Rosada, primeiro imóvel construído na então nova Capital goiana, no setor Sul.
Falou do debate na quarta-feira, no IHGG, com o jornalista Felipe Recondo, um dos maiores especialistas em Supremo Tribunal Federal; a participação como debatedor do ex-deputado federal Vilmar Rocha, que citou duas qualidades do ministro Moreira Alves, tema do livro lançado naquele dia: poder político e autoridade, servindo de modelo e inspiração, ao contrário de atuais ministros; e ressaltou que Adorno reúne esses dois atributos. “Noventa por cento das obras na área da cultura foram feitas em suas gestões”, disse, mostrando a gratidão por essas iniciativas e defendendo que se reconheça o trabalho enquanto as pessoas estão vivas e ativas.
Ao discorrer sobre a exposição anual “Brasília: o alicerce goiano de um sonho brasileiro”, que resgata o protagonismo goiano na epopeia da transferência da Capital Federal para o Planalto Central, lembrou de suas idas a Brasília e ouvir brasilienses falarem com desdém sobre Goiás. Isso o incomodou muito e o motivou, quando tem a oportunidade, a organizar essa mostra, que vai até dezembro deste ano, enumerando centenas de goianos e sua colaboração, e que tem obtido excelente repercussão, com elogios de todos os que já a presenciaram.
Ousadia
Kleber Adorno destacou que é preciso ousadia para ocupar espaços importantes na área, citando o Centro Cultural Marieta Telles Machado, que foi instalado timidamente no prédio da poderosa Secretaria da Fazenda do Estado, ao lado do Palácio das Esmeraldas, de estilo art déco, e gradativamente passou a ocupar os espaços. Logo o número 2 da Praça Cívica (Praça Pedro Ludovico Teixeira) foi acomodando outras atividades e é praticamente um dos principais complexos culturais no coração de Goiânia, abrigando a sede da Secretaria da Cultura, biblioteca, o Arquivo Histórico Estadual, o Museu da Imagem e do Som, o Cine Cultura etc.
Foi responsável pela criação de espaços emblemáticos como dois Centros Culturais: Martim Cererê, a partir da ocupação de um terreno no setor Sul com duas caixas d’água abandonadas, por sugestão do escritor e teatrólogo Hugo Zorzetti, que passou a abrigar três unidades de teatro e múltiplas atividades; e o Gustav Ritter: instalado na antiga Casa dos Padres Redentoristas, em 1988, onde tinham suas atividades a Orquestra Filarmônica e o Coral do Estado de Goiás sob a regência do maestro Joaquim Jayme, que fundou a então Escola de Música, para ser um núcleo de formação de instrumentistas de orquestra. “Sempre apresentamos projetos como proposta de mudança”, disse.
Focou seu trabalho também na revitalização de centros urbanos e fomento à literatura, reestruturando áreas como antigos mercados e impulsionando o Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro; na valorização dos autores, incluindo projetos como o “Goiânia em Prosa e Verso”, que lançou centenas de obras literárias; e na democratização do acesso à cultura em parceria com universidades para a difusão de obras.
“Não ficamos parados. Na cultura não se tem retrovisor, só se vê adiante, caminhando, seguindo em frente”, disse, para completar: “Não vale ficar reclamando o pouco que recebeu. Tem-se que fazer o melhor com o que se têm”. “Somar sensibilidade com o talento”, acrescentou. “É preciso ouvir a sociedade, identificar suas demandas, ser criativo, conseguir parceiros e viabilizá-las”.
