O Brasil atravessa um dos cenários econômicos mais perversos para quem produz. Mantemos uma das maiores taxas de juros reais do mundo em um momento em que não há pressão de demanda, o consumo segue fraco, o crédito está travado e os preços dos alimentos caminham para a normalização. Do ponto de vista técnico, não existe justificativa inflacionária para a Selic permanecer no patamar atual.
A explicação para esse juro elevado está em outro lugar: no risco fiscal. A condução das contas públicas, marcada por déficits crescentes, flexibilização das metas fiscais e deterioração da trajetória da dívida, elevou de forma significativa a percepção de risco do país. Diante disso, o mercado exige juros maiores para financiar o Estado brasileiro, e o Banco Central reage de maneira defensiva, mantendo a Selic alta para evitar fuga de capitais, proteger o câmbio e conter potenciais pressões inflacionárias futuras.
É importante deixar claro: não se trata de uma política monetária para conter excessos da economia real. Trata-se de uma reação a um ambiente de insegurança política e fiscal criado pela própria condução do governo.
Quem paga essa conta é o setor produtivo e, de forma especialmente cruel, o produtor rural. O agronegócio brasileiro, que historicamente sustenta o equilíbrio da balança comercial e garante segurança alimentar, está sendo financeiramente asfixiado. Confinamentos, lavouras, integradores e pecuaristas enfrentam crédito impraticável, custos financeiros explosivos, margens negativas e perda acelerada de competitividade.
O resultado é dramático e já está em curso: produtores quebrando não por incompetência ou má gestão, mas porque se tornou inviável gerar lucro com taxas de juros tão elevadas. Não há eficiência operacional capaz de compensar um custo financeiro dessa magnitude.
Enquanto isso, o sistema financeiro responde de forma desigual ao juro alto. Grandes bancos ampliam seus lucros com spreads maiores e acesso a captação mais barata. Em contrapartida, instituições menores, cooperativas e o crédito rural sofrem com aumento da inadimplência e elevação do custo de funding, restringindo ainda mais o financiamento ao campo.
O cenário é claro e preocupante. A inflação corrente não justifica a Selic elevada. O verdadeiro motor dos juros altos é o risco fiscal. Sem disciplina nas contas públicas, previsibilidade e responsabilidade na condução econômica, o país continuará operando sob juros estratosféricos, com efeitos devastadores sobre quem produz.
Se nada mudar, o colapso financeiro do produtor rural deixará de ser exceção para se tornar regra. E quando o campo quebra, toda a economia sente. O problema não é do produtor. O problema é estrutural, e foi criado pela política fiscal adotada pelo governo.
*Fabiano Tavares é produtor rural