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Jales Naves e Edson Nunes (Foto: Lays Carvalho, do IHGG)

Jornalista resgata censura, no regime militar, a duas rádios anapolinas

Edson Nunes lançou seu primeiro livro

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14.08.2026 - 17:30:08

Jales Naves

Especial para A Redação

Goiânia – Mestrando em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás, por onde se formou em Jornalismo, o jornalista e cineasta Edson Nunes lançou na manhã desta sexta-feira, dia 14, no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, para um seleto grupo de intelectuais, o seu primeiro livro, “Depois da censura, a memória – Comunicação e autoritarismo no regime militar em Anápolis”. A obra resgata a censura a duas emissoras de rádio da cidade, Karajá e Santana, fechadas no período autoritário.

Dedicando-se ao estudo das relações sobre comunicação, memória, cultura e poder, o autor exibiu dois documentários que produziu, ambos com o mesmo nome: “Censura: Uma história sem fim”, e que deram origem à pesquisa que resultou no livro. Goiano de Inhumas, ele investiga os modos pelos quais as histórias de comunidades permanecem vivas entre documentos, relatos e lembranças.

Há livros que nascem da tentativa de responder a uma pergunta histórica. Outros surgem do encontro entre documentos, memórias e experiências que insistem em permanecer vivas no tempo. “Depois da Censura…” pertence a esta segunda categoria, como afirmou o escritor José Fábio da Silva, doutor em História, na apresentação da obra.

Pesquisa histórica

Partindo da história do rádio anapolino durante a ditadura militar, como explicou José Fábio, Edson realiza mais do que uma reconstituição de acontecimentos locais. “Seu olhar se dirige aos modos pelos quais a comunicação, a memória e as relações de poder se manifestaram em uma cidade que, longe de ser apenas mais um polo do interior brasileiro, ocupava uma posição geopolítica e logística altamente estratégica para o regime, convertida em Área de Segurança Nacional sob o ronco dos caças supersônicos”.

Ao longo das páginas, informações extraídas de documentos, recortes de jornais, registros sonoros e depoimentos dialogam entre si. “O resultado não é apenas a narrativa de episódios ligados à censura no rádio, mas também a reconstrução de um universo social no qual radialistas, comunicadores, artistas, empresários, ouvintes e agentes públicos participaram, cada qual à sua maneira, da vida cotidiana de uma cidade que acompanhava as transformações do país”, afirmou.

Um dos méritos da obra está na forma como trata a memória. De acordo com José Fábio, em vez de buscar respostas simplificadoras ou certezas absolutas, o autor reconhece as complexidades próprias da pesquisa histórica. “Algumas questões persistem abertas; outras sobrevivem apenas por meio das lembranças daqueles que viveram os acontecimentos. Essa postura revela compromisso com os limites e as possibilidades do trabalho historiográfico”.

Experiência comunicacional

Ao escolher o rádio como eixo central de sua investigação, a pesquisa recupera um espaço fundamental da experiência comunicacional brasileira do século XX. “O rádio aparece não restritamente como meio de disseminação de informações, mas como lugar de sociabilidade, disputa simbólica, construção de identidades e circulação de narrativas sobre a própria cidade”, frisou. O dial anapolino revela-se, assim, como o grande palco de um embate profundo entre projetos antagônicos de sociedade: “de um lado, a ressonância das estruturas oligárquicas tradicionais; de outro, as trincheiras de oposição e o magnetismo da comunicação popular”.

Embora enraizado em Anápolis, o livro ultrapassa os limites da história local. “Suas reflexões dialogam com questões mais amplas sobre memória, comunicação e democracia. Por isso, interessa não somente aos estudiosos do período militar, mas também a pesquisadores, estudantes e leitores que desejam compreender os mecanismos pelos quais as sociedades lembram, narram e interpretam seus próprios passados”, explica José Fábio.

Ao final da leitura, permanece uma constatação importante: a história da censura não se resume aos atos oficiais, às leis ou aos órgãos de repressão. Ela também pode ser encontrada nas experiências de quem viveu sob sua presença, nos silêncios que persistiram e nas memórias que resistiram ao tempo.

Inquietação

O livro e os documentários nasceram “no exato instante em que dei o play no arquivo digitalizado de uma fita K7 antiga”, afirmou Edson Nunes. “Eu não estava no meio de uma pesquisa organizada quando aquele som me encontrou; eu navegava pela internet e me deparei com o áudio que havia sido enviado por alguém de quem não me recordo o nome. Foi o impacto súbito daquelas vozes que despertou em mim uma profunda inquietação, tornou o passado urgente e me obrigou a escavar o que o tempo e o medo tentaram soterrar”.

Ouvir Henrique e Adhemar Santillo operando o microfone da Rádio Santana ao vivo na tarde de 7 de abril de 1975, com a voz embargada pela indignação, anunciando aos ouvintes que a emissora estava sob cerco e que seria desligada pelas forças federais a qualquer segundo, “foi uma experiência avassaladora”, ressaltou. Naquele instante, a censura deixou de ser um conceito abstrato guardado nos livros de história e transformou-se em som, em estática, em um corte abrupto que deixou uma cidade inteira no vácuo. “A gravação daquela fita, que soube depois ter sido preservada ao longo de quase cinquenta anos por um cidadão chamado Davi antes de chegar às mãos de Onaide Santillo, cruzou o ambiente digital até ecoar na minha tela. Foi esse estilhaço de áudio que disparou a necessidade de contar essa história”.

Ao investigar a comunicação durante o regime militar a partir daquele áudio reafirmou a sua convicção de que a história da censura não estava apenas nos raros documentos preservados, nos decretos oficiais ou nos recortes de jornais. “Ela também permanece nas pausas, nos silêncios, nas hesitações e nos modos pelos quais as pessoas ainda escolhem suas palavras ao recordar aquele período”, destacou.

Autoritarismo nas pequenas rotinas

Durante muito tempo, a ditadura brasileira foi narrada a partir dos grandes centros políticos do país. Longe das capitais, porém, como escreveu Edson Nunes, o autoritarismo também se fazia presente nas pequenas rotinas: nos corredores das rádios, nas atitudes cautelosas dos funcionários, nos rumores urbanos e nas vozes que aprenderam a sobreviver à boca miúda. “Anápolis fazia parte desse Brasil de dentro. Entre Brasília e Goiânia, a cidade crescia e consolidava sua importância regional enquanto o país mergulhava em um dos períodos mais autoritários de sua história. Havia movimento nas ruas, disputas de poder e uma vida pública marcada pela presença do rádio”.

Em muitas casas, as primeiras vozes do dia chegavam pelo rádio: às cozinhas, oficinas, armazéns, consultórios e calçadas ainda úmidas do começo da manhã. “Era por essas ondas que a cidade se informava, discutia política, acompanhava tragédias, construía afetos e aprendia diariamente a interpretar o país. Foi também pelo rádio que muitos silêncios começaram a ser percebidos”.

Vazio documental

Fazer cinema documental e pesquisar a história nesse interior profundo é, antes de tudo, um exercício de escavação arqueológica em terrenos deliberadamente ocultados. “Quando decidi ampliar o escopo da pesquisa que daria origem ao curta-metragem “Censura, Uma História Sem Fim” (2024) para o formato deste livro, deparei-me com o vazio documental dos arquivos tradicionais. O autoritarismo frequentemente fragiliza ou dispersa suas próprias provas. Na Manchester Goiana, o progresso à época foi narrado pela altivez das chaminés da vila Fabril, pelo chão de terra vermelha que rasgava o cerrado, pela estrada de ferro e pelo ronco metálico dos caças Mirage que, a partir de 1972, passaram a patrulhar o céu e a impor a mística da Segurança Nacional sobre o cotidiano da população. Mas, enquanto a cidade se modernizava em ritmo frenético, outra história — subterrânea, tensa e analógica — era travada em terra firme. Uma guerra de narrativas disputada palmo a palmo pelas ondas do rádio, onde o controle da palavra pública significava o controle do próprio poder”.

Reconstituir a trajetória das rádios Karajá e Santana sob o comando dos irmãos Henrique, Adhemar e Romualdo Santillo revelou-se um desafio metodológico monumental. A memória coletiva de Anápolis quase nunca transbordava esses episódios. Nas lembranças dos moradores mais antigos, “A Tribuna do Povo” e “O Povo Falou, Tá Falado” ainda ecoavam quando provocados, mas era raro o patrimônio da época em que a cidade parecia almoçar ouvindo a si mesma. “Além disso, quando me voltava para os arquivos oficiais em busca de materialidade, o que encontrava era o deserto. As fitas de rolo haviam sido apagadas, reutilizadas ou perdidas; as fotografias dos estúdios originais nem existiam e os registros burocráticos do fechamento dessas estações pareciam ter evaporado nos meandros ministeriais de Brasília”.

“Foi nessa escassez documental que compreendi a centralidade da história oral para esta obra. Diante do silêncio dos arquivos de papel, a voz humana precisou reassumir sua importância de documento histórico fundamental. Sentar-me diante de Romualdo Santillo, escutar a precisão cirúrgica de suas memórias e testemunhar o brilho nos olhos de quem viveu a trincheira do dial há mais de meio século não foi apenas uma etapa de coleta de dados. Foi o próprio motor da escrita”, afirmou. Pelo depoimento de Romualdo, de jornalistas como Nilton Pereira e Godofredo Sandoval e de radialistas e escritores como Iron Junqueira e Castro Alves, o livro pôde costurar os retalhos de um passado que corria o risco de desaparecer com o tempo. “A oralidade aqui não é um recurso secundário de ilustração; é a ponte viva entre o presente e os fatos”, frisou.

Ao longo das páginas, o leitor encontrará personagens reais, documentos históricos, depoimentos e reflexões sobre comunicação, poder e autoritarismo. “Não se trata de uma narrativa definitiva. Como toda aproximação com o passado, este livro convive com as lacunas dos arquivos, os limites da memória e a consciência de que nenhum relato se oferece completo”, esclareceu.

Importância da lembrança

“A própria escolha desta linguagem dialoga com a trajetória a partir da qual aprendi a olhar o mundo: o jornalismo, a cultura, o teatro, a literatura e o cinema. Por isso, sempre me interessaram menos os fatos isolados do que os sentidos que produzem, as reverberações que deixam e os modos pelos quais se incorporam à vida das pessoas”, anotou. “O papel nos dá o espaço necessário para estender o alcance da tela, permitindo que o leitor sinta com mais detalhes os fatos narrados, acompanhe a história no seu ritmo e respeite suas pausas e respirações entre um capítulo e outro. As páginas nos permitem desacelerar, investigar as nuances das alianças familiares e políticas, compreender o peso da dinastia dos Caiado na rádio Cultura e dissecar o cálculo político milimétrico que os Santillo operavam diariamente entre a imunidade parlamentar e a provocação irônica”.

O livro não pretende encerrar uma história. “Pretende mantê-la em circulação. Lembrar também é uma forma de cuidar da democracia. Toda cidade guarda memórias que ainda precisam ser contadas. Sobretudo aquelas que quase foram condenadas ao silêncio”, concluiu.

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por Taíssa Gomes

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Um comentário

  1. A ESQUERDA TEM SEMPRE UM MOTIVO PARA TRAZER A TONA TUDO QUE LEMBRA O PASSADO “SOFRIDO” POR ELESO MAIS INTERESSANTE QUE SEMPRE TRAZEM ALGUMA COISA TIPO ESTE LIVRETO EM ANOS DE CAMPANHA, ATÉ ME PARECE SUSPEITO O QUE VOCÊ ACHA?

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