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Inteligência Artificial e Engenharia: o balanço entre criatura e criador

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06.11.2023 - 07:34:41
O avanço da engenharia tem proporcionado maravilhas no campo da inteligência artificial. Sistemas são capazes de interagir, aprender e adaptar-se a situações em constante mudança, algo que há pouco tempo era considerado exclusivo do domínio humano.
Contudo, enquanto a IA pode processar informações em uma escala inimaginável para o cérebro humano, existem nuances e características inerentemente humanas que permanecem desafiadoras para as máquinas replicarem. Um engenheiro pode ser solicitado a criar uma estrutura que não seja apenas funcional, mas também esteticamente agradável e culturalmente relevante para uma comunidade específica.
Os seres humanos, por mais brilhantes que sejam, possuem uma capacidade limitada de processamento e retenção de informação. Não são raros os casos em que engenheiros estão envolvidos em trabalhos de uma tal complexidade que sua adequada solução possa vir a demandar dias, semanas ou até meses. Em contraste, as máquinas, especialmente aquelas equipadas com IA regenerativa, são capazes processar e analisar vastas quantidades de dados em frações de segundo, proporcionando soluções mais rapidamente.
Não obstante tal velocidade de processamento de dados, aquilo que continua tornando peculiar a ação humana é sua capacidade de abstração e inspiração. Um engenheiro pode, a partir da mera observação de uma paisagem, imaginar uma ponte cujos contornos podem não apenas ter base nas necessidades técnicas, mas buscar inspiração na forma das montanhas ou no fluxo do rio abaixo. A habilidade humana de ver além dos dados, conectar ideias aparentemente desconexas e de conceber insights inovadores é algo que, até o momento, a IA não conseguiu replicar em sua plenitude.
Definitivamente, a engenharia não se resume apenas a cálculos e design. As atividades usuais de um engenheiro também envolvem habilidades de manipulação de instrumentos de marketing, de lógica de argumentação, com vistas a convencer os stakeholders da viabilidade de seus projetos e da garantia de que suas popostas atendam às necessidades do cliente. 
Há outrossim uma dimensão comercial intrínseca ao trabalho do engenheiro, que envolve negociações, entendimento das necessidades do cliente e até mesmo diplomacia em projetos de grande escala. A capacidade de barganhar, captar nuances sociais e estabelecer relações de confiança é algo profundamente humano, deve ser própria da natureza do engenheiro e está, ao menos até o presente, totalmente fora dos atributos da IA.
É interessante observar como a tecnologia, em vez de afastar os seres humanos de suas raízes, restabelece alguns dos princípios mais caros à tradição do pensamento humanista ao longo da história. Por séculos, os questionamentos sobre o surgimento, propósito e significado da vida constituíram o cerne das preocupações de algumas das mais brilhantes mentes, tanto a Oriente quanto a Ocidente do planeta. 
Neste momento, de emergência da assunção da IA de muitas das tarefas analíticas e processuais, observa-se uma espécie de liberação, relativa a tempo livre, para que o pensamento propriamente humano possa se dedicar às grandes questões as quais, uma vez e para sempre, constituíram a base e fundamento de nossa atividade intelectiva. Seria a vivência, na acepção fenomenológica do termo, do ócio criativo ao qual se referia o recentemente falecido sociólogo italiano Domenico de Masi.
Não obstante a IA se constituir em meio de excepcional competência para se obterem respostas dentro de um contexto específico e delimitado, criado pelo engenheiro, cabe a nós, seres humanos, definir as perguntas e contextos, bem como buscar significados mais profundos. Nesse cenário, a tecnologia se torna extensão de nossa busca por compreensão, e não um substituto para nossa inerente curiosidade e desejo de compreender o mundo ao nosso redor.
*Leonardo Guedes é professor da UFG/PUCGoiás – Dr Eng Eletr/Unicamp
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por Leonardo Guedes

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