Lucas Cássio
Goiânia – Política, empreendedorismo e missões comerciais foram os temas abordados em entrevista concedida ao jornal A Redação pelo diretor-presidente da Jalles Machado S/A, Otávio Lage de Siqueira Filho. Ele, que já foi prefeito de Goianésia (GO) por dois mandatos, de 2000 a 2008, fez uma análise do momento de crise política do país e seu reflexo na economia. Também analisou o governo estadual e a gestão municipal de Goianésia, que está sob o comando de Jalles Fontoura, seu irmão.
Otávio Lage classificou os aumentos nos valores, tanto em energia elétrica quanto no combustível, como uma “ingerência exagerada” do governo na economia. Ele ainda defendeu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. “O prejuízo que ela está dando em ficar no governo é muito grande para o país”, alegou. “O governo no Brasil é muito grande e interfere muito na economia. O Brasil está perdendo investimentos internacionais”, acrescentou.
João Unes e Lucas Cássio entrevistam Otávio Lage (Foto: Adriana Marinelli)
O empresário defendeu que “Goiás ainda é um exemplo de Estado com politicas públicas competentes” e que Goianésia hoje é referência na região Norte do Estado. Durante a entrevista, Otávio Lage, que teve sua gestão marcada por bons resultados, descartou qualquer possibilidade de retornar à política. “Agora nós temos que dar oportunidade para outras pessoas. Renovar é muito bom”, defendeu.
Atualmente, a Jalles Machado tem produção de etanol anidro, industrial e hidratado, açúcar convencional e orgânico, produtos de higiene e limpeza, energia elétrica e levedura. A empresa gera cerca de 3.500 empregos na região de Goianésia, onde está instalada. Seu faturamento no último ano girou em torno de R$ 800 milhões.
Confira a entrevista na íntegra:
Jornal A Redação – Como o senhor avalia esse cenário de crise para as empresas no Brasil?
Otávio Lage – A crise quando vem, e pesada como está acontecendo, nenhum setor pode falar que está isento, que está tudo bem, que as coisas estão normais. O consumo de combustível está caindo e as pessoas estão economizando tudo que podem e isso acaba chegando ao transporte de combustíveis e chegando à alimentação, e no açúcar, que é o nosso caso. As pessoas diminuem tudo aquilo que elas podem para passar esse momento. A inflação é outra coisa que está estranha. Mesmo com recessão, ela está aumentando. Acredito que a ingerência exagerada do governo na economia fez com que esse ano tivesse aumentos substanciais acima do normal, tanto na parte de energia elétrica quanto no combustível. Isso impactou muito na inflação.
A.R. – Quais as estratégias que o Grupo Otávio Lage tem utilizado para enfrentar esse momento?
Otávio Lage – Sempre tivemos uma ação de ter produtos para vender no mercado interno e no mercado externo. No externo está acontecendo uma reação, ao contrário do Brasil. O preço do açúcar está subindo e isso está facilitando, para nós, a exportação e também devido ao câmbio, que está favorável. Estamos tendo vantagem, ao contrário do mercado interno. Sempre tivemos como política “não colocar os ovos em uma cesta só”. Temos o açúcar orgânico, temos outras atividades fora do ramo sucroalcooleiro, como é o caso de pecuária, temos a parte de produção e exportação de energia elétrica. Temos o látex, que é uma atividade que entramos há 20 anos para gerar empregos para a mão de obra que seria dispensada do corte manual. Temos investimentos na pecuária, nós temos confinamento, cria, recria e engorda em confinamento.
A.R. – Qual é a expetativa para a safra desse ano?
Otávio Lage – Ano passado foi a nossa safra recorde. Conseguimos nossas unidades tivessem sua capacidade plena de processamento de cana, foram 4,6 milhões de toneladas. Este ano esperamos aproximadamente o mesmo valor. Talvez um pouco menos, pela oscilação da chuva.
A.R. – Podemos dizer que a Jalles Machado é uma empresa sustentável?
Otávio Lage – Sim, temos muita consciência da questão ambiental e da sustentabilidade. Dos 50 mil hectares de plantação, mais ou menos 15 mil que estão voltados para a agricultura orgânica, onde não se coloca nenhum adubo químico, somente adubo orgânico. Não aplicamos herbicidas, inseticida químico, somente o biológico, temos toda a parte de operação manual, não colocamos fogo no canavial. Então nós temos uma agricultura sustentável. Nas demais áreas que não são orgânicas a gente tem uma preocupação muito grande com algumas práticas, como a preservação das nascentes. Temos um viveiro de mudas nativas do Cerrado e programas de conscientização de preservação de animais silvestres, como o programa “Ame a Ema”, que aumentou a quantidade de emas na região. Temos o reconhecimento do ISO 1400, 1800. Em questão de tratamentos de resíduos, fazemos tudo como determina a legislação.
A.R. – Existe algum novo negócio previsto para os próximos anos?
Otávio Lage – Novos negócios só quando a gente chegar a uma posição de endividamento confortável. Mas pensamos em fazer algumas operações, como a produção de Biogás, projetos de irrigação para não sofrer com o tempo seco. Temos projeto de fazer uma fábrica de processamento do látex extraído dos nossos seringais. Temos alguns projetos que estão na prateleira esperando o momento certo.
(Foto: Adriana Marinelli)
A.R. – Quais as ações direcionadas aos colaboradores da empresa?
Otávio Lage – Nós investimos muito nas pessoas. Temos um trabalho muito grande de valorização do nosso maior patrimônio, os recursos humanos. Implantamos o Programa de Participação nos Resultados (PPR) em 1995, fomos pioneiros nisso. A lei só veio a existir em 2000. Chegamos a pagar até três salários de bonificação. É um programa de muito sucesso. Temos um programa onde investimos 2% do faturamento bruto da empresa em ações sociais, de saúde, esporte e lazer. Temos na educação uma escola para os colaboradores, são 400 alunos. Temos um clube de lazer, uma escolinha de futebol e ainda uma estrutura no Lago Serra da Mesa para os colaboradores que é muito boa.
POLÍTICA
A.R. – Como o senhor avalia esse cenário de crise política nacional? O senhor acredita que o impeachment da presidente seria a melhor solução?
Otávio Lage – O prejuízo que ela está dando em ficar no governo é muito grande para o país e para as pessoas, então é preciso ver o que é melhor para o povo. Ela não soube ter gestão do governo, da economia. A questão política está fazendo o país andar para trás. A gente vê recessão, inflação, desemprego, os jovens que estão entrando no mercado de trabalho não têm espaço. Na nossa empresa nós chegamos a ter 4,5 mil funcionários, hoje estamos com 3,6 mil durante a safra. Esse ano deve ficar com 3,5 mil. As empresas estão com dificuldade para manter os salários com todos os encargos que existem. No nosso setor nós perdemos muito espaço em relação à fixação do preço do combustível sem acompanhar o mercado internacional. Hoje o preço do mercado internacional baixou e aqui está alto, isso para recompor o prejuízo da Petrobras, mas na realidade o preço hoje do combustível deveria ser mais baixo, mas o governo não trabalha com o mercado, ele trabalha com ingerência, quando você tem um governo pequeno e com leis de mercado que se auto regulamentam com facilidade e agilidade todos ganham, como é nos EUA. O governo no Brasil é muito grande e interfere muito na economia. O Brasil está perdendo investimentos internacionais.
A.R. – O que o senhor acha que tem atrapalhado a gestão da presidente Dilma?
Otávio Lage – O governante deve ter credibilidade. Quando você perde a credibilidade tudo fica complicado. Imagina que durante a campanha ela teve um discurso e criticou o adversário pela linha que ele estava propondo, após ela ganhar a eleição ela fez tudo aquilo que o Aécio estava propondo, então a credibilidade dela foi totalmente abalada. Hoje o Brasil está com uma crise profunda porque não tomou as medidas que deveria ter tomado lá atrás.
A.R. – Em relação a Goiás, o governador Marconi Perillo está sabendo lidar com essa crise?
Otávio Lage – Sim, eu vejo o governador um grande estadista. Logo quando foi eleito ele tomou medidas duras por causa da crise que estava acontecendo e se antecipou com redução de despesas, coisa que o governo federal não fez até hoje.
A.R. – Como o senhor avalia essa gestão do governo de Goiás?
Otávio Lage – Quando a crise chega em nível nacional, ninguém está imune. O governador Marconi fez o dever de casa e eu digo que a situação do Estado poderia estar pior, mas ele está conseguindo levar mesmo com a dificuldade. Ele está fazendo o que deveria ser feito e com certeza no momento certo as coisas vão melhorar, mesmo que com menos intensidade do que ele gostaria. Goiás ainda é um exemplo de Estado com políticas públicas competentes.
A.R. – O senhor esteve à frente da gestão da prefeitura de Goianésia por dois mandatos. Como avalia a administração da atual gestão da cidade?
Otávio Lage – O Jalles tem uma experiência política muito maior do que eu tive quando fui prefeito. Ele conseguiu junto ao governo estadual muitos investimentos para o município, mesmo com toda a dificuldade que o Estado passa. O Jalles conseguiu colocar Goianésia como referência na região Norte. Hoje a cidade é polo de várias ações do governo estadual. Ele conseguiu terminar a estrada de Goianésia a Rianápolis e agora uma estrada nova, de Goianésia até os municípios de Cafelândia, Juscelândia, Velho Barreiro e Campo Alegre. Ele também conseguiu equipar a prefeitura com máquinas para fazer recapeamento asfáltico, máquinas de patrulha mecanizada. Ele fez um trabalho muito grande na área de habitação, ele pegou uma fase ruim do programa Minha Casa Minha Vida, quando ele estava sendo diminuído. Não conseguiu todas as 2 mil casas que queria fazer, mas vai chegar próximo. Tem a mpliação do parque da lagoa, que leva o nome do nosso pai. Têm investido na rede de esgoto, isso é muito importante para evitar dengue e outras doenças, esse é um tipo de investimento que às vezes não é valorizado, mas é importante. Hoje Goianésia tem um destaque muito grande e ele conseguiu levar a faculdade de Medicina, que era uma proposta de campanha. Goianésia hoje é um polo regional de desenvolvimento. O Jalles é um hábil político, é um bom gestor, e tem conseguido muitas verbas e investimentos para o município. Isso em uma época de crise.
A.R. – Existe a possibilidade de o senhor retornar para a vida política disputando algum cargo?
Otávio Lage – Não. Eu já fiz a minha colaboração com os oito anos dedicados à causa pública. Fizemos uma gestão com várias ações boas, conceitos que trouxemos da iniciativa privada e que marcaram. Agora nós temos que dar oportunidade para outras pessoas.
MISSÕES DO GOVERNO
A.R. – O senhor participou da comitiva goiana da última missão do governador Marconi, realizada na Oceania. Qual foi o papel do senhor nessa missão?
Otávio Lage – Fomos representando o segmento sucroenergético. Nossa empresa tem negócios na Austrália, nós exportamos açúcar orgânico para lá. Tivemos na empresa que exportamos e é uma forma de estreitar relacionamento. Eles gostaram da nossa visita e com certeza vamos ter um reflexo no aumento da exportação. Além disso, a gente deixa a nossa empresa nos órgãos de comércio bilaterais e acaba tendo uma divulgação. Ainda há as conferências e contatos que o governador faz. Isso tem reflexo a médio e logo prazo.
A.R. – O que as missões comerciais do Estado representam para os empresários?
Otávio Lage – Quando você conhece outro país, a realidade de outro país, se você não fizer nenhum negócio já valeu a pena, porque a gente traz conhecimento e conceitos importantes que acabam sendo colocados na empresas. Ainda tem a oportunidade de estreitar relacionamentos comerciais e atrair investimentos que você não estava imaginando. Quando a gente mostra a empresa, acaba abrindo novos mercados para colocar nossos produtos.