Jales Naves
Especial para o AR
Goiânia – Joaquim Mendes Alegre, valente peão que era conhecido como Joaquim Cuiabano, possivelmente por ter nascido em Cuiabá, MT, tinha uma atividade especial naqueles tempos distantes, no século XIX, numa região pouco habitada: campear animais selvagens, bravios, pelos enormes espaços entre Coxim e Taquari, nesse Estado do centro-oeste brasileiro, que amansava para vender. Como relata seu neto Agnelo Naves de Rezende, um bom contador de causos e histórias, ele vivia dessa procura de garanhões pelos sertões mato-grossenses, em seu cavalo, para capturar, domesticar e levar esses animais para os centros urbanos de então, já devidamente preparados para as tarefas nas fazendas e mesmo na cidade.
Certa manhã, em seu alazão, seguia uma pista, atravessando uma mata espessa, perto de Taquari, quando viu de longe uma jovem índia – que depois descobriu ser da tribo Bororo –, tentando chegar a um córrego para beber água com uma criança presa em seu corpo por uma flecha. Apressou a caminhada e correu em sua direção, para socorrê-la. Ao chegar, procurou segurá-la, erguê-la, apoiando seus esforços e a carregando até a aguada, a fim de saciar sua sede. Em seguida, colocou-a no cavalo e a levou até uma cidadezinha mais próxima, para os devidos curativos. A criança, uma sobrinha, com a qual ela tentava fugir da agressão que seus familiares estavam sendo vítimas naquela invasão de suas terras, não sobreviveu, pois a seta havia perfurado seu peito; outros parentes dela também morreram.
A índia tinha, em suas mãos, sinais de 24 perfurações – contam os mais antigos que os nativos se protegiam com as mãos e por isso as marcas nela representariam a quantidade de flechas atiradas em sua direção. Ela estava muito debilitada e só conseguiu sobreviver graças ao atendimento que recebeu, que foi rápido e estancou os ferimentos, e logo se recuperou. Passou a viver com Joaquim Cuiabano, na chácara do Beijo Mulato, mudaram-se para Mineiros, GO, casaram-se, adotou o nome de Rita Pereira de Souza e tiveram sete filhos – Adilino, Sebastiana, Telvina, Maria, Selvino, Ana e Joaquim, o caçula. Joaquim Cuiabano faleceu em 1929 e Rita em 1940.
Agora, seus descendentes estão levantando as informações para escrever a sua história e a incorporar à trajetória da família, para destacar o importante trabalho que os pioneiros realizaram.
Briga pela terra
João Barachello de Rezende construiu sua caminhada na então comunidade do Cerradão, no Mato Grosso, onde trabalhou a terra, foi atuante em seu meio e Delegado de Polícia nomeado.
No início da década de 1910 ele se casou com a prima Maria Rita Naves de Miranda em Alto Araguaia, MT, foram morar na fazenda Morro Alto, onde construiu um rancho de pau a pique, forrado com sapé, e ali nasceram os filhos.
Certa vez, conforme o relato do neto, chegou a notícia de que revoltosos – “vindo de Itiquira e já temidos pela violência como atacavam os povoados e fazendas, confiscando tudo, inclusive as mulheres, que violentavam” –, iriam invadir a região. João então se preparou, contratando pessoas para ajudar nesse enfrentamento, “dentre os quais integrantes da família Furquim, e se alojaram na casa, com suas armas, aguardando os invasores. Estavam organizados para uma guerra”.
Tão logo os revoltosos chegaram foram surpreendidos com os disparos vindo de todas as direções, deixando-os desorientados. No final, pela estratégia adotada, houve poucas baixas do lado dos defensores, apenas ferimentos, e resultando em muitas mortes de visitantes. Desarticulados, os demais invasores trataram de fugir daquele lugar.
Algum tempo depois dessa ação, com problemas de saúde, João Barachello viajou com a família para Mineiros, para tratamento, e ali ficou por vários meses. Já se sentindo melhor, decidiu voltar para Morro Alto, para assumir sua propriedade, oportunidade em que foi surpreendido por um representante da família que o ajudou na defesa daquelas terras, que lhe fez uma ameaça.
– Se você quiser sair daqui com vida é melhor ir embora. A fazenda agora é nossa.
Outra surpresa foi que o rancho que construíra para morar tinha sido queimado e, com ele, os documentos de propriedade.
Desarmado e despreparado para uma reação, ele juntou suas tralhas e seus familiares e foram para Alto Araguaia, onde se instalaram. Reorganizou-se, mas não conseguiu recuperar os títulos de posse e nem reassumir a fazenda, quando decidiu, algum tempo depois, retornar a Mineiros, onde viveu até o seu falecimento.
A filha Alzira Naves de Rezende, quando trabalhou em propriedades rurais próximas da cidade, e ia toda manhã para os serviços de colheita e soca do arroz, na fazenda do ZéCarmo, e levava seu filho caçula, Agnelo, passava na porta do cemitério, onde o pai dela foi enterrado, e sempre lembrava dos episódios vividos.
Mineiros
Integrando o grande núcleo familiar que se organizou na cidade de Mineiros, no sudoeste goiano, divisa com o Mato Grosso, Alzira Naves de Rezende, filha de Maria Rita Naves de Miranda e João Barachello de Rezende, mato-grossense de Guiratinga, nasceu na fazenda Cerradão, no dia 21 de setembro de 1915. Ela se casou em 1932 com um filho de Joaquim Cuiabano e Rita Pereira de Souza, Selvino Mendes Alegre, também de Guiratinga, onde nasceu em 1895, na fazenda Morro Alto. Selvino trabalhou na roça e conseguiu, em 1974, sua aposentadoria.
O casal teve nove filhos. Os seis primeiros assinaram Naves Alegre: Jocelina, Gildo, Maria, Sebastião, Luzia e Joaquim. Quando nasceu a sétima, a escrivã do Cartório não permitiu mais a assinatura Alegre, por não serem casados; depois, com o casamento, os outros três filhos passaram a assinar Naves de Rezende: Alcina, Nilda e Agnelo.
Muito querida e admirada em Mineiros, Alzira foi homenageada pela Prefeitura Municipal, por seu Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE), que colocou seu nome num dos principais reservatórios de água da cidade, com capacidade para 900 mil litros, inaugurado em 1995. A iniciativa da homenagem foi do vereador Pedro Paulo da Silva, o Pedro da Caixa, do PMDB, na gestão do prefeito Antônio Carlos de Carvalho Neto.
Conflitos
Com muitas lembranças guardadas em sua memória, Agnelo Naves de Rezende, que sempre teve um bom relacionamento com o pai, com quem conversava muito, lembra-se de episódios que entraram para a história e dos quais Selvino teve participação. Dentre esses, a cultura garimpeira na região sudeste mato-grossense, formada pela migração, principalmente da região nordeste do país no início do século XX, atraída pela descoberta de imensas jazidas diamantíferas; posteriormente, essa atividade possibilitou a fundação de cidades como Poxoréu, Guiratinga, Torixoréu, Tesouro, General Carneiro, Barra do Garças e Alto Araguaia.
Em sua tese de doutorado em Ciências Políticas pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, “Poxoréu – percursos histórico-políticos”, de 2012, Pedro Pereira Borges mapeia o momento de implantação do coronelismo do Garças e Araguaia. Segundo ele, “foi um coronelismo guerreiro, centrado na pessoa de José Morbeck, que, mesmo como funcionário público, se contrapôs às autoridades mato-grossenses, criando entre os garimpeiros laços de afeição, submissão e mesmo de temor”. Ressaltou a semelhança com o modelo criado por César em Roma, centrado na figura de um líder, que se torna ou se julga o único detentor do poder, e mantinha sua autoridade graças à patente militar ou a fatos heroicos. Ele organizou a região nesses moldes, loteando os aglomerados humanos entre os seus diversos representantes.
Nesse contexto destaca a disputa entre os coronéis José Morbeck e Manoel Balbino de Carvalho, que dividiam a liderança sobre os garimpos do sudeste mato-grossense, mas cujas relações ultrapassavam o território de Mato Grosso para alcançar os centros consumidores do diamante. Os dois protagonizaram um conflito armado que pôs fim às facções dos coronéis guerreiros e passou a usar da estratégia de criar distritos de paz e circunscrições municipais governados por políticos que não haviam participado dos eventos ocorridos entre 1922 e 1929. Ficou conhecida a invasão da Delegacia de Poxoréu, que resultou, posteriormente, na prisão de Carvalhinho, em setembro de 1929, em Jataí, GO.
Selvino apoiou o grupo de Morbeck e se lembrava dos locais em que se instalaram, das trincheiras que montaram, das armas (carabinas) que utilizaram e dos tiroteios intermináveis, com poucas baixas de seu lado.
Nas lembranças de Agnelo, também, um conflito entre irmãos, que acabou gerando uma tragédia, que deixou inconformada a mãe, a índia Rita, que ainda era viva e morreu velhinha, com uns 90 anos; ela “chorava lágrimas de sangue com esse acontecimento”, recorda-se. “O irmão mais velho, Adilino, casado com Maria Abadia, não queria que seu irmão caçula, Joaquim, casasse com sua cunhada Maria José; discutiam muito e, num certo momento, quando Adilino quis tomar satisfações, já irritado com a insistência do irmão, tentou agredir Joaquim, que puxou uma faca e o assassinou”, afirmou.