A preocupante escalada da inadimplência no Brasil e, especificamente, em Goiás, tem deixado o comércio varejista apreensivo. São muito evidentes os reflexos negativos desse cenário na saúde financeira das empresas e na capacidade de consumo da população. É um ciclo vicioso, que exige atenção imediata e soluções abrangentes.
Os números mais recentes da inadimplência denunciam um quadro desafiador para a economia brasileira. Segundo dados da Serasa, o Brasil atingiu um patamar recorde de inadimplentes, com 82,8 milhões de negativados em março deste ano. Esse contingente expressivo reflete a dificuldade de milhões de famílias em honrar seus compromissos financeiros, impactando diretamente o poder de compra e a confiança no mercado.
Em Goiás, a situação não é menos preocupante. O percentual de famílias endividadas no estado chegou a 75,8% em março, segundo levantamento baseado em dados da Fecomércio-GO.
O endividamento em si não é, necessariamente, um sinônimo de inadimplência. Porém, é um forte indicativo da fragilidade financeira, que pode facilmente se converter em atrasos e não pagamentos, especialmente num contexto de juros altos e inflação persistente.
Para o varejo, a inadimplência é um entrave significativo. Ela se traduz em vendas perdidas, aumento do risco de crédito, necessidade de provisionamento para perdas e, consequentemente, na desaceleração do crescimento dos negócios. Pequenos e médios empresários, que formam a espinha dorsal do comércio varejista, são mais vulneráveis a essas flutuações, enfrentando dificuldades para manter empregos e investir em suas operações.
Nesse contexto, a execução do programa Desenrola 2.0 pelo governo federal é recebida com otimismo, mas acompanhada de cautela. A iniciativa, que visa facilitar a renegociação de dívidas e auxiliar milhões de brasileiros a recuperarem sua saúde financeira, é um passo importante para aliviar a pressão sobre os consumidores e, com isso, reaquecer o mercado.
Espera-se que o Desenrola 2.0 realmente surta o efeito desejado, oferecendo condições favoráveis para que os inadimplentes possam quitar seus débitos, com descontos significativos e prazos estendidos. A expectativa é que, ao limpar o nome de milhões de pessoas, o programa restabeleça o acesso a crédito e estimule o consumo, injetando novo fôlego no varejo.
Mas é preciso destacar que programas de renegociação de dívidas, por mais bem-intencionados que sejam, atuam na consequência e não na causa do problema. Para uma solução duradoura e estrutural, é essencial que essas medidas emergenciais sejam acompanhadas por políticas econômicas mais amplas e consistentes.
Por exemplo, o controle efetivo da inflação e a queda nas taxas de juros são pilares inegociáveis para a recuperação econômica sustentável. Mas há um novo fator de pressão sobre o orçamento das famílias que já produz efeitos concretos sobre o varejo brasileiro: a explosão das plataformas de apostas esportivas, as chamadas bets. Regulamentadas de forma tardia e insuficiente, elas avançaram sobre todas as camadas da sociedade sem limites claros para publicidade, alcance e estímulo ao consumo compulsivo. O resultado é que uma parcela crescente da renda de milhões de brasileiros, especialmente jovens e famílias de baixa renda, está sendo desviada do consumo básico e do comércio tradicional para apostas digitais de alto risco.
É urgente revisar o modelo de operação das bets no Brasil, endurecendo regras de funcionamento e, principalmente, restringindo de forma severa sua publicidade. Assim como ocorreu com os cigarros, a proibição de propagandas de apostas precisa entrar definitivamente no debate público, diante dos danos financeiros e sociais que se tornam cada vez mais evidentes.
A expectativa do varejo é que o diálogo entre o setor produtivo e o governo resulte em ações coordenadas que não apenas combatam a inadimplência no curto prazo, mas que também construam um futuro econômico mais sólido e justo para todos. É um esforço conjunto que beneficiará consumidores, empresários e a economia, em geral.
Marisa Carneiro é presidente do Sindilojas-GO (Sindicato do Comércio Varejista no Estado de Goiás)
