José Abrão
Goiânia – Você deve já ter reparado uma moda que tomou o Instagram nas últimas semanas. De repente, seus amigos estavam postando imagens deles mesmos que lembravam obras de arte feitas em diversos estilos. Ao procurar a fonte, a surpresa: o conteúdo é produzido por Inteligência Artificial (IA) em softwares específicos, alguns deles até pagos.
Essa febre passageira nas redes sociais gerou uma resposta por parte dos artistas, especialmente no Twitter, com a tag #HumanArtists. Desenhistas, pintores, ilustradores e designers postaram suas obras e seus processos criativos, urgindo que a comunidade aprecie produções humanas e, se for comprar arte, que prestigie as reais. Por si só isto já gera um estranhamento: existe arte que não é humana?
Perguntas perenes sobre o assunto retornaram por meio desta discussão: afinal, quem decide o que é arte? “Não existe uma resposta objetiva sobre isso: tentar responder o que é arte, é discutir o sexo dos anjos. Não há necessariamente uma posição clara se é arte, mas podemos valorar isso dentro de uma gradação de originalidade, de sofisticação estética, mas a arte nunca esteve dissociada de um contexto, nunca é apenas o objeto em si”, pondera o professor da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás (FIC/UFG) e doutor em Arte e Tecnologia pela Universidade de Brasília (UnB), Marcilon Almeida.
O artista goiano Marcelo Peralta era antes arquiteto e fez o caminho contrário: pela profissão, já está acostumado a usar programas e a desenhar em plataformas eletrônicas ou digitais. Sua arte, porém, acabou nascendo do reencontro com o analógico e técnicas tradicionais de pintura e desenho. “Tenho aversão nenhuma à tecnologia. Algumas das minhas obras foram feitas em computador, mas porque é uma técnica que casa com a linguagem que quero. Não concordo que podemos chamar isso apenas de ferramenta, acho que é algo que chega com um propósito de substituição não só do artista, mas do trabalho do ilustrador, do designer”.

O professor da UFG, Marcilon Almeida (Foto: acervo pessoal)
Ética e autoria
Para Peralta e Marcilon, os principais pontos que precisam ser debatidos está em como os programas produzem as artes: a partir de bancos de dados utilizando imagens puxadas da internet sem critério, autorização e sem respeitar direitos autorais. “O que está em discussão, de fato, é que certas imagens feitas utilizando IA estão trazendo em si status de objeto artístico. Isso abre questões muito interessantes, especialmente porque estas tecnologias precisam ser treinadas por milhares de obras de arte feitas por pessoas que vão fornecer as bases estéticas para esse algoritmo”, diz Marcilon.
Ou seja, é preciso discutir de forma mais ampla sobre a ética do processo, porque isso é feito de forma exploratória. Esses artistas deram autorização para que suas obras fossem usadas dessa forma para alimentar a máquina? Algumas empresas estão falando em dar a opção de recusar que suas criações sejam usadas no banco de dados que o software usa para aprender, mas como isso vai ser feito? “Você vai ter que ficar de olho no mundo inteiro, vigiando se suas obras não estão sendo usadas e contar com a boa vontade das empresas. Elas sabem que o que estão fazendo é apropriação indevida de direito autoral e que o que estão fazendo é antiético”, analisa Peralta.

Para o artista, há como contornar isso. “Ao invés de opção para sair, seria melhor fazer uma opção para entrar; criar esses bancos de dados respeitando os direitos. Toda vez que ele for usado, os artistas que toparam participam recebem alguma coisa”, sugere. “Existem formas de tentar chegar a um consenso, mesmo não sendo uma solução perfeita”, completa.
Marcilon argumenta que contexto e sofisticação permanecerão guias da autoria. Se a ferramenta produz uma obra, certamente não é arte, mas se um artista usa a ferramenta para fazer a obra, é outra coisa. “Um artista que utilize estas ferramentas para gerar um objeto artístico é diferente de uma imagem reproduzida de forma aleatória, sem questão artística e descontextualizada. O contexto é o que ainda define o significado da arte, principalmente na produção contemporânea”.

Questões trabalhistas
Outra preocupação é como a novidade vai impactar o mercado não apenas artístico, mas corporativo, afetando o trabalho de ilustradores e designers. Para Peralta, a ameaça ao mercado de trabalho é real. “Para um operário de fábrica de carros, houve uma grande diferença entre uma chave de fenda e o dia em que chegou um braço mecânico na linha de produção. Isso não vai acontecer agora [no universo criativo], mas é um processo que deixa claro para onde vai levar”, preconiza.
O artista sugere que é necessária organização ao redor de legislação que abarque a novidade, mas entende as dificuldades, já que a tecnologia avança num passo impossível de acompanhar. “Esse processo é novo, é tudo terreno inexplorado, e é um momento de febre do ouro. Isso tem que ser adaptado e precisamos fazer parte do processo para que não seja tão predatório, que seja democratizado.”
Historicamente, a tecnologia redefine profissões e fazem com que outras novas surjam. Desta forma, Marcilon não acredita que os humanos deixarão de fazer arte nem que ela perderá seu valor, mas que todo o processo criativo e de apreciação artística deve acabar ressignificado. “A criatividade humana tem idiossincrasias que são difíceis de serem reproduzidas por IA. Ela é muito boa para fazer determinado tipo de imagem, mas não todas. O trabalho artístico humano vai permanecer por muito tempo ainda.”