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Ideb de 3,8, o que temos a comemorar?

11.09.2014 - 18:45:52
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Goiânia – A divulgação dos índices do Ideb referentes aos dois últimos anos causou alvoroço na esfera governamental, porque Goiás ficou em primeiro lugar no ranking nacional do ensino médio, com nota 3,8. Como presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Goiás, parabenizo os educadores que, a despeito da falta de políticas de valorização salarial e de promoção profissional, não fugiram à responsabilidade e nem fizeram do descaso oficial um empecilho para o envolvimento e a dedicação ao ensino. Mas, devemos mesmo comemorar?

Como pedagoga, vejo com grande preocupação todo o oba-oba que estão fazendo em cima desse resultado, visto que o índice de 3,8 é o mesmo alcançado pelo Estado na avaliação de 2011. Ou seja, nada mudou. Aliás, é pior, pois o primeiro lugar não se deve à melhoria do ensino, investimentos, projetos e gestão planejada, como alardeia o governo, mas à queda de outros estados, como Santa Catarina e São Paulo, por exemplo.

Mais preocupante ainda é que, ao comemorar, esquece-se a pressão sobre os educadores, que passaram os últimos quatro anos visando à melhoria da nota do Ideb, em detrimento do aprendizado, como mostrou reportagem publicada no jornal O Popular, no dia 13 de maio de 2013, e na TV Anhanguera/Rede Globo, no dia 25, e trouxe a público a história de um grupo de garotas que foram transferidas compulsoriamente das escolas estaduais onde estudavam por baixa frequência ou notas baixas.
Como se sabe, um dos pontos avaliados pelo Ideb é justamente o desempenho dos alunos, logo, se as notas são baixas, comprometem a avaliação e, nesses casos, a opção adotada pela secretaria foi a transferência para não comprometer a nota da escola. Fato contraditório, pois outro ponto de análise é justamente o desempenho dos alunos e nota baixa é sinal de baixo desempenho, que, em outros estados, leva à reprovação, mas, contraditoriamente, na rede estadual de educação de Goiás, é proibido reprovar, então…

Voltando ao trabalho dos educadores, esses sim, merecem todas as deferências que o resultado possa despertar, pois passaram os últimos quatro anos sob intensa pressão e improvisos, pois não existe um planejamento político pedagógico consistente para o ensino médio em Goiás. A estrutura física é precária na maioria das escolas. Laboratórios de ciência e informática foram desativados. Bibliotecas não possuem acervo diversificado e não há incentivo à frequência e à leitura.

Projetos de estímulo à cultura, à diversidade e à língua estrangeira foram cortados e a evasão escolar é o assunto mais discutido e de maior preocupação nas audiências públicas que estão sendo realizadas para a adequação do Plano Estadual de Educação ao PNE.

E não para por aí. Saindo da questão pedagógica, mas ainda na seara dos trabalhadores, é impossível deixar de lembrar os grandes prejuízos que os educadores da rede estadual de ensino tiveram e estão tendo desde 2011, sendo o principal deles a alteração no Plano de Carreira que incorporou a gratificação por titularidade de professores, ativos e aposentados, e nivelou por baixo os docentes, sob alegação de pagar o piso salarial. O resultado dessa afronta é um prejuízo financeiro para a grande massa dos professores da rede, mais de R$ 30 mil para cada professore PIII e mais de R$ 40 mil para cada professor PIV, no final deste ano, além de uma carreira sem atrativos, posto que não há incentivo financeiro para a qualificação.

Nesse quesito, qualificação, depois de rasgar o plano de carreira dos professores, o governo fez aprovar lei de incentivo à formação continuada, porém nunca regulamentou e a conclusão é que, nos últimos anos, professores não se qualificaram. Sem contar o calote que recebem todos os anos, na época do reajuste do piso.

Mas não são apenas os professores que tiveram e têm perdas. Os funcionários das escolas são solenemente ignorados, enquanto classe trabalhadora importante para o processo educacional. O programa de qualificação oferecido pelo Ministério da Educação não é encampado pela Seduc, impedindo a profissionalização e qualificação dos funcionários e, consequentemente, a ascensão na carreira; trabalhadores que fazem 30 e 40 horas recebem o mesmo salário, que é o mínimo, e ainda tiveram direitos incorporados para perfazer esse mínimo.

Não há o que comemorar, mas, repito, parabenizo os trabalhadores da educação de Goiás por terem cumprido seu papel de educador e conclamamos a categoria para continuarmos na luta por valorização profissional, melhores condições de ensino e educação pública de qualidade social para todos. Com avanço de verdade.

*Bia de Lima é pedagoga especialista em Educação Brasileira, presidenta do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Goiás (Sintego) e presidenta da CUT-GO.

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por Bia De Lima

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