Samuel Straioto
Goiânia – O jingle que grudа na cabeça, que o eleitor cantarola no caminho da urna, que associa um nome a uma melodia por meses, pode passar por transformação profunda nas eleições de 2026. A proibição das paródias de músicas comerciais pela legislação eleitoral fechou o atalho mais usado pelos marqueteiros por décadas. E a inteligência artificial abriu outro caminho… Mais barato, mais rápido, mas que pode ser cheio de armadilhas.
A combinação dessas duas mudanças está redesenhando quem pode, quanto custa e o que soa diferente no mercado de música de campanha. Para as eleições majoritárias, pouco muda: candidatos a presidente, governador e senador continuam contratando produtores, compositores e artistas. Para as campanhas proporcionais — deputados estaduais, federais e vereadores —, a IA começa a funcionar como porta de entrada para quem antes simplesmente não tinha como pagar por um jingle original.
O fim da paródia e o custo da originalidade
Por décadas, a paródia foi o recurso preferido da propaganda eleitoral brasileira. Adaptar uma música conhecida para um candidato era barato, eficiente e garantia o efeito mais desejado em qualquer jingle: a familiaridade imediata. O eleitor já sabia a melodia. Só precisava aprender a letra nova.
A proibição das paródias mudou essa equação. Produzir uma música original exige compositor, gravação, mixagem e, se o candidato quiser algo realmente memorável, um intérprete com nome. O preço de um jingle político em 2026 varia entre R$ 300 e R$ 3 mil ou mais, dependendo da qualidade da produção, personalização e experiência da produtora. E quanto mais profissional, maior a fatia que ocupa no orçamento de uma campanha proporcional. Para um candidato a deputado estadual, cujo custo médio real para ser eleito ficou em torno de R$ 373 mil em 2018, segundo o IBPAD, com tendência de alta em 2026 pela inflação do período, a escolha entre estúdio e algoritmo começa a ser uma decisão estratégica.
“A proibição da paródia democratizou o problema: antes, qualquer candidato conseguia um jingle razoável por pouco. Agora, quem não tem dinheiro ou não tem uma boa ideia original fica sem música”, avalia Paulo Rezende, produtor musical com experiência em campanhas eleitorais em Goiás.
A IA entra pelo bolso
É nesse vácuo que a inteligência artificial começa a operar. Ferramentas como Suno, Udio e outras plataformas de geração musical por IA permitem criar uma faixa completa — letra, melodia, arranjo, voz sintética — em minutos, por valores que variam de “zero” a algumas dezenas de reais por mês de assinatura. Para um candidato a deputado que não tem orçamento para estúdio, é uma revolução de acesso.
A tendência observada pelos especialistas é clara: as campanhas majoritárias continuarão investindo em produção artística profissional, porque precisam de emoção real, voz reconhecível e impacto em massa na televisão e no rádio. Já as campanhas proporcionais devem intensificar o uso da IA — não por preferência estética, mas por matemática financeira.
“O candidato a deputado que tem orçamento limitado não vai destinar uma fatia expressiva dele num jingle gravado em estúdio quando pode gerar dez versões diferentes por IA e testar qual performa melhor nas redes. Isso já está acontecendo”, diz Camila Torres, marqueteira com atuação em campanhas para cargos proporcionais em Goiás e Minas Gerais.

O problema da emoção
A eficiência econômica da IA, porém, não resolve o problema central do jingle: emoção. A música de campanha funciona porque cria vínculo afetivo. O eleitor não lembra apenas do nome, lembra de onde estava quando ouviu, com quem, o que sentiu. Esse mecanismo depende de algo que as ferramentas atuais de geração musical por IA ainda reproduzem com dificuldade: a imperfeição humana, o timbre de uma voz real, o calor de uma interpretação que soa verdadeira.
Jingles gerados por IA tendem ao genérico. A melodia existe, o arranjo está correto, a letra cumpre o objetivo, mas falta o traço de identidade que faz um jingle específico se fixar na memória de um eleitor específico. É a diferença entre uma música que toca e uma que fica. Produtoras especializadas alertam que jingles baratos demais podem não fixar na mente do eleitor, soar amadores e até prejudicar a imagem do candidato.
“A IA resolve o problema de quem não tem acesso. Mas não resolve o problema de quem quer ser lembrado. São objetivos diferentes”, pondera Paulo Rezende. “Um jingle feito por IA comunica que você existiu na campanha. Um jingle bem produzido por um artista de verdade pode comunicar quem você é.”
O que o TSE diz sobre isso
A Justiça Eleitoral avançou na regulamentação do uso de IA nas eleições de 2026, com 14 resoluções publicadas pelo TSE que ampliam as normas introduzidas em 2024. No que diz respeito à música de campanha, a regra central é a da transparência: conteúdos gerados ou manipulados por inteligência artificial devem exibir aviso explícito e acessível ao eleitor, sob pena de multa entre R$ 5 mil e R$ 30 mil e remoção imediata do conteúdo.
O que ainda está em aberto é a fronteira entre IA como ferramenta de produção e IA como substituta de artistas. Um jingle criado com auxílio de IA, mas gravado por um cantor real, exige rotulagem? E uma faixa gerada inteiramente por algoritmo, sem nenhuma intervenção humana na interpretação? A norma existe, mas a casuística ainda vai se construir ao longo da campanha.
“O TSE regulamentou o que era urgente — deepfakes, avatares, manipulação de imagem e voz de candidatos. A música ficou num espaço mais cinzento, e é provável que os primeiros casos concretos só sejam resolvidos quando já estiverem em circulação”, avalia Camila Torres. O fato é que o eleitor de 2026 vai ouvir mais jingles do que nunca. A pergunta que os marqueteiros ainda estão tentando responder é quantos deles vão realmente ficar.
