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Sam Cyrous (Foto: divulgação)

Hoje eu chorei (crônica de um persa na diáspora)

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29.01.2026 - 08:22:28

Hoje chorei. Chorei porque a veracidade é atacada por narrativas falsas e simplistas a tal ponto que facilmente convencem os cérebros e corações das pessoas. Chorei porque a mais amada das coisas deveria ser a justiça e, contudo, ela é atormentada pela fumaça do silêncio que nos impede ver o mundo como ele deveria ser.


(Foto: reprodução/Instagram @angelinajolie)

Hoje chorei. Chorei porque vi uma menina de sete anos deitada, sem alento, sem esperança de futuro, perante o silêncio de sua mãe, perante os gritos da multidão, perante a queda dos justos.
Hoje chorei. Chorei porque a mãe estava morta. Era uma das talvez mais de 50 mil pessoas, como você e eu, assassinadas por quem mata seu próprio povo. São 50 mil seres humanos, 50 mil mães e pais e filhos e irmãos, 50 mil médicos e engenheiros e estudantes, 50 mil pedaços de mim.

Hoje chorei. Chorei porque a menina de sete anos estava caída sobre o túmulo da mãe, Parisa, de 30 anos. Chorei porque sou pai, porque sou persa, porque sou humano. Porque nas palavras do poeta persa Saadi, viemos todos “do mesmo molde todos os filhos de Adão; Já que todos, desde o começo, da mesma essência são”. Chorei porque nas palavras do filósofo judeu Hermann Cohen o sofrimento permite que todas as pessoas se tornem companheiras, porque sou “nada se não me torno parte delas”.

Hoje chorei. Chorei porque os corpos dos mortos são escondidos e essa filha teve a sorte de ver sua mãe enterrada. Chorei porque esconder corpos é esconder provas, e se há provas a esconder choro porque a situação é mais grave do que eu poderia imaginar.

Chorei por Akram, Amir, Bijan, Daina, Davoud, Erfan, Mahan, Mehdi, Rebin, Robina, Zahra… Chorei porque se confirmadas tantas mortes, não há lágrimas suficientes para chorar!

Chorei por Melina, que tinha 3 anos! Melina que tinha a idade da minha filha, que deveria estar brincando e rindo e até estudando, que foi morta a caminho da farmácia com seu pai, segundo relatos.

Chorei porque lembrei do sobrevivente de Apertheid, Nelson Mandela, que dizia que pais se sacrificam muito para que filhos tenham liberdade sem sofrimento, sabendo que no Irã filhos se sacrificam ao lado de mães e pais, com muito sofrimento, pagando alto preço para sair da opressão.
Chorei porque lembrei do sobrevivente de Holocausto, Viktor Frankl, que disse que sofrimento tem sempre sentido, mesmo quando não o vemos, lembrando que uma morte por minuto de um iraniano — jovem, adulto ou idoso — precisa então ter algum sentido.

Chorei porque é uma luta por amor; uma luta sem armas, mas com gritos. Chorei porque gritos nos deixam sem voz. Chorei porque os bloqueios à internet tentam silenciar a população. Chorei porque precisamos ser a sua voz.
Chorei porque há 11 regiões no globo atualmente em conflito, e o silêncio ocorre porque não sabemos sobre qual falar, o que falar, como falar.

Chorei… porque senti que ninguém quer fazer nada!

Chorei porque chorar não basta.

Chorei, porque parafraseando a tradição islâmica, talvez em cada gota de lágrima há um anjo. E, talvez, a cada lágrima, haja esperança de, um dia, podermos parar de chorar por esse mundo fragmentado.

*Sam Cyrous (@sam.cyrous) é Doutor em Psicologia, StoryTeller e membro da Diáspora Persa.

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por Sam Cyrous

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