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Heróis da resistência: mercados se reinventam para manter portas abertas

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08.11.2018 - 23:17:30
Kamylla Rodrigues 

Goiânia – O letreiro luminoso dá o recado. A Lan House está aberta. Lá dentro, 10 cabines com computadores, que não são ligados com tanta frequência, dividem espaço com vídeo games, que mal conseguem descansar. As máquinas, antes disputadas de dia, à noite e nos corujões, perderam espaço e o interesse do internauta com a universalização e facilitação da internet. 
 

A Planeta Games e Lan House, que fica no berço de Goiânia, no setor Campinas, é um dos 67 estabelecimentos em Goiás que resistiram a revolução do acesso à banda larga e a popularização dos dispositivos móveis e se mantêm de portas abertas. De acordo com a Junta Comercial do Estado de Goiás (Juceg), em 2010, as Lan Houses e estabelecimentos que disponibilizavam internet somavam 342 em todo o Estado. 
 
“A queda foi expressiva nos últimos oito anos devido a mudança do ciclo econômico. O avanço da tecnologia e rede móvel de serviço mudaram o foco desses usuários, que agora possuem quase as mesmas ferramentas do computador na palma das mãos”, explica o presidente da Juceg, Leonardo Fortini. 
 
Para não perder esses clientes, vários dos 67 estabelecimentos que mantém registro na Juceg passaram por mudanças, se reinventaram e se tornaram verdadeiros centros de serviços. “Nós passamos a ofertar fotocópias, impressão de documentos, boletos, auxílio em trabalhos escolares e pesquisas, além da confecção de currículos, encadernação e plastificação. Nosso público é de estudantes, advogados, contadores, entre vários outros profissionais que necessitam da estrutura para resolver seus problemas”, afirma o proprietário da Planeta Games, Kaique Chaves de Moura, de 26 anos. 
 
O local ainda oferece a consulta ao Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) e ao Serasa, em parceria com a Câmara de Dirigentes Lojistas de Goiânia (CDL Goiânia). Só no último mês, a Lan House realizou 43 procedimentos. De acordo com a gerente de negócios da CDL, Dina Marta Correia Batista, a ferramenta é um plus para esse tipo de segmento. “É mais um atrativo para o cliente e uma oportunidade para oferecer a ele outros serviços dentro do comércio, como um ponto de café, por exemplo. Notamos que a tendência é agregar valor ao produto oferecido, atendendo, em um mesmo ambiente, demandas diferentes dos clientes”, informa. 
 
 
Computadores e vídeo games dividem espaço na Planeta Games, em Goiânia (Foto: Marcela Patrocínio)
 
E foi justamente nisso que Kaíque investiu. “O cliente encontra aqui muito mais do que acesso à internet. Nós oferecemos capital humano para atender às demandas e tirar dúvidas. Nos capacitamos para seguir a mudança do perfil do consumidor”, destaca o empresário, que se tornou dono da Lan House há três anos. Ele também investiu nos jogos virtuais, trazendo para a lista de opções grandes lançamentos que são bastante procurados. Ainda neste ano, o empresário quer presentear os clientes assíduos com jogos de realidade virtual (VR). “Assim como nos jogos vamos enfrentando as fases com estratégias. Pode até ser no modo hard – difícil -, mas não desistimos daquilo que amamos fazer”, brinca Kaíque.
 
O estabelecimento nasceu em 1998 como loja de games, encabeçada pelos tios de Kaíque. Em 2002, no auge desse tipo de segmento, a estrutura abraçou mais um espaço para a Lan House. “Eu era criança, mas frequentava a Planeta todos os dias. Os computadores eram disputados 24 horas por dia. Os chamados corujões eram sucesso”, lembra. Hoje, o local recebe, em média, 400 clientes por dia, de domingo a domingo e feriados. 
 
Número de locadoras cai 90% em oito anos 

Miami Home Video conta com 25 mil títulos (Foto: Marcela Patrocínio)
 
A democratização digital também mudou a realidade das videolocadoras. O hábito de olhar cada capa de DVD, ler a sinopse no verso, se frustrar pelo pagamento da multa por devolução fora do prazo e ter a experiência de ouvir um resumão – sem spolier – do atendente foram substituídos. 

A possibilidade de downloads na internet, DVDs piratas, serviços de streaming como o Netflix e o acesso cada vez mais facilitado da TV por assinatura fizeram o número de locadoras cair 90% em Goiás nos últimos oito anos, segundo a Juceg. De acordo com o presidente da entidade, Leonardo Fortini, estratégias como diversificação de novos produtos, segmentação do acervo e a manutenção da memória desses ambientes permitiram as 10 lojas sobreviventes, ativas e registradas no ramo de aluguel de fitas de vídeo, DVDs e similares, continuarem no mercado. 
 
Fortini acredita que apostar no público específico também é um caminho para contornar a evasão provocada pela internet. “Investir nos clássicos e promover sessões de cinema em um clima especial são atrativos para um público cinéfilo, por exemplo”. 
 
A Miami Home Video, localizada na T-63, no setor Bueno, em Goiânia, entrou de cabeça no mundo da tecnologia, sem abrir mão do produto que a fez nascer: os DVDs. Atualmente são 25 mil títulos, grande parte em Blue-Ray e alguns já com resolução 4K.

“Existe uma demanda por filmes com alta definição e qualidade de som e estamos buscando atender esse nicho, já que com o passar dos anos fomos nos adequando as transições, passando de VHS para DVD, depois para blue-ray e, agora, 4k. É uma tendência comum. Se o mercado quiser sobreviver, deve acompanhar”, afirma o proprietário da empresa, Eduardo Fleury, que conta animado cada um dos 80 cadastros, em média, abertos por mês. 


Um dos clientes fiéis da locadora é o corretor de imóveis, Paulo Davi, que mantém o mesmo ritual há 18 anos. Primeiro ele avalia se há lançamentos de ficção científica, gênero preferido dele, e quando não há, pega uma comédia romântica para agradar a amada. “Nada substitui a escolha física. A internet é impessoal, não tem emoção, não te faz nem caminhar, sair de casa. Venho toda semana e faço questão de olhar cada DVD, procurar e sentir as infinitas possibilidades que o mundo real proporciona”, reforça. 
 

O corretor de imóveis Paulo Davi mantém ritual de locação de filmes há 18 anos (Foto: Marcela Patrocínio)
 
A Miami Home Vídeo nasceu há 27 anos e há 20 ingressou no segmento de audio e vídeo de alta performance, projetando, instalando e vendendo equipamentos High-End, o que a fez do estabelecimento referência no Brasil. “Nos especializamos em projetos e instalações para home theater e sistemas de automação. Quando o cliente busca esse serviço, já oferecemos as mídias (DVDs) para que todo aquele aparato seja utilizado da melhor forma. Não adianta você ter uma tela e caixas de som de altíssima qualidade se o filme que vai rodar é inferior. Nada se compara a mídia, e o 4k vem consolidar a importancia dela para os apreciadores da boa imagem e do bom som”, explica. 
 
 
Toca disco e sala automatizada são destaques da locadora (Foto: Marcela Patrocínio)
 
O cliente que entra na loja faz uma viagem no tempo. Ao abrir a porta, as tradicionais prateleiras fisgam o olhar para os DVDs enfileirados. Ao mesmo tempo, a acústica do ambiente convida a ver um trecho do filme, exibido na televisão. No interior e no segundo andar do estabelecimento, a visita à moda antiga se transforma em uma viagem moderna. São caixas de som, toca discos e diversos outros equipamentos com traços futurísticos. 

Livrarias em busca de uma repaginação 

Livraria Opção Cultural aposta em eventos literários (Foto: Marcela Patrocínio)
 
O número de livrarias e sebos em Goiás passou de 114 em 2010 para 138 este ano, segundo a Juceg. Mesmo com número positivo, as receitas dessas empresas caíram consideravelmente em pelo menos 5% ao ano, durante esse período, com a chegada das ferramentas digitais para comprar e ler livros pela internet. A chegada da Amazon, em 2014, foi um marco dessa mudança. A empresa americana gigante do e-commerce criou os e-books, que nada mais são do que livros digitais. 
 
Recentemente, duas grandes redes de livrarias fecharam diversas lojas em todo o país, inclusive em Goiânia, e apostaram na venda digital. O analista da unidade de inovação do Sebrae, Francisco Lima Junior, afirma que a concorrência digital é a mais complicada de se enfrentar. “A internet oferece diretamente o mesmo tipo de serviço de uma forma mais fácil e até mais barata. Chamamos de economia digital essa migração de intenção de compras do consumidor. As empresas precisam se adaptar a essa onda oferecendo algum diferencial que o cliente não vai achar no mundo virtual”, ressalta. 
 
Pensando nisso, o empresário e proprietário da Livraria Opção Cultual, Lúcio Dias de Oliveira, que trabalha há 36 anos no mercado de livros novos e usados, começou a expandir a atuação da livraria, com participação em eventos culturais, a promoção de contação de histórias e discussões literárias. “O brasileiro não tem uma cultura e hábito de leitura expressivos. Então um dos nossos caminhos é fazer chegar esse livro até eles, mostrando um mundo diferente da tela do computador”, conta. 
 

Livraria Opção Cultural conta com 70 mil títulos (Foto: Marcela Patrocínio)
 
O estudante José Silva, de 23 anos, é um apaixonado por histórias e, mais ainda, por livros. Ele diz que mesmo com a disponibilização desses produtos na internet, ele não substitui o contato físico com a obra. “Meus livros são todos marcados e grifados. Quando você manuseia um livro, você dá vida a ele. É como se eu deixasse minha história e meus momentos em cada página. Nada substitui isso”, afirma. 
 
Apesar dos eventos, Lúcio conta que o carro chefe da livraria ainda é o livro didático. Muitos são disponibilizados na internet. "Não tem como fugirmos dessa ferramenta e, de certa forma, facilita a vida de pessoas que moram em outros locais e não conseguem vir até a livraria". Um produto que o surpreendeu com a retomada de vendas foi o vinil e por isso ele também buscou ampliar as opções de LPs disponibilizadas na empresa. “Começamos a ver uma escassez do disco, já que a demanda aumentou. Para atrair esse cliente, passamos a investir nesse segmento. Oferecemos leitura e música de qualidade, principalmente o rock clássico dos anos 60 e 70”, acrescenta o empresário. 

O jornalista Evaldo Gonçalves Silva, que mora em Jataí e estava em Goiânia de passagem, aproveitou para escolher mais um LP para a coleção. Ele já perdeu as contas de quantos tem em casa, mas afirma com ceretza que passa de cem. Muitos foram achados no lixo. “Uma triste sorte minha”, avalia. “Achei Opera do Malandro, de Chico Buarque, The Dark Side Of The Moon, de Pink Floyd, e até discos do Beatles. Muitos estavam em estado ruim, mas consegui recuperar. Uma pena para esses  produtos qu pra mim são valiosos, mas sorte minha que fui presenteado”, completa Evaldo. 
 

 Evaldo Gonçalves Silva coleciona LPs (Foto: Marcela Patrocínio)
 
Ele tem uma vitrola em casa e colocar o disco para rodar é sinal de felicidade na casa do jornalista. “É uma imersão diferente, porque não basta você apertar o play. A experiência começa quando você liga a vitrola e escolhe qual som vai ouvir. Acreito que isso sim é investimento de tempo, porque você consegue respirar e sentir a música, de fato”, conclui. 

Diferenciais no mercado
O analista do Sebrae, Francisco Lima Junior, acredita que a capacitação é um diferencial para que esse empresário exergue soluções para seu negócio. “O Sebrae oferece consultoria gratuita e capacitações. Quanto mais informações esse empreendedor tiver sobre seu negócio e as demandas do mercado, mais soluções ele conseguirá aplicar”, ressalta. 
 

Gerente de Negócios da CDL, Dina Marta Correia Batista (Foto: divulgação)
 
A CDL também oferece treinamentos nesse sentido. “A reinvenção e a modernização passam por capacitação. É necessário investir não só em equipamentos, mas no intelectual das pessoas que trabalham nesse mercado. Existem várias ferramentas que auxiliam esse empresário a desenvolver criatividade”, afirma Dina Marta, que reforça a importância de se gostar do que faz. “Tão importante quanto a viabilidade financeira, é a afinidade pelo negócio”, destaca. 
 

 

 
 
 
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por Kamylla Rodrigues

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