A ameaça de greve na educação em Goiânia ajuda a trazer para o centro do debate um problema que há anos cresce silenciosamente dentro das redes públicas municipais. Embora a discussão ainda esteja ligada a pautas salariais e planos de carreira, especialmente entre os profissionais administrativos, a situação expõe uma dificuldade cada vez maior das cidades em sustentar estruturas educacionais que se tornaram mais amplas, mais complexas e muito mais custosas do que eram há duas décadas.
O ambiente político, sobretudo em ano eleitoral, costuma empobrecer esse debate e o reduzir a disputa ideológica, embate corporativo ou narrativa partidária, o que impede uma análise mais profunda sobre os limites do atual modelo de gestão das redes municipais.
O ensino mudou muito nos últimos anos. Hoje, as prefeituras precisam garantir educação infantil, inclusão escolar, profissionais de apoio, atendimento especializado, transporte, alimentação e tecnologia educacional, além de responder a uma cobrança crescente por qualidade e estrutura.
O problema é que toda essa transformação ocorreu sem uma mudança proporcional na forma de administrar a educação pública. Em muitas cidades, a gestão segue burocrática e dependente de modelos concebidos para uma realidade muito mais modesta que a atual. Na prática, cidades tentam sustentar uma educação do século XXI utilizando modelos administrativos que não acompanham a velocidade das mudanças.
Os dados que ajudam a compreender essa pressão mostram Goiás com 31 mil crianças aguardando vagas em creches e pré-escolas e, segundo levantamento do Tribunal de Contas dos Municípios, seriam necessárias 275 novas creches e investimentos superiores a R$ 1,5 bilhão para atender a demanda existente. O desafio não está só na construção das unidades, porque o que começa a sufocar os caixas das prefeituras é o crescimento contínuo das despesas operacionais geradas por cada nova escola, como manutenção, alimentação, transporte, apoio administrativo e contratação de profissionais especializados.
Talvez por isso as greves produzam mais desgaste institucional do que soluções efetivas para o futuro da educação pública. O que começa a demonstrar sinais de esgotamento não é a escola pública, mas um modelo administrativo que deixou de acompanhar o crescimento e as novas exigências da educação contemporânea. Olhar para as possibilidades de financiamento e contratação é urgente para garantir uma rede que rode sem os entraves da política.
Nenhuma cidade conseguirá sustentar esse nível de expansão mantendo o mesmo modelo de vinte anos atrás. Mais cedo ou mais tarde, os municípios terão de discutir reorganização operacional e modelos mais modernos de gestão, capazes de permitir que o poder público concentre seus esforços na atividade-fim da educação, que é o processo de ensino-aprendizagem. A gestão, para o bem da educação, precisa competir aos gestores.
Manoel Barbosa é mestre em Educação pela PUC Goiás e especialista em gestão e financiamento da educação pública.

Muito assertiva sua análise, Prof. Manoel Barbosa. A gestão educacional antiquada e a burocracia estão sufocando as redes.