Samuel Straioto
Goiânia – Goiás registrou 369 casos de internações por queimaduras em crianças de 1 a 4 anos entre janeiro e setembro de 2025, ficando em terceiro lugar no ranking nacional. Os dados, compilados pela Organização Nacional de Acreditação (ONA) a partir do DATASUS, mostram que o país totaliza 3.613 internações nessa faixa etária no período. O Nordeste lidera com 1.109 casos, seguido pelo Sudeste (938), Sul (777), Centro-Oeste (527) e Norte (262).
A médica pediatra Mariana Grigoletto, membro da ONA, explica que a concentração de acidentes nessa faixa etária está relacionada ao desenvolvimento infantil. “São crianças que estão numa faixa etária de desenvolvimento de muita curiosidade. Além disso, concentram uma energia muito grande e uma falta de noção de perigo. Tudo isso justifica o porquê essa faixa etária é tão envolvida nos acidentes”, afirma.

Médica pediatra Mariana Grigoletto (Foto: divulgação)
Férias ampliam riscos domésticos
O período de férias escolares, aliado às altas temperaturas, cria um cenário propício para acidentes. Segundo a pediatra, as férias são especialmente críticas porque as crianças ficam explorando ambientes que nem sempre estão preparados para recebê-las com segurança.
Dados da Sociedade Brasileira de Queimaduras indicam que sete em cada dez acidentes acontecem dentro de casa, onde a combinação de curiosidade intensa, rapidez nos movimentos e pouca noção de perigo se torna perigosa.
Cozinha concentra maior parte dos acidentes
A cozinha permanece como o ambiente mais perigoso. “Sim, a cozinha ainda é o ambiente mais envolvido em acidentes com crianças pequenas”, confirma a médica Mariana Grigoletto. As escaldaduras — queimaduras causadas por líquidos quentes ou vapor — são o mecanismo mais frequente.
Basta um cabo de panela virado para fora, uma xícara quente à beira da mesa ou uma criança que puxa a toalha e derruba líquido quente sobre si. “A criança puxa o cabo, tropeça no pano da mesa, esbarra no copo, mexe na cafeteira e tenta alcançar recipientes aquecidos. Todo cuidado é pouco com os pequenos”, descreve a pediatra.
Embora menos frequentes, as queimaduras por chama ou líquidos inflamáveis costumam ser mais graves. Entre as queimaduras químicas, a ingestão de soda cáustica é a principal causa. Pilhas e baterias, quando ingeridas ou rompidas, representam ameaça silenciosa devido ao conteúdo corrosivo.
Erros comuns no atendimento
Os erros mais frequentes cometidos pelas famílias ao lidar com queimaduras incluem o uso de água gelada e a aplicação de substâncias sobre a lesão. “Os erros mais comuns cometidos pelas famílias, ao se depararem com queimaduras, é utilizar água gelada, além de substâncias sobre a lesão, como pasta d’água, clara de ovo, óleo de cozinha, ou então até receitas caseiras”, alerta a médica Mariana Grigoletto.
A primeira medida recomendada é resfriar a área com água corrente fria — nunca gelada — por 10 a 20 minutos. Antes do inchaço, é preciso remover anéis, pulseiras e acessórios. Roupas grudadas na pele não devem ser retiradas, pois podem arrancar tecido vivo. Se necessário, corte apenas o que estiver solto. Bolhas não devem ser estouradas.
Quando procurar atendimento médico
A busca por atendimento imediato depende da gravidade da lesão, definida pela profundidade, extensão e área afetada. Segundo a pediatra, merecem atendimento urgente queimaduras de segundo ou terceiro grau, lesões que abranjam área muito grande ou estejam localizadas na face, mãos, pés, pernas e região genital.
Também devem ser levadas ao pronto-atendimento crianças que inalaram fumaça ou sofreram queimadura elétrica ou química. Sinais de infecção no local, como vermelhidão, secreção e dor intensa, febre, náuseas, sonolência ou desmaio, também indicam necessidade de atendimento imediato.
Choques elétricos e queimaduras solares
Choques elétricos também aparecem entre os acidentes mais comuns na infância. Tomadas sem proteção, fios desencapados e extensões improvisadas muitas vezes passam despercebidos no ambiente doméstico. “Manter as tomadas todas cobertas, evitar fios, extensões soltas pela casa”, recomenda a médica.
No verão, o sol se torna outro vilão. Vermelhidão, dor e calor local são sinais de queimadura solar, mais frequentes entre 10h e 16h, período de maior radiação. A orientação é aplicar protetor solar, reaplicando a cada duas horas, após mergulho ou suor excessivo, e evitar exposição solar no horário de pico.
Prevenção: medidas práticas
A médica Mariana Grigoletto destaca que a supervisão direta das crianças é uma medida efetiva para evitar acidentes. “No entanto, sabemos que os acidentes acontecem a maioria das vezes dentro de casa e no ambiente da cozinha”, pondera.
Entre as medidas práticas recomendadas estão: colocar as panelas nas bocas de trás do fogão, com os cabos voltados para dentro; não cozinhar com a criança no colo; evitar a presença da criança na cozinha; instalar grades que protegem o fogão e o forno; evitar toalhas compridas que facilitem os puxões.
Manter fósforos, isqueiros e álcool fora do alcance das crianças, nunca deixar objetos ou líquidos quentes nas bordas das mesas e ter atenção ao micro-ondas — cujo aquecimento irregular pode gerar queimadura na boca — completam as recomendações.
Produtos químicos devem ser guardados em armário alto, de difícil acesso e preferencialmente trancados. No banho, a temperatura da água deve ser testada antes de colocar a criança. Pilhas e baterias devem ser descartadas adequadamente.