Jales Naves
Especial para A Redação
Goiânia – As semelhanças e as diferenças entre Minas Gerais e Goiás, desde quando foram desmembrados da Província de São Paulo, desempenhando a mesma utilidade mercantilista para o império português e com papel geopolítico diverso, foram assinaladas pelo historiador Jales Guedes Coelho Mendonça, em seu discurso, ao assumir na manhã deste sábado, dia 18, em Belo Horizonte, como sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Conforme explicou, das três Capitanias minerárias, Minas foi a mais rica em prospecção de ouro e diamante, a ponto de influir na mudança da sede administrativa de Salvador para o Rio de Janeiro e, em certa medida, financiar a revolução industrial inglesa.
“Mas a influência de Minas não parou por ai. Quarenta anos depois do surgimento de Belo Horizonte, Goiás também resolveu levar a cabo a transferência de sua Capital”, afirmou, para ressaltar que conseguiu identificar a influência no processo mudancista mineiro em Goiás e a discrepância entre a principal tensão dos dois eventos históricos. “A grande tensão em Minas eclodiu na ocasião da escolha do local da nova Capital. Tanto que a sessão extraordinária do Congresso Legislativo mineiro para a escolha de Belo Horizonte ocorreu em Barbacena – e não em Ouro Preto – e ainda pelo apertado placar de 30 a 28 em detrimento de Várzea do Marçal”.
Apesar da perda do título de sede dos Poderes estaduais – como frisou – Ouro Preto à época já possuía os serviços de abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto, energia elétrica e até mesmo transporte ferroviário, benefício conseguido pelo indisfarçável bem-querer do imperador Dom Pedro II pela cidade, o que se tornou em peso após a proclamação da República.
Em sentido diametralmente oposto, encontrava-se a Cidade de Goiás em 1930, no tocante aos serviços públicos presentes em Ouro Preto. “Apenas o fornecimento de energia elétrica existia em Vila Boa. O abastecimento de água e a coleta de esgoto só seriam efetivamente implementados nas décadas seguintes e o sonho do silvo do trem de ferro ecoando nos contrafortes da Serra Dourada nunca passou de uma imagem projetada nos mapas geográficos. Justamente por isso a grande tensão em Goiás concentrou-se na compensação à sua antiga Capital”, explicou Jales Mendonça, o primeiro goiano a ser convidado para sócio correspondente do IHGMG.
Na manhã de terça-feira, dia 21, em Ouro Preto, MG, Jales Mendonça será condecorado com a Medalha da Inconfidência, maior honraria concedida pelo Governo de Minas Gerais, criada em 1952 durante a gestão de Juscelino Kubitschek para homenagear cidadãos e instituições que prestaram relevantes serviços à sociedade.
Solenidade
A sessão solene de posse aconteceu na Casa de João Pinheiro, sede do Instituto, na Capital mineira, conduzida pelo presidente do Instituto, Antônio Marcos Nohmi. Inicialmente foi apresentado um vídeo com música do cantor Milton Nascimento. A mesa diretora foi composta ainda pelo presidente do IHGG, Jales Guedes Coelho Mendonça; presidente emérito do IHGMG, Aluizio Alberto da Cruz Quintão; Maria Inez de Moraes Marreco, secretária-geral; Moisés Mota da Silva, 1º secretário; Mariângela Menezes, acadêmica; Tatiane Coeli, vice-presidente da União dos Escoteiros do Brasil, Região de Minas Gerais; e Mateus Milhomem, do IHGG e representante das entidades culturais goianas no evento. Presentes, também, a esposa do homenageado, Iara Mendonça, os filhos Tales e Melissa, e o cineasta Antônio Eustáquio da Silva (Taquinho). Em seguida, ouviu-se o Hino Nacional.
O presidente Antônio Marcos Nohmi fez questão de ressaltar que Jales Mendonça tem uma grande característica: é um dos melhores presidentes de Institutos Históricos do Brasil. Em 2025 ele capitaneou a presença de 20 Estados que se fizeram representar num encontro em Goiânia, “que se tornou a Capital brasileira dos Institutos Históricos naqueles dias. Belíssima programação. Sou testemunha: é um dos mais bem administrados Institutos Históricos do Brasil”. Elogiou sua capacidade de gestão e de sensibilização das autoridades e da sociedade. “A Casa Rosada de Goiânia guarda um lugar muito altivo na Capital. Ali ele desempenha um trabalho enorme em razão da história e do país. Muitas histórias passam por Minas e tenho certeza passam por Minas porque Jales agora participa dessa teia de historiadores”.
Saudando o novo sócio correspondente, o acadêmico Moisés Mota, em bela mensagem, afirmou que o IHGMG não apenas preenchia uma cadeira, “e sim recebe um dos maiores intelectuais do país e um singular historiador, que vem elevar a intelectualidade de nosso Instituto, fortalecer a preservação patrimonial nacional e renovar o pacto entre o Planalto e a Montanha”. “Seja muito bem-vindo. A Casa de João Pinheiro é oficialmente a sua morada”, disse.
Discurso
Na oportunidade, o historiador Jales Mendonça pronunciou o seguinte discurso:
“Esta emocionante solenidade de posse no Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais me remete a uma preciosa história contada pelo escritor Eduardo Galeano:
“Era um velho e solitário que passava a maior parte do tempo na cama. Corriam boatos de que tinha um tesouro escondido em casa. Certo dia apareceram alguns ladrões: vasculharam tudo e encontraram um baú no porão. Arrastaram-no para fora e, ao abri-lo, viram que estava cheio de cartas. Eram as mensagens de amor que o velho recebera no curso de sua longa vida. Os ladrões iam queimar as cartas, mas, conversando a respeito, decidiram devolvê-las. Uma a uma. Uma por semana. Desde então, todas as segundas-feiras ao meio-dia, o velho ficava esperando o carteiro aparecer. E logo que o via, o velho voava ao seu encontro: o carteiro, que sabia de tudo, entregava-lhe a carta. E até São Pedro podia ouvir o pulsar daquele coração, ensandecido pela ventura de receber uma mensagem de mulher.”
Não tenho certeza se São Pedro pode também ouvir o palpitar do meu coração, mas com toda certeza a plateia percebe o assomo de sensações que assaltam o meu espírito neste instante.
Sempre nutri grande admiração pelas tradições de Minas Gerais, aprofundada durante meus estudos acadêmicos em História.
Gosto muito de conhecer as interpretações dos estrangeiros que pesquisam o Brasil, chamados de brasilianistas. Com um olhar diferente, apresentam novas perspectivas da nossa evolução. O jurista alemão Karl Loewenstein, por exemplo, ao mencionar Minas assinala: é “a seção mais orgulhosa e culturalmente mais consciente”. O historiador estadunidense John Wirth, qualifica o estado montanhês como “o fiel da balança” na federação brasileira. O uruguaio Eduardo Galeano, já citado, classifica Vila Rica de Ouro Preto como “a Potosí de ouro”, em alusão ao eldorado de prata descoberto pelos espanhóis.
E é justamente durante a primeira corrida do ouro nas Américas, um século antes da Califórnia, que são criadas as capitanias de Minas Gerais (1720), Goiás e Mato Grosso (1748). As três são desmembradas do mesmo tronco, ou seja, São Paulo.
Apesar de a troika mediterrânea (uma imensa porção de terra superior a três milhões de km²) desempenhar a mesma utilidade mercantilista para o império português, o papel geopolítico incumbido a Goiás difere do de Minas Gerais e do Mato Grosso.
Por sua localização absolutamente central, principalmente após a assinatura do Tratado de Madri em 1750 que revogou o antigo Tratado de Tordesilhas, e sem fronteira com os castelhanos, a função de Goiás era a de provedora do Mato Grosso na tarefa estratégica de defender a integridade territorial da América Portuguesa. Por isso, Goiás tinha a obrigação de enviar anualmente mais de 100 quilos de ouro aos “últimos domínios de Sua Santidade”, como os documentos ultramarinos se referiam ao Mato Grosso.
Tal riqueza ajudou na edificação, na margem direita do rio Guaporé, do imponente forte do Príncipe da Beira, a maior construção militar portuguesa fora da Europa no Brasil-Colônia, localizado hoje em Rondônia. De igual modo, contribuiu para a edificação do forte de Coimbra, no rio Paraguai, atual Mato Grosso do Sul, além da própria capital mato-grossense de Vila Bela da Santíssima Trindade, sucessora de Cuiabá, também no estratégico rio Guaporé, zona de divisa entre os lusitanos e hispânicos.
Dessas três capitanias minerárias, sem dúvida, Minas Gerais foi a mais rica em prospecção de ouro e diamante, a ponto de influir na mudança da sede administrativa de Salvador para o Rio de Janeiro e, em certa medida, financiar a revolução industrial inglesa.
Mas a influência de Minas não parou por aí. Quarenta anos depois do surgimento de Belo Horizonte, Goiás também resolveu levar a cabo a transferência de sua capital, tema objeto de minha investigação no mestrado e no doutorado, ao final publicada, pela Editora da UFG, com o título “A Invenção de Goiânia: o outro lado da mudança.”
Secundado em robusta pesquisa, conseguimos identificar, tanto a mencionada influência do processo mudancista mineiro em Goiás, quanto a discrepância entre a principal tensão dos dois eventos históricos. Explico melhor.
A grande tensão em Minas eclodiu na ocasião da escolha do local da nova capital, tanto que a sessão extraordinária do Congresso Legislativo Mineiro para a escolha de Belo Horizonte ocorreu em Barbacena – e não em Ouro Preto – e ainda pelo apertado placar de 30 a 28 em detrimento de Várzea do Marçal.
Cumpre registrar que, apesar da perda do título de sede dos poderes estaduais, Ouro Preto à época já possuía os serviços de abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto, energia elétrica e até mesmo transporte ferroviário, benefício este conseguido pelo indisfarçável bem-querer do imperador Dom Pedro II pela cidade, o que se transformou em peso após a proclamação da República.
Além de resguardada pelos mencionados fatores, a urbe dos Inconfidentes igualmente teve preservada toda a sua rede pública de ensino, inclusive a acreditada Escola de Minas de Ouro Preto, estabelecimento analisado por José Murilo de Carvalho e, nas palavras de Francisco Iglesias, conjuntamente com o Caraça, compunham as duas instituições educacionais emblemáticas do estado.
Em sentido diametralmente oposto, encontrava-se a Cidade de Goiás em 1930, no tocante aos serviços públicos acima arrolados, presentes em Ouro Preto. A rigor, apenas o fornecimento de energia elétrica existia em Vila Boa. O abastecimento de água e a coleta de esgoto só seriam efetivamente implementados nas décadas seguintes e o sonho do silvo do trem de ferro ecoando nos contrafortes da Serra Dourada nunca passou de uma imagem projetada nos mapas geográficos. Justamente por isso, a grande tensão em Goiás concentrou-se no tema da compensação à sua antiga capital.
Muito embora a Constituição Goiana de 1935 e a legislação ordinária determinassem o amparo e a proteção à Cidade de Goiás, “resguardando-a da decadência”, a verdade é que a transferência se efetivou sem qualquer compensação ou indenização, malgrado as várias promessas.
E pior: toda a estrutura pública de ensino – a única existente no Estado até então –, inclusive o tradicional Lyceu de Goyaz, criado em 1846, e a Faculdade de Direito foram removidos para Goiânia. Ademais, todos os servidores federais e estaduais também restaram transferidos, além dos consulados existentes e ainda a unidade das Forças Armadas, incorporada ao 6º Batalhão de Caçadores, aquartelado em Ipameri.
Lecionando sobre o assunto, o mestre Paulo Bertran (2006) sintetizou tudo: em Goiás, a mudança “provocou a ruptura do tecido cultural antigo, urdido na velhice de dois séculos pregressos de história.” Apesar de não a qualificar, a interpretação de Bertran, para mim, tem nome e sobrenome: chama-se genocídio cultural.
Senhores e Senhoras,
Nessa linha de argumentação, vale acrescentar que a construção de Brasília, inaugurada em 21 de abril de 1960 pelo presidente Juscelino Kubitschek, efetivou-se com dinâmica completamente diversa da de Goiás no nevrálgico quesito da compensação, até por inserir-se no bojo de um período democrático.
No campo educacional, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) manteve-se inalterada na cidade maravilhosa e ninguém nunca cogitou em deslocá-la para Brasília, onde se fundou, como seria lógico e razoável, outro centro universitário de excelência: a Universidade de Brasília (UnB). De igual modo, o tradicional Colégio Pedro II permaneceu no mesmo lugar de sua fundação.
De mais a mais, mesmo após mais de seis décadas da efetivação da transferência, o Rio de Janeiro, ainda hoje, possui mais servidores públicos federais civis do que o Distrito Federal, além de ser a maior cidade-sede das Forças Armadas da América Latina, sem prejuízo de sediar mais de 1/3 dos órgãos da administração federal, a exemplo da Petrobras, Eletrobras e BNDES, o que, indubitavelmente, configura-se em uma compensação permanente.
Descobrimos recentemente que a mudança da capital federal do Rio de Janeiro para Brasília apresenta sua principal tensão também na escolha do local, tal qual ocorrido em Minas Gerais. E a disputa candente foi entre Goiás e Minas Gerais, como faz prova o placar de votação na Constituinte Federal de 1946: 108 a 102 a favor do quadrilátero Cruls em Goiás. Contudo, mesmo após o resultado, a bancada mineira, liderada pelo obstinado deputado Israel Pinheiro, ainda tentou na sequência levar a capital para a região do Triângulo Mineiro, que curiosamente pertencera anteriormente ao território goiano.
Outra curiosidade verificada é que, posteriormente, Israel Pinheiro, filho de João Pinheiro – o fundador desta Casa de Memória –, teve a mesma obstinação durante o período da construção de Brasília, secundando Juscelino na realização dessa verdadeira epopeia.
Por falar em JK, que, há 50 anos nos deixou, lembro oportunamente que sua atitude resoluta de mudar a capital para Goiás, gerou uma profunda gratidão nos goianos que lhe concederam o mandato de Senador, logo após o término de sua gestão presidencial.
Senhores e Senhoras,
Confesso, mais uma vez, de coração na boca, que me comove demais essa cerimônia de posse. Integrar o Instituto Histórico e Geográfico Minas Gerais é motivo de elevada honra para mim, ainda mais quando agregada à concessão da medalha da Inconfidência. Chego à Casa de João Pinheiro com o espírito colaborativo, vibrante e disposto, sempre, a contribuir para o seu engrandecimento.
Como já disse, nutro um profundo respeito por Minas Gerais. Morei em Belo Horizonte num curto período no ano de 1998. Aqui meu avô Joaquim Mendonça Sobrinho formou-se médico em 1937 pela Universidade de Minas Gerais, ocasião em que conheceu minha avó e com ela retornou para Goiás, formando a família Cotta Mendonça.
Recentemente, fui informado pelo genealogista Nilson Jaime, que meu octavô João Lopes de Camargo fundou em Mariana, município primaz de Minas, uma povoação, hoje conhecida pelo nome de Camargos.
Agradeço imensamente a Deus; aos meus queridos amigos e amigas, aos confrades e confreiras do IHGG, na pessoa do dr. Mateus Milhomem, aqui representando todas as entidades culturais goianas. Agradeço também aos meus familiares, sobretudo à minha amada esposa Iara e aos filhos Tales e Melissa, além de meus pais Eduardo (in memoriam) e Fátima.
Agradeço ainda a todos os sócios do IHGMG, especialmente ao presidente Marcos Nohmi, que tem feito um trabalho exemplar. Hoje o dr. Nohmi já se constitui como uma referência e um dos principais líderes da rede de Institutos Históricos do Brasil. E falo de cátedra, porquanto realizamos, em conjunto com o IHGB, em outubro último o 8º Colóquio de Institutos Históricos Estaduais em Goiânia, pela primeira vez levado a efeito fora do Rio de Janeiro. Agradeço a saudação carinhosa e ao mesmo tempo erudita do confrade Moisés Mota.
Eu comecei evocando as cartas de amor que revigoraram a alma de um então decrépito ancião. Encerro agora com a oratória que embalou a esperança do povo brasileiro por democracia, enunciada justamente pelo então Governador da terra da liberdade, Tancredo de Almeida Neves, na presença de 500.000 pessoas concentradas na Praça Cívica de Goiânia, no famoso comício das Diretas:
“Meus irmãos de Goiás, eu nunca me dou conta se sou mineiro dentro de Goiás ou se goiano dentro de Minas Gerais. É que as divisas que nos separam são linhas convencionais porque elas não conseguem deter a torrente de afeto, de estima, de respeito e admiração que nosso povo se nutre.”
Muito obrigado.”
