Nádia Junqueira
Fotos: André Saddi
Atualizado às 16h30
Há quase 300 anos, em Minas Gerais, uma inconfidência pretendia a separação do Brasil da Coroa Portuguesa, com a criação de uma república. Tiradentes, o único que não negou a participação no movimento que foi traído, acabou decapitado. Hoje, a bandeira é contra a corrupção. Nesse 21 de abril, em várias cidades do país, as pessoas foram às ruas mostrar a sua indignação diante dos escândalos envolvendo poder público e privado que vêm à tona. Em Goiânia, a marcha se uniu a manifestação contra o governo estadual, que teve sua primeira edição realizada no último sábado (14/4). Na capital, a organização do manifesto estimou a presença de cerca de 10 mil pessoas. A Polícia Militar contabilizou “pelo menos” três mil participantes, de acordo com Tenente Malaquias.
Marcha
A manifestação se concentrou em frente à Assembleia Legislativa, percorrendo a Avenida Assis Chateaubriand até a Praça Tamandaré e retornando à Praça Cívica. Em todo o país, organizados por movimentos apartidários como “Dia do Basta” e “Movimento Brasil contra a corrupção”, brasileiros foram às ruas mostrar que não estão nada satisfeitos com o cenário político atual. É a terceira edição da marcha que também aconteceu em setembro e outubro de 2011.
As denúncias envolvendo possíveis ligações de autoridades e políticos goianos, entre eles o governador Marconi Perillo, com o contraventor Carlinhos Cachoeira foram o ponta pé que motivou os goianos a irem às ruas. Exclamando palavras de ordem e cantando canções emblemáticas da música brasileira, os manifestantes pediam a saída do tucano do governo. Senomar Campos Junior, um dos organizadores do evento, afirma, contudo, que a bandeira principal do evento é contra a corrupção, de forma geral e pela justiça. “Não é nada pessoal contra o governador Marconi Perillo. Ele é um cidadão como nós que tem direito à ampla defesa. Mas se ele está envolvido, tem que ser cassado”, afirmou estudante de direito. Senomar reitera o caráter apartidário do evento e afirma que, da primeira manifestação para essa, o movimento cresceu, está mais unido e reuniu pessoas de segmentos mais diversos.
Tumulto
Um tumulto marcou o final da manifestação, que estava sendo pacífica até às 13h. No início da tarde, um grupo que tentava pichar patrimônios públicos foi impedido pela Polícia Militar (PM), gerando um tumulto que acabou envolvendo várias pessoas. "O TRE chegou a ser pichado", afirma o tenente Antônio. Descontentes com a atuação dos militares, alguns manifestantes quebraram vidros de uma viatura e jogaram tinta nos policiais. Segundo a PM, um militar chegou a ser agredido fisicamente por um dos integrantes da manifestação. Detido, o rapaz foi conduzido ao 5º Distrito Policial (DP) de Goiânia, no Setor Campinas.
O sentimento de indignação, presente nos gritos e nos cartazes, não tirou, contudo, a alegria do evento, que contou com o apoio estrutural da Agência Municipal de Trânsito e Polícia Militar.
Cabeças brancas e juventude
Apesar da massiva presença de jovens, algumas cabeças brancas chamavam atenção na manifestação, que também reuniu crianças. Advogados, bispo e também servidores públicos tomaram a palavra na manifestação, além dos estudantes. Pedro Diniz, da coordenação do Movimento Brasil Contra Corrupção, reitera a importância desses veteranos no movimento, mas defende a protagonização dos jovens. “O movimento surgiu no âmbito juvenil. Nós, de cabeças brancas, que lutamos por outras bandeiras em outras épocas, tomamos cuidado de tentar organizar, mas não de dar as diretrizes”, afirma Pedro.
Ele reitera, como Senomar, que apesar de hoje o movimento estar voltado contra o governo estadual, a organização não tem motivação pessoal, mas uma bandeira ainda maior. “Hoje a luta é contra a corrupção. De marcha em marcha, vamos chegar a uma estabilidade política, mais honesta e justa”, diz Pedro. Ele espera, ainda, que manifestações como essa dêem espaço para que apareçam novas lideranças políticas em Goiás e no Brasil.
Militância virtual
A organização e divulgação do evento se deu, basicamente, por meio das redes sociais, com destaque para Facebook e Twitter, que mobilizaram em curto prazo muitas pessoas. Os meios têm despontado, nesse início de novo século, como importante ferramenta na organização de protestos e manifestações políticas, a exemplo do que ocorre na Síria, contra a ditadura de Assad e no Egito com a renúncia de Mubarak em 2011.
Assista abaixo a vídeo divulgado por militantes nas redes sociais que mostra parte da passeata, realizada no centro de Goiânia:
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