Goiânia –
Cobrindo mais de 20% do território nacional, o Cerrado possui uma das maiores biodiversidades do Brasil. O processo de urbanização que atingiu Goiás durante a década de 1980 fez com que o contato com espécies nativas do bioma ficasse mais raro. Foi justamente para resgatar essa relação com os frutos do Cerrado, que um grupo com cerca de 50 pessoas realizaram no último sábado (10/11) o plantio de um pomar com espécies típicas do bioma numa área de 8 mil metros quadrados no Parque Cultural Florata, localizado na GO-462, próximo à saída para Nova Veneza.A iniciativa é da Biapó Urbanismo, que visa resgatar as tradições e cultura goianas com o parque cultural que futuramente será lançado e aberto ao público. O biólogo e mestre em ecologia responsável pelo plantio das mudas, Murilo Arantes, detalha que o parque busca resgatar os sabores das espécies de frutas que os goianos cresceram saboreando no interior, mas que se tornaram mais inacessíveis com a migração para as cidades.
“Goiás sempre foi um estado marcado pela força do campo e da fazenda. Muitos cresceram no interior colhendo os frutos que não são tão comerciais, como a mama-cadela ou a mangaba, e o pomar com frutos típicos do Cerrado busca justamente resgatar essa tradição”, explicou.
O plantio, que trata do primeiro pomar agroflorestal com espécies frutíferas nativas do Cerrado, contou com a participação dos futuros moradores do condomínio horizontal de chácaras que está sendo construído ao lado do parque cultural, o Florata Condomínio Florestal.
A administradora Luciene Viana, que participou desse grupo, afirmou que espécies mais exóticas, como o jatobá e a mama-cadela, são mais complicadas de encontrar na cidade e, por ter crescido em um ambiente urbano, tem buscado mais o contato com o campo. “Temos uma menininha de um ano e pensamos que seria bom criá-la em um espaço cercado pela natureza e os frutos da nossa região. Não tive essa oportunidade quando criança, mas quero proporcionar isso para minha filha”, explicou ao participar da atividade no Parque Cultural Florata.
O plantio do pomar na área do parque usou as técnicas da agrofloresta, que consiste no consórcio de espécies arbóreas com as agricultáveis sem o uso de defensivos agrícolas e que acaba gerando um crescimento mais acelerado das espécies. Espera-se que algumas espécies comecem a produzir em dois ou três anos antes do que em plantios convencionais.
As técnicas de agrofloresta estão diretamente relacionadas ao princípio da biodiversidade, que adota a policultura para que as plantas cresçam mais resistentes e as raízes das diferentes espécies possam se intercomunicar. “As plantas vivem em comunidade. Se elas se isolarem, tendem a ter problemas com maior facilidade. Se eu quero uma determinada árvore frutífera, tenho que pensar em outras espécies que auxiliarão a planta principal se desenvolver”, explicou o biólogo Arantes que orientou o plantio realizado no último sábado.
As espécies foram plantadas ou dispostas em formato de mandalas, em espaços circulares de quatro metros de diâmetro. No centro, foi plantada uma espécie principal, como o pequi, mama-cadela, murici, e no entorno desta muda são plantadas outras espécies, como mandioca, bananeira, amoreira, abóbora, milho e outras.
Segundo o biólogo, no processo de plantio, a bananeira, por exemplo, proporciona a sombra necessária para o desenvolvimento da planta principal na mandala, pois é uma espécie que tem crescimento rápido. Além disso, retém água no solo. Já mandioca descompacta o solo e também é responsável pela formação de micorrizas, associações de fungos e raízes de plantas que estimulam a melhor absorção dos nutrientes do solo, deixando a área mais fértil.
Murilo explica ainda que a mandala também deve ser composta por plantas que possam ser podadas constantemente, como a amoreira, que cresce e rebrota de forma rápida. “Ao ser podada, ela libera alguns hormônios que estimulam o desenvolvimento e o crescimento das demais espécies plantadas no mesmo espaço”, acrescenta.
Outras espécies plantadas na mandala são feijão de porco, usada como adubação verde por trazer nitrogênio e melhorar o solo, o feijão guandu e a gliricídia, espécies que crescem rápido e favorecem a poda, além de mamão, melancia, abóbora, milho e tomate cereja.
A preparação do solo também foi importante no processo. Além da adubação da área do plantio, Murilo Arantes também destaca a importância de preparar o terreno com carvão vegetal, que pode ser o mesmo utilizado para fazer churrasco. “Toda vez que furar um berço onde ficará a planta, pode-se forrar o fundo com carvão. Isso é importante porque o adubo usado para o plantio pode ser levado com a chuva. O carvão serve justamente para reter esses nutrientes. As raízes das plantas, depois, se encontrarão com o carvão e absorverá os nutrientes”, explicou.
Essa prática também está diretamente relacionada ao princípio do manejo, que trata da necessidade de acompanhar o desenvolvimento das plantas por meio de podas, capinas, seleção e raleamento. Por fim, há o princípio da cobertura do solo. “Tudo que é podado serve para cobrir o solo. O capim retirado do local da plantação pode ser utilizado para cobrir o terreno, o que permite a presença de microorganismos que darão força para o crescimento das plantas e proporcionarão a chegada de minhocas, que produzirão o húmus, melhor adubo para a plantação”, finalizou Arantes.