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Frio que estimula a saudade

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09.12.2011 - 22:42:26

Quem é nascido e criado em Goiânia, como eu, pouca experiência tem com o frio. Esse com F maiúsculo. Na verdade a gente não sabe o que são quatro estações no ano e nem o que isso significa. Vivemos a ansiedade de parar de chover e depois esperamos por chover logo, para cessar o calor e a sequidão de matar. Quatro ou duas estações, me apetece o fato do ser humano se animalizar ou naturalizar mais com as mudanças de clima e simplesmente tudo mudar. Seus hábitos, seus sentimentos, seus gostos.

Bragança é conhecida como terra quente, terra fria. Quando é frio, é frio mesmo. Quando é quente, quente pra valer. Se olhar no mapa, logo verá que está acima de cidades como Madri e Roma e, portanto, é mais fria que essas capitais. Ainda mais porque estamos nos Trás-Os-Montes, ou seja, região de montanhas. Quando cá cheguei, o sol estava de matar. Andei muito de shortinho por aí, ainda que já estivesse na hora de esfriar. Esse ano o frio demorou a chegar e agora vem o inverno de vez. O outono, contemplei. Mas o inverno que vem chegando começa a mexer comigo coincidindo com os dias no calendário que marcam a segunda metade da minha experiência por aqui.

A verdade é que caminhei junto com as estações. Toda a euforia de início de vida nova, cidade nova, amigos novos, lugares novos, tudo novo estava no auge do fim do verão. A sobriedade, o chamar-te depressa de realidade, a rotina estabelecida, amizades se afinando, primeiras viagens vieram com o sossego do outono. E agora esse inverno vem junto com aquilo que aperta e a gente, que fala essa língua portuguesa, chama de saudade.

O clima parece sacanear. Um dia dessa semana mesmo acordei para ir à aula e quando olho pela sacada: tudo nublado, um frio de dar medo de sair do quarto. O caminho de casa até a faculdade parece ter triplicado e os meus passos sempre tão apressados parecem ter perdido ritmo. Não, não dá para pensar em festa. Em cerveja, na balada de mais à noite ou qualquer coisa assim, para cima. Esse clima foi feito para sentir saudade. Os 20 minutos que levo caminhando até a aula pareceram três horas: deu tempo de pensar em tudo que faz meu coração apertar.

Não, não há sofrimento. Não é aquela saudade do cantor que amarga que nem jiló. Ela é doce, é saudável, é necessária. E talvez seja um dos maiores presentes que um intercâmbio te oferece: ele te proporciona emoções que te fazem descobrir, de fato, o que você ama. Aliás, eu descobri onde reside a simplicidade da saudade: a mera ausência do que se ama. Quando senti isso pela primeira vez, no meu intercâmbio para Nova Zelândia há cinco anos, eu tinha saudade de boteco nas esquinas: de ver gente
falando alto, rindo e bebendo em mesas e cadeiras de plástico. E senti saudade de carro gritando “olha a pamonha!”.

Porque esse sentimento mistura coração com sentidos: o pão de queijo com os colegas da manhã. As coxinhas e risoles de milhos com os da tarde. A feijoada da minha mãe com amigos e família no fim de semana. O biscoito de queijo da vovó com o café passado na hora. O suco de maracujá com cara de almoço de todo dia contando do meu dia para meus pais. Aí a saudade passa para o toque e tudo que queria era ver TV com velhas mãos conhecidas fazendo cafuné. Sobe para os ouvidos e lembro de passos conhecidos no corredor de casa. Quando me vejo estou no youtube procurando o vídeo do meu irmão tocando viola. Revendo os do Passarinhos do Cerrado e batucando na perna.

Procuro as músicas que divido voz com a minha irmã e canto sozinha. E de repente pedi para minha mãe cantar para mim no skype. E foi o dia em que chorei. Ela me contou que estava cantando Caçador de Mim num domingo se lembrando de mim. No mesmo dia eu dirigia de Madri para Bragança cantando a mesma música, me lembrando dela. E a falta da velha mania brasileira de música para tudo: cozinhar, estudar, lavar roupa, conversar ou fazer qualquer coisa.

A gente tem muito tempo para sentir saudade. O sol chega tarde e vai embora cedo. Nesse intervalo é possível lembrar das amigas de infância, do pastel na feira depois das aulas de quinta à tarde no terceiro ano. Na rua, alguém passa ao meu lado e fica me olhando como se fosse louca. Estou rindo para o nada: são lembranças tão bem guardadas que o frio resgata. E dá saudade do que não vivi também. Do filho que ainda não tive. Dos lugares que ainda não pisei. Dos sonhos individuais e coletivos que ainda não realizei.

Aí a modernidade inventou vários meios de amenizar a saudade. E descubro que, na verdade, sou uma velha. Ou insaciável. Não há telefone ou skype que me satisfaça. Aliás, eles tiram é a graça de tudo. Eu quero compartilhar o que vivo presencialmente, tomando um chope ou uma Coca. E, se não dá, eu gosto mesmo é de escrever. Não quero ter pressa em contar nada, não quero falar tudo, mas não quero deixar passar um detalhe besta que no telefone ou skype sempre passa batido. Se carta chegasse um pouco mais rápido, a ela preferiria. E faço questão de mandar postais. Não há emoção para mim que se iguale a um carteiro na sua porta, uma carta ou encomenda em sua cama.

E por isso degusto a mudança de estações. Aprecio eu me mudar com elas. E me felicito em ver o inverno chegar, em me recolher, sentir frio, saudade e descobrir o que amo. Desfruto do vento gelado na cara que bate e me faz lembrar do que era esquecido. Olho para os lados e penso que, tão logo, tudo isso será passado. E no calor, dentro de pouco tempo, sentirei saudade do que cá vivi.

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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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