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Fittipaldi festeja 40 anos do bi com herdeiros na pista

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06.10.2014 - 08:44:55

São Paulo – A decoração da sala principal do escritório do ex-piloto Emerson Fittipaldi é muito atrativa para qualquer visitante. Miniaturas de carros da Fórmula 1, além de troféus históricos e capacetes antigos deixam claro que ali é o recanto de um bicampeão mundial, que nesta segunda-feira (6/10), inclusive, completa 40 anos do segundo título.

Em um canto da parede e sob a mesa, porém, estão itens diferentes dos demais, mais recentes, que no entanto são capazes de mostrar o quanto o sobrenome ainda produz herdeiros promissores no automobilismo. É o próprio Emerson quem apresenta para a reportagem os feitos do neto Pietro Fittipaldi, de 18 anos.

O atual campeão inglês de Fórmula Renault é candidato a entrar na Fórmula 1. O avô fala dele enquanto aponta para a parede, onde estão fotos do garoto no pódio, e para a própria mesa, decorada com um belo troféu conquistado pelo jovem. Mesmo no simples gesto de apresentar as conquistas atuais da família é clara a presença do passado.

Na mão direita Emerson usa com orgulho o chamativo anel dado ao vencedor da famosa 500 milhas de Indianápolis, prova da qual é bicampeão. A joia leva na parte de cima a tradicional bandeira quadriculada. O neto Pietro não é o único herdeiro de Emerson a começar a ter destaque na pista. O irmão do garoto, Enzo, de 13 anos, é o atual campeão nos Estados Unidos da categoria Minimax, torneio de kart que reúne três estados do país.

O terceiro representante Fittipaldi tem apenas 7 anos. Emmo, filho de Emerson, foi batizado com o apelido pelo qual o pai é conhecido fora do Brasil e começou no kart há menos de um mês. "A cobrança do sobrenome é muito maior do que se não fosse um sobrenome conhecido. Abre portas, mas ao mesmo tempo tem cobrança depois", admitiu Emerson.

O ex-piloto precisou aguardar alguma décadas para poder ver na pista algum descendente direto pegar gosto pelo automobilismo. "Meus dois filhos mais velhos, o Jayson, de 38 anos, e o Luca, que tem 23, um dia andaram de kart, mas não continuaram. Todos tiveram a mesma chance. Não adianta o pai induzir, tem que ser algo natural e eu não fiquei insistindo", contou.

A tradição dos Fittipaldi começa com o pai de Emerson, Wilson. Conhecido como Barão, foi um dos fundadores da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) e pioneiro na transmissão de corridas de carro pelo rádio. Coube a ele narrar o primeiro título do filho na Fórmula 1, em 1972. Barão faleceu em 2013 aos 92 anos e ainda testemunhou mais membros da família seguirem no automobilismo, como o filho, Wilson, e o neto, Christian, ambos com passagens pela F-1.

O próximo da família a chegar à categoria deve ser Pietro. Aos 18 anos, mora na Inglaterra, onde ganhou dez das 15 etapas da Fórmula Renault e já começou inclusive a despertar o interesse de poderosos com influência na Fórmula 1. O magnata mexicano Carlos Slim o contratou para participar do seu programa de desenvolvimento de pilotos.

Pietro é o primeiro estrangeiro no México a integrar o projeto, que já levou para a Fórmula 1 Esteban Gutierrez, atualmente na Sauber, e Sérgio Pérez, da Force India. "O Pietro é dedicado ao extremo. Mesmo quando a corrida termina às três horas da tarde, ele fica até umas nove da noite com a equipe para ajudar a limpar e guardar os carros", disse o pai do garoto, Gugu da Cruz, genro de Emerson e marido de Juliana Fittipaldi.

O casal mora nos Estados Unidos, onde os três filhos nasceram e o mais novo deles também já segue o traçado habitual para quem tem esse sobrenome. Enzo Fittipaldi, de 13 anos, já ganhou competições americanas de kart e vive rotina de piloto de ponta. Contratou um personal trainer para manter a forma, mudou a alimentação e já se aproxima de projetos ambiciosos.

Nesta semana o garoto deve viajar à Itália para fazer testes na Academia Ferrari, projeto de desenvolvimento de talentos. Se aprovado, vai dar mais um largo passo rumo à Fórmula 1 e renovar uma trajetória que já começou ligada aos grandes nomes do automobilismo.

O primeiro kart de Enzo foi um presente dado pelo pai do piloto colombiano Juan Pablo Montoya. Mais novo que os sobrinhos, Emmo começou no último mês a andar de kart em São Paulo, assim, ajuda a renovar a dinastia Fittipaldi. Com apenas sete anos, não sabe da tradição nem da expectativa que carrega e ainda troca alguns momentos na pista por brincadeiras no pebolim.

"O kart é só entretenimento para ele e não uma competição. Não se pode tirar da criança a infância, senão ele vira um mini piloto de Fórmula 1", alertou Emerson. O ex-piloto pode até não pressionar os herdeiros por resultados nos autódromos, mas certamente já sabe como pode reorganizar a decoração da sua sala caso tenha de acomodar novos troféus e fotos no pódio.

A noite mais tensa
Há exatos 40 anos Emerson Fittipaldi vivia um dia de extrema tensão. Era o dia da última corrida do Mundial de 1974 e na noite anterior ao GP dos Estados Unidos o piloto da McLaren experimentou uma sensação intensa de nervosismo que seria rara no restante da carreira.

"Foi uma das únicas noites em que não dormi antes de uma competição. Até mesmo em Indianápolis, que é uma pressão muito maior, por ser um grande evento em um dia, não tive esse problema", contou o ex-piloto.

O ingrediente principal culpado por tirar o sono do brasileiro se chamava Clay Regazzoni, piloto suíço da Ferrari. Os dois chegaram empatados em 52 pontos para última etapa do Mundial. Portanto, a conta era simples: quem terminasse na frente, seria o campeão.

Também estava na disputa o sul-africano Jody Scheckter, da Tyrrel, como 45 pontos e chances remotas de título. "Nunca imaginei que na última prova ia estar empatado com a Ferrari, a nossa rival. Foi muita tensão e não dormi direito", admitiu Fittipaldi, que havia sido vice-campeão no ano anterior.

Na corrida, realizada em Watkins Glen, Fittipaldi saiu em oitavo lugar, com o adversário direto logo atrás, em nono. O brasileiro perdeu a posição para o suíço na largada, mas recuperou o posto ainda na primeira volta. O título ficou mais perto quando Regazzoni teve problemas, parou nos boxes, e caiu para a 20.ª posição.

Fittipaldi fez corrida tranquila, chegou em quarto lugar e marcou três pontos, contra nenhum do suíço, que chegou em 11.º. Scheckter abandonou. A lembrança do título naquele 6 de outubro resgata para o ex-piloto lembranças de como era o diferente o ambiente da Fórmula 1 há 40 anos.

Fotos da época mostram, por exemplo, os pilotos juntos em jantares e até em momentos mais descontraídos, como em um jogo de críquete. "Naquela época, acho que pelo alto risco que a gente tinha, fora do cockpit os pilotos tinham uma ligação muito grande. A gente nunca sabia quem estaria lá na próxima corrida", explicou.

A década de 1970 é marcada pelos vários acidentes graves. Entre 73 e 75, por exemplo, cinco pilotos morreram na categoria. A corrida do título de Fittipaldi teve o acidente fatal do austríaco Helmuth Koinigg. No mesmo ano, o americano Peter Revson morreu durante os treinos para o GP da África do Sul. (Agência Estado)

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por Mônica Parreira

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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