José Abrão
Goiânia – Ocorre nesta quinta-feira (13/8) o festival Sintético – 1ª Mostra de Filmes de Inteligência Artificial. O evento será no Cine Cultura, na Praça Cívica, em Goiânia, a partir das 20h, com entrada gratuita. Idealizado e organizado por docentes e pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG), tem o objetivo de promover o debate sobre cinema e essas novas tecnologias. Serão exibidos nove curtas de todo o mundo.
O professor de cinema Rodrigo Cássio Oliveira, um dos organizadores da mostra, explica o motivo para realizá-la. “Esse tipo de filme levanta a questão sobre o que está acontecendo com o cinema, se há uma nova linguagem ou se trata de uma ferramenta que surge para reforçar uma linguagem já existente. Onde ela entra para contribuir? Ela contribui? Em quais aspectos? Você tem certas formas de fazer cinema que se beneficiam mais do que outras da inteligência artificial? Quais estilos, quais gêneros se beneficiam e até onde a inteligência artificial consegue beneficiar o cinema? Ou será que ela, na verdade, perturba a criação cinematográfica e, na verdade, estabelece um outro tipo de experiência estética? Essas questões todas são questões que nós temos a expectativa de que sejam discutidas, porque a ideia da mostra é levantar questões”, explica.
A escolha dos filmes foi feita de forma ampla: bastava que tivessem sido feitos com IA, sem um recorte. Sobre possíveis críticas, Rodrigo argumenta que discutir o tema é o cerne da questão. “Há muito mais perguntas do que respostas, e acho que há a necessidade de você ver os filmes para, a partir deles, levantar ideias mais sólidas e mais consistentes sobre o que tem sido essa novidade. A ideia da mostra é justamente suscitar o debate”, pondera.
Curadora da mostra e doutoranda em Comunicação pela UFG, Carol Verri explica que a IA tem a ver com a questão central da sua pesquisa: “desde a graduação pesquiso cinema, investigando como a narrativa dos filmes é mostrada pelas convenções de linguagem e estilo. Agora no doutorado, me interessei por pesquisar filmes produzidos por IA para entender, primeiro, o que está sendo produzido e até que ponto existe uma mudança na linguagem narrativa”. Segundo ela, a ideia é analisar a forma desses filmes de IA, ou seja, os elementos da linguagem narrativa do cinema, como iluminação, enquadramentos, uso do som e a montagem. “O objetivo, a principio, é descobrir se esses novos filmes apenas reproduzem as normas já convencionadas ou se trazem inovações para alem da forma de produção”, conclui.
Sobre críticas, Verri pondera que “as ferramentas de IA generativas criam imagens em movimento sem precisar do referente físico ou material, o que não só levanta debates sobre autoria, originalidade, o que é criatividade e como valorizamos esteticamente essas novas obras como também suscita um outro: essas produções podem ser consideradas cinema?”. O cinema já passou por outras “mortes” causadas por novas tecnologias, como o som no cinema falado, a televisão e o ao vivo, a chegada dos gravadores de vídeo e a mudança da película pro digital. “Acredito que essas ‘mortes’ não representam rupturas na linguagem propriamente dita, mas sim transformações. Agora estamos diante de mais um desses momentos, em que a tecnologia permite outras formas de produzir”, conclui.
O coordenador e curador do Cine Cultura, Fabrício Cordeiro, afirma que a sala pública tem um papel a cumprir nessa discussão. “A IA está aí e sendo utilizada de diversas formas em várias áreas. Só existe uma forma de pensar concretamente sobre filmes feitos por IA: assistindo-os e conversando sobre eles. Certamente não é o fim do cinema, que tem seu fim decretado praticamente desde que nasceu. É só mais um momento e mais uma oportunidade para demonstrar que uma das tradições do Cine Cultura é ser livre para exibir de tudo”, pontua.
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A programação completa pode ser vista no site oficial do evento.
