Carolina Pessoni
Goiânia – A pandemia do novo coronavírus trouxe muitas mudanças para o nosso cotidiano. Junto ao álcool em gel e máscaras, vieram também o distanciamento social, a maior quantidade de notícias graves ou ruins e a melancolia que toda essa situação provoca. Em tempos de medos e incertezas, é natural que as pessoas procurem algo para trazer conforto e esperança e aí, nesse caso, "a fé não costuma faiá", já dizia Gilberto Gil.
Para o psicólogo Dimilson Bezerra, a fé pode ser fator positivo num período como o que se está vivendo. Ele explica que em momentos de crises, onde as incertezas se tornam tão presentes em nossos dias, crer em algo que transcende pode ser um caminho que ajude as pessoas a atravessar com segurança a pandemia. "Nesse momento de vulnerabilidade onde a morte se torna tão real para todos nós, acreditar que existe algo além, pode deixar nos mais seremos", diz o psicólogo.
Dimilson explica ainda que a psicologia reconhece tanto a religiosidade quanto a fé como presentes na nossa formação cultural e como fatores que contribuem para a constituição da dimensão subjetiva do ser. "A fé anima as pessoas a enxergarem o mundo com esperanças, fazendo com que elas enfrentem situações difíceis na vida com mais motivação, trazendo credibilidade. Com isso, a fé é encarada de forma positiva, ajudando as pessoas a darem sentido em suas vidas."
Estudos investigam, inclusive, o impacto da espiritualidade sobre a saúde. Especialistas tem publicado pesquisas demonstrando o exercício da fé melhorando a qualidade de vida das pessoas. "Os resultados dessas análises mostram que quanto maior é a prática da fé, menores são os níveis de depressão, índices de suicídios, problemas com álcool e outras drogas", diz Dimilson.
Para entender um pouco mais sobre a relação das pessoas com a fé, o jornal A Redação entrevistou pessoas de diversos segmentos religiosos. Independentemente da denominação, católicos, evangélicos, espíritas, candomblecistas, budistas, muçulmanos, umbandistas e judeus concordam em um ponto: a fé fortalece. Leia abaixo os relatos que selecionamos.
Catolicismo
O padre Rodrigo de Castro (ao lado), do Santuário Sagrada Família, de Goiânia, explica que a visão católica não acredita na teoria de que o novo coronavírus foi criado pelo ser humano para chegar numa catástrofe mundial como a que estamos vivendo. Ele diz ainda que, na pandemia, os católicos têm procurado mais as igrejas, que inclusive se adaptaram com celebrações a céu aberto e confissões e sacramentos por drive-thru.
"A igreja está aberta 24 horas por dia. Temos as missas presenciais, cumprindo todos os protocolos da Vigilância Sanitária e da Organização Mundial de Saúde. Temos percebido que as pessoas têm se aproximado mais de Deus, quer seja presencialmente ou espiritualmente", diz.
Segundo o padre, as orientações para os católicos durante a pandemia são de professar a fé e buscar o sagrado, mas, de preferência, em casa. As adorações e grupos de oração são feitas por meio de lives nos sites, YouTube e redes sociais. "A igreja está aberta, mas para aqueles que não têm situação de risco. Nós oferecemos esses atendimentos dentro dos veículos para que as pessoas não se exponham. Recomendamos muita oração, fizemos uma oração à Sagrada Família pela pandemia, sempre solidários à família, acompanhando os enfermos e velórios, sempre presentes na dor do nosso povo.", explica.
A odontóloga Eliza Ganzaroli (ao lado) foi criada no catolicismo e desde criança frequenta missas e participa de atividades da igreja. Ela diz que enxergou na pandemia uma grande oportunidade de se aproximar e de se aprofundar no que antes "erroneamente não tinha tempo pra fazer". "Já que agora não há mais essa desculpa, vejo um excelente momento para fortalecer a minha fé, através do conhecimento, da oração, da meditação do evangelho e principalmente de conversas abertas com Jesus, que, acredito que mais do que nunca, deve ser nosso melhor e mais próximo amigo", afirma.
Um questionamento, entretanto, veio à mente de Eliza no início da pandemia. "Me perguntei: será que Deus queria mesmo que isso tudo acontecesse? Que tanta gente morresse, que tanto sofrimento tomasse conta neste momento? Mas, como em todas as outras situações, de pouco a pouco, devemos deixar Deus ser Deus, agir conforme sua vontade e confiar que tudo vai ficar bem! Isso é firmar a fé e esperar o quanto for preciso, afinal o tempo de Deus não é o nosso", ressalta.
Para ela, a fé tem sido fundamental para enfrentar todos os problemas, como as mudanças de planos, hábitos, alterações na rotina de uma forma tão brusca. Nesse período, ela acredita que se aproximou ainda mais de suas crenças e valores.
"A oração que mais tenho repetido durante esse período é a seguinte: Senhor, eu creio, mas aumentai a minha fé. Se não acreditarmos que tudo isso tem um propósito, que todo nosso destino está traçado e que há algo ou alguém muito maior que cuida disso tudo, dificilmente chegaremos bem ao final", diz a odontóloga. Para ela, a fé em Deus e a crença na proteção divina é o que tem lhe sustentado e ajudado a viver, sempre um dia de cada vez, confiando sempre que o amanhã será melhor.
Protestantismo
"Deus, em Sua Soberania, permite situações para provação, juízo, despertamento espiritual e emocional, disciplina e demonstração do Seu poder", explica o pastor Jairo Junior (ao lado), da Igreja Presbiteriana Vida. Ele afirma que no caso da pandemia, encontramos as consequências das ações do homem, e que Deus usa das circunstâncias para alinhar a humanidade à sua vontade. "Isso é perceptível nas mudanças comportamentais e relacionais que já podemos vislumbrar a partir dessa pandemia. O ser humano passou a ser mais humano", diz.
O pastor diz que houve uma procura maior por Deus. Aqueles que já viviam uma vida espiritual constante passaram a buscar mais ainda, numa vida de oração e devoção. "Tantos que nunca fizeram isto ou apenas tinham uma vida de religiosidade vazia, passaram a buscar entendimento maior e um relacionamento real com Deus. Nunca vimos tantas lives, cultos e explanações bíblicas como nesta pandemia", ressalta.
Jairo diz que a Igreja tem instruído os fiéis na palavra de Deus como única regra de fé, numa busca diária de comunhão verdadeira. "Temos orientado não somente a busca espiritual, mas também a relacional. As famílias estão se redescobrindo. Uma família fortalecida provoca uma igreja fortalecida, e, juntas, uma sociedade fortalecida", reforça.
O empresário Wriel Ferreira afirma que sua fé um conforto ao coração e um descanso à mente durante a pandemia. "Crer que existe um Deus que é Senhor sobre todas as coisas e ter fé que Ele governa todas as coisas é um bálsamo para aquele que crê, mesmo em meio ao caos que toda essa situação nos causou", diz.
Ele afirma que, neste período, buscou caminhar conforme as escrituras, buscando sempre "a Glória de Deus", pois isso é o que traz paz ao seu coração. Para isso, a leitura das escrituras e a oração são peças fundamentais no seu dia a dia, de modo que não alimente o medo, mas permita seguir confiando. "Todo esse período de medos e ansiedades causados por todas as incertezas da covid-19, foram mais um meio para lembrar da importância dos feitos de Cristo, e, principalmente, da doce alegria que Ele zela por nós", afirma.
Para Wriel, a pandemia lhe trouxe o desejo e a necessidade buscar mais de Deus, fazendo-o se aproximar ainda mais de sua fé e suas crenças. "Outro fator fundamental para o fortalecimento da fé como indivíduo foi a ausência da comunhão com a igreja local. Ser impedido de viver esse momento fez com que o desejo e anseio pela busca por fortalecimento da fé fosse maior. Creio que esse período foi ímpar para que os cristãos valorizassem suas igrejas locais, a comunhão entre irmãos e, assim, trazer o fortalecimento da fé em Cristo Jesus", explica.
Espiritismo
Paulo César Ferreira dos Santos (ao lado) é presidente da Federação Espírita do Estado de Goiás (Feego) e explica que, na visão espírita, não existe nenhum efeito sem causa, então, tudo é justo. A pandemia e todas as dificuldades que a humanidade passa fazem parte de um processo educativo.
"Às vezes, nós não entendemos bem determinada lição e voltamos, dentro de um processo pedagógico, tendo que passar por um aprendizado", explica. Ele ressalta ainda que, segundo o espiritismo, todos os transtornos causados pela pandemia fazem parte de um processo evolutivo que a humanidade está vivenciando.
Paulo diz que a doutrina tem sido muito mais procurada porque, na visão espírita, ela é o consolador prometido por Jesus. "Ela é um instrumento de consolo nesse momento. As lives, as palestras, ações e atendimentos fraternos aumentaram muito, mesmo porque as dores emocionais também cresceram. As pessoas estão em busca da paz que a doutrina é capaz de trazer."
A orientação para os espíritas é que mantenham a vibração de energia positiva, com as orações e culto do Evangelho em casa, com a família reunida. "A oração é o instrumento de ligação com o plano espiritual e com esse manancial de energia disponível. O culto no lar é o momento da família usar para refletir sobre determinados assuntos, criar o hábito da oração e da meditação. Tudo isso facilita essa ligação com o plano espiritual e, com certeza, nos acalma. A prece e as reflexões em torno do Evangelho de Jesus são o grande instrumento que nós temos como auxílio nesse momento em que estamos reclusos em nossos lares", explica o presidente da Feego.
A servidora pública Hellen Gomides (ao lado) é espírita e diz que sua fé foi essencial neste momento. Para ela, "apenas com muita fé" é possível viver, dia após dia, com tantas tristezas trazidas pela pandemia. "As minhas crenças, mais do que nunca, deram sentido à minha vida e me fizeram entender esta fase do nosso planeta", diz.
Ela conta que sua conexão com Deus foi através da oração, em busca de ressignificar sentimentos, com mais momentos de reflexão. "Isso fez muito bem pra mim. Colocar verdadeiramente em prática a minha fé raciocinada, aprendida com a Doutrina Espírita, me trouxe leveza, esperança e confiança em dias melhores pra toda a humanidade."
Hellen diz ainda que nunca esteve tão próxima de suas crenças como agora. "Foi o momento da vida em que mais senti a real necessidade de colocar em prática, a todo tempo, os ensinamentos deixados por nosso mestre Jesus. Agradeço a Deus todos os dias pelas minhas crenças, que tanto têm me ajudado", explica.
Para ela, a fé é fundamental para se fortalecer e enfrentar os medos e incertezas diante da pandemia. "A espiritualidade sempre foi reconhecida como o acalanto de muitos diante do desconhecido. E, atualmente, nada se mostra mais desconhecido do que o vírus que assola o mundo. Desejo, com meus mais profundos sentimentos, que todos possam, de alguma forma, através de suas próprias crenças, encontrar na sua fé o conforto sentimental para passarem por esta provação", encerra.
Candomblé
O babalorixá Marcos Torres explica que o candomblé não crê em questões como provação e castigo. Na mitologia iorubá, matriz do candomblé, questões como a pandemia são definidas pela desorganização de energia no ayê, que é a Terra. "Quando isso acontece, é necessária a intervenção dos Orixás para restabelecer o equilíbrio", afirma.
Marcos explica que o candomblé é uma religião de iniciação e que a pandemia não alterou a procura dos iniciados, mas atingiu aqueles que procuram por jogo ou ebós, que são trabalhos de limpeza e abertura de caminhos, que diminuíram. "Também influenciou a experiência religiosa pela impossibilidade de realização das atividades que demandam um tempo maior."

Segundo o candomblé, é momento de pedir para os orixás reestabelecerem o equilíbrio da Terra (Foto: Divulgação)
O babalorixá diz ainda que não há uma orientação específica para os candomblecistas por conta da pandemia, mas, como em todo processo de desequilíbrio, é momento de pedir a intervenção dos Orixás. "Em agosto, na maioria das casas é celebrado o Olubajé, festa em homenagem a Omulu, orixá que vence as doenças. Será, então, um período muito importante para as casas e para os iniciados", diz.
O professor de artes Jackson Leal (ao lado) é candomblecista e diz que esse momento tem sido muito complexo. "O candomblé é vida e neste momento estamos perdendo várias delas. Então, é impossível a gente não se afetar", diz. Entretanto, a crença tem sido fundamental para manter o equilíbrio. "Pertencer a essa religião no período pandêmico foi de extrema importância para mim na questão do autoconhecimento, para eu saber minhas limitações e quem sou eu diante de tudo isso que está acontecendo. Foi onde encontrei apoio para não surtar", afirma.
Para ele, a pior parte foi ficar sem a convivência das pessoas e sem as reuniões no terreiro. "Candomblé é comunidade, convivência, estar em conjunto. E nesse período a gente teve que se afastar, por nossa própria segurança. Seria muito contraditório se reunir, porque se o candomblé é vida, como que a gente iria celebrá-la e não tem cuidado por ela?", ressalta.
Jackson afirma que esse período fez com que ele se aproximasse mais de suas crenças. "Nesses momentos de dificuldade a gente se apega àquilo que a gente acredita. Esse momento exigiu que eu voltasse a atenção para mim mesmo e me fez perceber que eu preciso da religião, de cuidar do meu corpo, do meu espírito e da minha mente para não me perder diante desse caos."
Budismo
O Monge Eduardo Choshin, do Mosteiro Eisho-ji, em Pirenópolis, explica que o budismo não vê a pandemia com uma ideia de provação ou castigo, mas como um momento de reflexão. "O budismo não olharia para este momento como uma provação, mas como uma das tantas situações pela qual a humanidade passa e que pode nos servir para repensar nossas relações e responsabilidades", diz.
Ele acredita que não houve mudança efetiva no afastamento ou aproximação das pessoas com o budismo, mas que tem percebido uma procura maior pelas práticas de meditação como um todo, não apenas de budistas. Um exemplo prático disso são os inúmeros grupos online que se formaram para praticar meditação juntos, ler textos budistas e refletir sobre temas relacionados. "Com as pessoas tendo que ficar mais tempo em casa e lidando com novas situações de estresse, muitas veem na meditação uma forma de lidar melhor com o momento", afirma.
Segundo o monge, a orientação para os budistas é o aprofundamento na prática de meditação para ter uma visão clara e pacífica de
como agir no mundo e ajudar o seu entorno. "Para abrandar o estresse e a ansiedade no meio de tantas dificuldades, além de cultivar uma mente mais equilibrada, podemos tentar beneficiar os outros, com responsabilidade pela vida de todos e oferecer nossa ajuda a quem está em situação mais difícil. A melhor forma de ajudar a si mesmo é ajudando as outras pessoas. Esse é um bom caminho para obtermos tranquilidade", diz.
A budista Rachel Melo (ao lado) é idealizadora e aplicadora do Projeto Crescendo Zen e diz que, no período de pandemia, tentou manter a atenção plena ao momento presente, gerando o mínimo de carmas negativos que se consiga em pensamentos, palavras e atos. "O que nos restou fazer foi apenas tomar um cuidado a mais conosco mesmos e com os outros, tomando as precauções solicitadas pelas autoridades sanitárias e sensibilizando quem conseguimos sensibilizar no sentido de que ao nos cuidarmos, estamos cuidando dos outros", diz.
Ela afirma que, neste período, continuou com as suas rotinas, como sentar em zazen (meditação sentada), fazer a recitação dos sutras e orações. Rachel diz ainda que houve uma aproximação maior dos praticantes do budismo ao criarem grupos online de meditação e estudo, ajudando quem estivesse em situação de solidão ou medo. "Para budistas essas intercorrências fazem parte da existência de algumas doenças da condição humana. As nossas crenças não são sujeitas a altos e baixos. Simplesmente caminhamos, fazendo esforço para melhorarmos todos os dias", afirma.
Islamismo
A cientista da computação Alexandra Omar (ao lado) é muçulmana e diz que sua fé, independentemente de qualquer situação sempre foi inabalável. "Com a pandemia, em um ano atípico para todo o mundo, o que fizemos foi aumentar as orações, essa conexão ficou ainda maior. Acrescentamos mais uma súplica em nossas orações com intuito de mais bençãos e proteção à todos."
Ela diz que acreditar em um Deus "clemente e misericordioso" fez com que seus dias e de sua família fossem mais leves e em meio a tanto medo. "Fizemos ainda mais uma reflexão sobre os nossos valores: pensar mais no ser do que no ter. O coração vai se enchendo cada vez mais de amor, bondade, caridade e de atos tão simples, mas que fizeram e fazem a diferença", afirma.
Para Alexandra, a pandemia fez com que sua fé aumentasse exponencialmente. "Tivemos uma evolução imensurável, acreditando ainda mais nos propósitos de Allah para nossas vidas", diz.
Umbanda
A jornalista Taynara Borges diz que sua fé é o que tem lhe ajudado nesta pandemia e que ter a certeza de que não está sozinha em um momento tão difícil tem sido fundamental para a manutenção de sua saúde mental. "Sei que meus guias seguem comigo e, mais do que isso, que essas entidades superiores auxiliam todos aqueles que trabalham em áreas tão cruciais, como a saúde, e todas aquelas essenciais, que não podem ser interrompidas, além de estarem ao lado dos enfermos e daqueles que estão desencarnando. Isso tem feito toda a diferença", afirma.
Para ela, o fechamento da Tenda, sem data para retorno por orientação dos dirigentes espirituais, trouxe apreensão. Então, sob orientação, intensificou seus momentos de meditação e oração em casa. "Acendo minhas velas para me sentir próxima dos meus guias, acendo incenso e faço defumações com ervas para limpeza da casa. Ao longo do dia há sempre um detalhe para me recordar de estar conectada com nosso Pai Maior", explica.

(Foto: Tânia Rego/Agência Brasil)
Taynara diz ainda que sentiu maior aproximação com sua fé, consigo e seus guias nos últimos meses. A busca é por sentir e entender melhor as energias que chegam até ela e, assim, trabalhar internamente para otimizar as boas vibrações e dissipar aquelas que poderiam gerar medo, angústia ou ansiedade. "A prática contínua transforma tudo em hábito. Então, além de deixar os sapatos sempre à porta, o hábito da conexão com minha fé será, com certeza, algo que levarei comigo ainda por muito tempo", pontua.
Judaísmo
O empresário Ehud Allon ben Avraham diz que a fé a esperança em um mundo melhor e em um ser humano melhor são fundamentais no judaísmo. Ele diz que mesmo com todo o avanço da ciência, nos momentos em que se vê a aproximação do mal. Neste caso a doença, é na fé que se refugia para ter um pouco de conforto e segurança. "A minha fé, não só nos aspectos transcendentais do judaísmo, mas também nos seus princípios que regem a vida diária, ajudou muito a manter a estabilidade e o equilíbrio nesta época tão conturbada", afirma.

(Foto: Ascib DF)
O empresário acredita que a proximidade com a fé é um trabalho constante, e o estudo e apego aos preceitos se intensificou com a pandemia. Ehud diz que mantém sua rotina de rezas e estudos diários, o que tem sido fundamental para seu equilíbrio mental. "Ao seguir, dentro das minhas possibilidades, os mandamentos da Torah e os ensinamentos dos sábios, eu sinto que tenho um centro, tenho um pouco de controle do ambiente à minha volta."
Ele conta que é membro da Associação Cultural Israelita de Brasília (Acib) e que, embora não estejam sendo feitas reuniões presenciais, não deixam de realizar estudos e rezas comunitárias pela internet, o que às vezes traz surpresas confortantes. "Como estudamos textos contemporâneos, mas também outros antiquíssimos, sempre achamos conselhos dados por pessoas que já passaram por esse tipo de situação antes. Uma pandemia não é algo de novo sobre a Terra", diz.
Ateísmo
Se a fé funciona como um ponto de apoio para as pessoas se fortalecerem emocionalmente nesta pandemia, teriam os ateus mais dificuldade para enfrentarem esse momento? Não é o que diz a jornalista Iris Bertoncini (ao lado). Ela afirma que tenta ver as coisas de forma realista e não enxerga a pandemia como um castigo ou provação.
Para ela, a força vem de coisas simples que observa no cotidiano, que a fazem lembrar do valor da vida. "Lamento muito porque mexeu com a nossa liberdade. E é nas ruas, na natureza, no mar que sinto o quanto é importante dar valor à vida. Andar de bicicleta e ver as manifestações de vida, desde uma árvore florida até um gari trabalhando, me faz lembrar que a vida acontece, apesar de tudo", diz.
Iris conta que, neste período, sua tática de sobrevivência foi a psicanálise por sessões virtuais, além de conversar com os amigos como uma forma de se fortalecer. "Senti altos e baixos na pandemia. Momentos que eu fico muito chateada por ficar 24 horas em casa, longe da minha família, colegas, amigos e momentos que tento ser otimista, com novos prazeres, como decorar a casa, fazer comida, investir em projetos antigos", conta.
Questionada se a pandemia trouxe momentos de dúvidas ou incertezas com relação à sua falta de crença, a jornalista foi categórica: "pelo contrário, só reafirmou que não tem lógica um ser superior 'permitir' tamanha catástrofe. Sei que existem várias explicações para isso nas religiões, mas a pandemia mostrou que a ciência é o caminho para a evolução e para a proteção do ser humano", reforçou. "Não há fé para mim. Eu tenho consciência que há dias bons e dias ruins. E lembrar que tudo isso vai passar ajuda a gente ter mais sanidade mental", encerra Iris.