João Unes e Sarah Mohn
Nova York – Era fim de tarde do dia subsequente ao término da missão oficial realizada pela comitiva goiana nos Estados Unidos – entre os dias 11 e 13 deste mês – quando a secretária de Estado da Fazenda, Ana Carla Abrão, conseguiu uma brecha nos compromissos de trabalho para conceder entrevista ao jornal A Redação.
No clima ameno e agradável do fim da primavera, Ana Carla conversou com o AR no Central Park, em Nova York, onde declarou que a perspectiva do Governo de Goiás é zerar o déficit do Estado até 2017. “A nossa expectativa é que tenhamos déficit, neste ano, de R$ 440 milhões. No próximo ano, a nossa expectativa é déficit ainda menor, na ordem de R$ 200 milhões. No terceiro ano, possivelmente, já teremos as contas zeradas do ponto de vista de resultados”, antecipou.
A secretária discorreu sobre a afinidade com o perfil de gestão do ministro Joaquim Levy, ressaltou o compromisso com a administração do governador Marconi Perillo, a quem chamou de “liderança forte”, garantiu que Goiás tem capacidade de se tornar um dos Estados mais competitivos do país e falou, ainda, sobre a conciliação da vida pessoal com a carreira pública. “Os meus filhos já se acostumaram com o fato de que a mãe não está presente em casa todos os dias. Mas eu procuro compensar isso com qualidade, com qualidade de tempo, qualidade de dedicação.”
Confira a íntegra da entrevista:
Jornal A Redação: A senhora promoveu nos últimos dias mudanças estruturais na Sefaz, como a redução de quatro para três superintendências. Qual o objetivo dessas alterações?
Ana Carla Abrão: Estamos no processo de busca de eficiência e cortes de gastos. Após mais de quatro meses à frente da secretaria, eu tenho mais clareza do que precisava ser feito e também uma necessidade de oxigenação. A equipe anterior é absolutamente capacitada e competente, mas no caso da superintendência que foi extinta (Superintendência de Contabilidade Geral), eu claramente percebi que não havia necessidade dessa superintendência. Nas outras três, em especial no caso da Receita, o objetivo foi dar um caráter mais fiscalista. Nas outras duas, uma oxigenação, uma mudança efetivamente.
AR: Ao contrário de alguns secretários estaduais de Fazenda no Brasil, a senhora é favorável ao pacote de ajuste fiscal intencionado pelo governo federal. Por que a senhora acredita nesse pacote e quando espera que ele comece a apresentar resultados?
Ana Carla: Eu conheço o ministro Levy de longa data, sei da competência e capacidade, entendo o que ele está fazendo. Entendo que o objetivo dele acima de tudo é trazer de volta a capacidade de crescimento, produtividade, investimento para o país. E que para isso é necessário que se tomem atitudes, adotem medidas de austeridade, medidas difíceis. Tendo em vista até o alinhamento técnico que tenho com ele, não tenho dúvidas da capacidade dele de entregar o que está prometendo.
AR: Em enquete promovida no site do Sindipúblico, a maioria dos internautas diz preferir que o salário do funcionalismo público seja pago integralmente no 5º dia útil do mês. Como a senhora enxerga esse cenário?
Ana Carla: Essa é uma questão que deve ser levada à Secretaria de Gestão e Planejamento, que é a pasta que tem responsabilidade sobre a folha de pagamento. A opção por fazer o parcelamento e manter 50% do salário pago antecipadamente foi uma decisão que teve como objetivo minimizar o impacto do parcelamento da folha sobre os servidores. Mas, definitivamente, se há uma preferência por se manter 100% dos salários pagos no 5º dia útil, esse é um pleito que deveria ser encaminhado à Segplan, ao secretário Thiago Peixoto, que avaliará a conveniência dessa decisão.
AR: A decisão de parcelar salários e antecipar o pagamento de ICMS, decisões polêmicas, foi tomada em colegiado?
Ana Carla: Sim. Todas as decisões são tomadas como decisões de governo. Não são decisões da Secretaria da Fazenda. Em particular essa, tendo em vista o impacto político e sobre todo o contingente de servidores públicos, foi uma decisão tomada no âmbito do governo, não da secretaria.
AR: A senhora disse em entrevistas que o objetivo do projeto Nota Fiscal Goiana tem como premissa muito mais promover a conscientização da população contra a informalidade, do que se restringir à aspecto da arrecadação. Esse objetivo de conscientização já está sendo alcançado?
Ana Carla: Certamente. Depois que ampliamos a publicidade, a mídia, está havendo uma maior adesão. Mas, definitivamente, o que estamos buscando é mesmo a conscientização. À medida que a população entende e começa a pedir sua nota fiscal, a gente atinge o objetivo principal, que é a conscientização. O entendimento por parte do contribuinte, do consumidor, de que ele já paga o seu imposto no preço da mercadoria e da compra. A emissão da nota fiscal é uma obrigação do lojista, do empresário. Esse é o objetivo principal e ele está sendo atingido na medida em que nós temos maior adesão. A arrecadação acaba vindo por consequência, mas o impacto dela do ponto de vista financeiro é muito pequeno. O que a gente objetiva de fato é a conscientização.
AR: O ajuste fiscal no Estado de Goiás já está dando resultados?
Ana Carla: Do ponto de vista orçamentário, nós já observamos uma redução de despesa importante. É preciso que se diga que há a questão orçamentária, mas há a questão financeira. A financeira é o que se refere ao caixa do Estado. No caixa, nós ainda não sentimos impacto, porque várias dessas medidas começam a dar resultado no segundo semestre. Mas o orçamento antecipa o caixa futuro. Portanto, ao vermos que há reflexos no orçamento, nós sabemos que nos próximos meses nós começaremos a sentir isso também do lado financeiro.
(Foto: João Unes/A Redação)
AR: O ajuste fiscal é uma medida para gerar resultados a longo prazo?
Ana Carla: O ajuste é sempre um tema que incomoda e traz ações que são até negativas, mas o importante é ressaltar que estamos hoje num projeto que é de longo prazo. É um projeto de governo que visa modernizar a gestão fiscal, dar condições de competitividade a Goiás e, acima de tudo, trazer Goiás de volta ao crescimento, geração de empregos e sair da crise, que é nacional. Nós estamos inseridos nela, mas todo o processo de ajuste é um meio para que tenhamos atingido ao final do processo uma situação muito melhor e mais sólida do que a que estamos vivendo hoje.
AR: Qual a situação das contas do Estado de Goiás? Qual o déficit atual e quando ele deve ser zerado?
Ana Carla: Atualmente, a gente tem claro os resultados trimestrais, do quadrimestre, mas estes são resultados que a gente não pode estender para o ano todo. A nossa expectativa é que tenhamos, conforme encaminhado na revisão da LDO para a Assembleia Legislativa, um déficit neste ano de R$ 440 milhões. E pelos números do primeiro quadrimestre este objetivo será atingido, ou seja, uma redução em relação ao ano passado, cujo déficit foi de R$ 660 milhões. No próximo ano, a nossa expectativa é que tenhamos um déficit ainda menor, na ordem de R$ 200 milhões. No terceiro ano, possivelmente, já teremos as contas zeradas do ponto de vista de resultados.
AR: Qual o balanço a senhora faz da missão goiana aos Estados Unidos?
Ana Carla: Foi uma viagem importantíssima, foi um movimento de grande relevância. Nós tivemos a oportunidade de estar com acadêmicos, pesquisadores, empresários, representações comerciais, institucionais. Essas são ações que engradecem o Estado. Não só atuamos como embaixadores, mas também aprendemos, ouvimos experiências que podem certamente nos ajudar na gestão do nosso Estado. Com os temas abordados aqui, tivemos a oportunidade de aprender com experiências que já deram certo aqui ou em outros países.
AR: Para assumir a Sefaz, sua vida pessoal sofreu mudanças. Seus filhos continuam morando em São Paulo, enquanto você em Goiânia. Como está sendo conciliar vida pessoal com profissional neste momento?
Ana Carla: Do ponto de vista familiar, essa é uma realidade que toda mulher vive ao abraçar uma profissão, uma carreira. Eu vivo o conflito que é natural a todas as mulheres que trabalham fora de casa. Mas essa sempre foi a minha vida. Os meus filhos já se acostumaram com o fato de que a mãe não está presente em casa todos os dias. Mesmo quando eu trabalhava em São Paulo isso já era uma realidade. Vários dias se passavam sem que eles me vissem à noite ou pela manhã. Mas eu procuro compensar isso com qualidade, com qualidade de tempo, qualidade de dedicação. Quando estou em São Paulo, estou 100% dedicada à família, aos meus filhos, ao meu marido e aos meus amigos para tentar compensar a ausência física durante a semana.
AR: O Estado de Goiás está preparado para ser mais competitivo?
Ana Carla: Certamente. Goiás está numa situação muito favorável relativamente aos outros Estados e eu diria até mesmo do ponto de vista da União. Goiás hoje tem potencial e capacidade de se diferenciar. Isso, claro, fruto do potencial econômico do Estado, mas fruto também de um projeto modernizante de uma liderança forte, como a do governador Marconi Perillo, que trouxe o Estado a uma situação privilegiada. Mesmo num momento de crise, anteviu a necessidade de fazermos os ajustes necessários para que continuemos nos diferenciando em relação aos outros Estados e ao Brasil.