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Eu é que não sigo só o meu caminho

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25.11.2011 - 22:29:58

Nós, brasileiros, somos arraigados demais. A tudo quanto é tipo de coisa. Desde bobagens mais elementares até mesmo aos nossos entes queridos. Tudo para nós tem valor superlativo. Somos o país da hipérbole. Acho que isso se deve às nossas raízes latinas, onde tudo é dramático e intenso. No frigir dos ovos, o coração muitas vezes conta mais que outros elementos racionais. Para o bem ou para o mal, é assim que somos. Fazer o quê?

Tente limpar seu guarda-roupa e você verá o que é apego. Nada é descartável o suficiente para pegar outro rumo que não o da gaveta empoeirada que você nunca mexe. Aquele papelzinho com um recado de um velho amigo, aquele bilhete da ex-namorada que hoje você quer ver na Groelândia, aquela camiseta que não lhe serve mais e você sabe que não vai emagrecer para usá-la novamente. Tudo tem valor demais. Isso falando das coisas triviais. Quando tratamos de pais, avós, irmãos, amigos ou até mesmo a rua onde fomos criados, a coisa ganha contornos mais densos. Levamos tudo isso a sério demais.

Comecei a pensar nisso por conta do tal do Dia de Ação de Graças, que foi comemorado nessa última quinta-feira. Vi a mobilização que envolve os Estados Unidos nessa data. Para dar uma ideia mais nítida, esse é o dia em que o cara cruza o país de costa a costa para ver os pais. Todo esforço é válido para passar alguns momentos junto da família. Até aí, tudo certo! Fazemos o mesmo para estar junto de nossos familiares na noite de Natal. A diferença é que um dia só por ano é pouco para nós.

Nos EUA, é absolutamente comum o cara dar as caras somente essa vez no ano e nos demais 364 dias nenhum oi. Nada de telefonemas. E-mail, nem pensar. Nada. E os pais não se incomodam, pois também fazem isso com os deles. É cultural. Aqui, quantos de nós não deixaram de lado belas oportunidades profissionais pelo fato de que estar longe dos familiares, amigos e referências pessoais contava mais do que a ascensão da carreira? Vários e vários. Por isso é que somos diferentes dos gringos lá da América do Norte.

Por lá, cada um segue só o seu caminho. Cada um é um pássaro voando sozinho, na imensidão do mundo azul. Por aqui, nosso círculo social tem uma conotação intensa que é simplesmente incompreensível para os caras. Eles não conseguem entender o porquê de dispensarmos ofertas generosas para ficarmos onde estamos. E eles nunca vão entender. Nós compreendemos cada detalhe.

Esses pequenos prazeres nos deixam mais felizes. Ganhar uma baita projeção profissional a qualquer preço na vida pessoal os deixa mais felizes. Cada um, cada um. Eu é que não nego meu sangue latino: a presença dos que amo ao meu lado deixa minha vida melhor. Sou mais feliz assim. E não sei se abro mão disso tão cedo. Talvez nunca.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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