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Escritores homenageiam os 126 anos de Cora Coralina

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20.08.2015 - 17:19:39

São Paulo – Cora Coralina, uma das poetas mais queridas dos leitores brasileiros, nasceu no dia 20 de agosto de 1889. Viveu uma longa vida dedicada à família, a seus escritos e suas panelas. Era uma doceira de mão cheia, e foi assim que o escritor Flávio Carneiro, então uma criança, conheceu Cora em sua casa, na Cidade de Goiás. Seus pais compravam os doces dela, e Flávio ainda nem sabia o que era poesia. Anos depois, aprendeu uma importante lição sobre literatura com ela.

André de Leones, nascido em Silvânia, a pouco mais de 200 quilômetros da cidade de Cora, ouviu sobre ela na escola e ainda se lembra da sensação “agridoce” de seus poemas. Para Ignácio de Loyola Brandão, Cora é um talento natural, e “talentos naturais acontecem estejam onde estiverem”.

A pedido do Estado, escritores e poetas contemporâneos falaram sobre Cora Coralina, a poeta festejada e popular, que acaba de ganhar um filme sobre sua trajetória, mas que ainda sofre preconceito pela “simplicidade” de seus versos e de seus temas

Flávio Carneiro
Eu conheci a Cora quando eu era criança e ia com meus pais à sua casa comprar doce. Nem sabia que aquela velhinha era uma poeta (nem sabia o que era uma poeta, aliás). Depois a visitei quando tinha uns 20 e poucos anos, já morava no Rio e estava para publicar meu primeiro livro. Ela me perguntou o que era mais importante pra um escritor e respondi, apressado: publicar. Ela então me disse: não, o mais importante pra um escritor é escrever. Ao longo do tempo, essa resposta foi ganhando novos contornos na minha vida, no meu ofício de escritor, e cada vez acredito mais que Cora estava certa quando me disse aquilo, na calma da sua casa velha da ponte, num dia distante.

André de Leones
Nascido e criado em Goiás, tive o meu primeiro contato com os escritos de Cora Coralina bem cedo, no colégio. Com frequência, ela era tratada de forma demasiadamente solene, e também como uma curiosidade: a doceira da Cidade de Goiás, antiga Vila Boa, que só teve o primeiro livro publicado aos 76 anos de idade, se não me falha a memória. No entanto, eu me lembro da sensação agridoce causada por versos como: "Faz da tua vida mesquinha / um poema". E também da franqueza extrema com que ela se descreve: "Eu era triste, nervosa e feia. / Amarela, de rosto empalamado. / De pernas moles, caindo à toa. / Os que assim me viam ­ diziam: / '­ Essa menina é o retrato vivo / do velho pai doente'". São poemas repletos de uma estranheza tranquila, constituídos por imagens simples, mas jamais simplórias. Rejeitam qualquer ranço solene e nada têm a ver com a gritaria estúpida dos poetastros provincianos que, volta e meia, vergastavam os nossos ouvidos.

Pelo contrário, os versos de Cora Coralina falam baixo, remetendo a paisagens familiares, mas de maneiras que nos fazem observá­las de novo e de novo, como se fôssemos forasteiros. Conterrâneo dela, só posso agradecer por ajudar a fazer de mim um estrangeiro ­ coisa que considero imprescindível para escrever o que for, sobre onde quer que seja. 13 escritores falam sobre Cora Coralina 20/08/2015 13 escritores falam sobre Cora Coralina ­ Cultura ­ Estadão http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,no­dia­do­aniversario­de­cora­coralina­­escritores­falam­sobre­a­lendaria­poeta,1747303 2/4 Ignácio de Loyola Brandão O chamado fenômeno Cora Coralina é simples. Os talentos são naturais, acontecem, estejam onde estiverem. São vulcões que entram em erupção de um momento para o outro. Às vezes são descobertos. Outras vezes, não. Cora Coralina, Manoel de Barros. Fenômenos da natureza da literatura. Não são fabricados, são pedra bruta, são pureza. E a Kolody, fantástica, do Paraná? Tem substância, tem o que dizer, precisa dizer. São a verdadeira poesia, literatura. É assim que vejo, o resto é mídia fabricada.

Armando Freitas Filho
O fenômeno de Cora Coralina só pode ser bem entendido, a meu ver, quando se sente no que ela escreveu, o sentimento popular do seu lugar e do seu modo de expressar, o que sua vida ali, em ligação direta, soube captar e transcender. Fenômeno semelhante, em outro gênero, citando apenas um exemplo, foi o do pintor Heitor dos Prazeres, que também soube traduzir plasticamente a ambiência carioca em que viveu e consagrou.


(Foto: reprodução/ Estadão conteúdo)

Mariana Ianelli
Cora Coralina é um daqueles nomes que já passaram por tantos crivos na vida que não se intimidam mais quando aparecem discriminados pela própria singularidade. Foi poeticamente tão madura e consciente da sua autenticidade que chegava a ser marota quando se autodefinia “cultivadamente rude”. Rude porque seu léxico exuberante, sua poesia ritmada, sua atmosfera de estórias de antigamente, de uma gente e uma Goiás “de dantes”, têm fonte fora dos livros, no barro das coisas, na experiência de ter posto a mão na vida ao longo do tempo, como, doceira que era, também punha a mão na massa. Essa rudeza, que é virtude de Cora – e um pouco um privilégio de seu tempo, que chamava à experiência –, é a de fazer a palavra germinar da vivência, e aí sim: cultivadamente.

Fabrício Capinejar
Cora Coralina, como Mário Quintana, se enraizou num folclore cotidiano poético. Ela conseguiu trazer um público novo para a poesia. Aliás, ela tem dois públicos fiéis: o que gosta de poesia, porque ela é uma poeta que fala de poesia, e o que gosta da simplicidade – e que cultua o interior, a casa, o beco, o imperfeito, a vida devagar. Ela conseguiu algo muito difícil na poesia, que é a comunicabilidade e a expressividade. Uma poeta que mistura vida e obra, perfeitamente. Quem tem algum tipo de preconceito desconhece a poesia oral brasileira. As pessoas confundem simplicidade com facilidade. Não dá para pensar a Cora Coralina fora de seu meio, do seu contexto, do vernáculo de suas ruas. Ela quase flerta com o erro de português. Isso é incrível. Cora se torna lendária por sua sabedoria coloquial. Ela não é uma poeta? é uma sábia.

Henrique Rodrigues
A existência de Cora Coralina é uma vitória da poesia sobre o tempo. Se ela tivesse participado da Semana de 22 – o marido a proibiu –, creio que teria entrado para a história da literatura brasileira bem antes. Mas gosto que ela tenha ficado acima de um “ismo”, de forma parecida com o que aconteceu com o Mário Quintana. E, como ele, não se trata de uma pessoa idosa que escreveu versinhos cândidos. Mas uma combinação de clareza e profundidade que só os grandes poetas alcançam.

Marina Colasanti
Eu estive com ela uma única vez, num evento de mulheres nas artes promovido pela revista Nova. Era uma figura enternecedora, cabeça branca, envolta em um xale de lã igualmente branco (fazia frio em São Paulo), miúda no palco enorme e iluminado. O sucesso da sua poesia se deve menos à forma do que à fonte de que emanava, mais ao testemunho do que às palavras, mais à mulher forte e admirável que ela foi do que à poeta.

Wesley Peres
O grande elogio de Drummond foi sobre Cora, e não sobre sua hora. Esperto que era, ele disse que Cora é a pessoa mais importante de Goiás, mais importante do que o governador. Nada ele diz sobre a poesia dela. De fato, Cora Coralina ainda dever ser a pessoa mais importante de Goiás, porém, pela pessoa extraordinária que foi. A personalidade é muito maior do que a obra, o que não é nada bom para um escritor. 

Raimundo Carrero
Trata­se de uma poeta intuitiva, verdadeira mulher que se deixou envolver pelo poema – ou seja, pela poesia escrita. Não suportando apenas a maravilha de ser dona de casa, aceitou aquilo que costumam chamar de inspiração e recorreu às palavras para revelar seu mundo interior, dialogando com a realidade. É, por isso mesmo, uma poeta da casa, revelada pelos motivos das alas, da cama, dos quartos, da cozinha, da família e das pessoas em torno. Tudo isso emerge de sua solidão e da convivência com o silêncio cheio de encanto e de doçura. A sua linguagem vem da inquietação desses ambientes que parece envolver os seus leitores .

Antonio Carlos Secchin
Cora Coralina é exemplo do que a “poesia espontânea”, sem o lastro de outras leituras, consegue produzir. Talentosa, escreveu bons poemas, mas circunscritos, conforme nota de um seu editor, aos “objetos imediatos e caseiros”.

Ramon Nunes Mello
O que me encanta em Cora Coralina é a simplicidade. A cada dia compreendo que a sabedoria (o verdadeiro saber) está intimamente ligado à humildade. Cora preservou a virtude da humildade, caracterizada pela consciência das próprias limitações. E assim, alcançou o estado de graça com sua poesia, para retratar o sentimento do seu povo.

Dirce Waltrick do Amarante
A coisa mais interessante da Cora Coralina que li foi aquele longo poema “épico” sobre o milho, pois tem muitas ressonâncias míticas, remetendo, por exemplo, ao “Popol Vuh”, sem falar que é ecologicamente um marco contra as nossas sementes manipuladas de hoje. (Agência Estado)

Confira o trailer de Cora Coralina ­ Todas as Vidas

Trailer – Todas as Vidas – Cora Coralina from ASACINE Produções on Vimeo.

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por Adriana Marinelli

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