Jales Naves
*Especial para A Redação
Goiânia – Um leitor voraz, criado num lar espírita e entusiasmado pela filosofia comunista, que chegou a ganhar uma bolsa para estudar teatro na Rússia, vontade interceptada pelo pai, José Ferreira, conhecido como ‘Quinha’, que o proibiu de viajar – “Não tenho filho para ser palhaço”, afirmou, na época –, Djalma Ferreira de Azevedo é um autor que não se preocupou em editar as suas obras. Deixou cinco livros, todos inéditos – “Almas gigantes”, “Homem de barro”, “Terra de ninguém”, “O senhor dos diamantes” e “Além das fronteiras”, e duas peças teatrais – “Um anjo dormiu comigo” e “Oito mulheres”, que agora a filha Marila Nogueira Ferreira está lendo, organizando e, possivelmente, vai publicar. Ela gostou muito de “O senhor dos diamantes”, que considerou fantástico, daqueles que a pessoa pega o exemplar, começa a ler e não quer parar até concluir a leitura.
Um dos fundadores da Academia de Letras e Artes de Caldas Novas e titular da Cadeira nº 16, ele não estava bem nos últimos anos, depois de diagnosticado com mal de Alzheimer, que o fez abandonar os livros, de que tanto gostava, e se recolheu ao seu mundo. Faleceu no dia 1º deste mês de março, em Florianópolis, SC, vítima das complicações da covid-19, e sua mulher, Gilda Nogueira Pinto Ferreira – que se formou em Pedagogia, fez especialização e trabalhou na rede pública de ensino de Caldas Novas, com passagem pelo Instituto Educando pela Arte (Projeto IEPA), tendo se aposentado há sete anos – faleceu 14 dias depois, justamente na data de aniversário dele. Eles estavam passando temporada na Capital catarinense e ali foram sepultados.
As peraltices do palhaço
Mineiro de Uberlândia, onde nasceu em berço espírita, em 14.03.1939, filho dos uberabenses Maria de Lourdes Azevedo, do lar, e José Ferreira, contador, e mais velho de duas irmãs, Marta e Sônia, foi criado em Uberaba, passou a infância no Alto Fabrício, fez o ginásio no Colégio Marista e o curso técnico de Contabilidade, concluído em 1957.
Começou o interesse pelos livros aos 11 anos, ganhou várias obras e se destacava como bom aluno, porém indisciplinado. Certo dia, para atender a maioria dos colegas, que tiraram nota baixa em Inglês, ele colocou fogo no diário de classe do Professor, o que motivou a sua expulsão do Colégio Diocesano. Nadador, aos 16 anos foi campeão estadual de natação de Minas Gerais, em Belo Horizonte.
Já moço, nas leituras, mexendo em sua coleção de livros, despertou para o teatro. Em 1965 ganhou bolsa para estudar na Rússia, obtida pelo tio materno, Afrânio Francisco de Azevedo. A família tinha princípios socialistas, mas como era o regime militar no Brasil, o pai achou mais prudente rasgar esse documento. Revoltado, fugiu de casa e foi para o Rio de Janeiro tentar teatro, durante um ano, quando participou de um trabalho político, de pregação do comunismo. Noutro dia, junto com amigos e primos, depois que fecharam o cinema, eles foram lá, depois que as pessoas saíram, e colocaram uma bomba.
Voltou a Uberaba, começou o Curso de Direito, que fez apenas dois anos e deixou, e em 1969 ingressou no Curso de Odontologia na Universidade de Uberaba (UniUbe), que concluiu em 1972, a partir de quando dedicou 35 anos à profissão.
Em 1967 conheceu e se casou com Gilda Nogueira Pinto e eles tiveram cinco filhos – José Ferreira Neto, Mariza, Marila, Marilu e Maria Alzira – e outros “de coração”, muitos, que criaram. Tem cinco netos – Gabriela, Juliana, Guilherme, João Pedro e Cassius – e um bisneto, Ângelo. “Foi um pai bondoso, aberto, caridoso, moderno, além de seu tempo”, afirmou a filha.
Pela profissão, moraram sempre em cidades, e nos passeios ele se revelava um palhaço. Usava terno sem cinto e, às vezes, ao atravessar a rua, balançava a calça no meio da rua, que caía e mostrava a cueca. Ele se deliciava com a cena e o espanto das pessoas.
A família morou em Londrina, PR, Uberlândia, Uberaba, Patos de Minas e João Pinheiro. Em janeiro de 1989 chegou a Caldas Novas, cidade que escolheu “para ficar até morrer”. De 1982 a 86 produziu centenas de poemas, que confiou a uma Professora de Português, não devolvidos até hoje; “estão vagando por aí”, brincou.
Em 1990 Marila estudava no Colégio Anglo, com o professor Álvaro Catelan, quando apresentou seu pai ao mestre, pela afinidade de ideias que tinham e, depois, juntos, fundaram a Academia. Djalma deixou uma biblioteca com mais de quatro mil volumes, entre peças de teatro, poemas, história, livros espíritas e filosofia, além de revistas devidamente encadernadas, em sua casa em Caldas Novas.