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Erudição não redime ignorância política

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25.10.2014 - 14:02:29

Goiânia – Os meus domingos de outubro, ano sim, ano não, em que vou ao Colégio João Clarimundo sempre me provocam certa emoção. Pode parecer piegas, mas mesmo a mim que nasci em plena democracia e que vim ao mundo colhendo os frutos de quem deu a vida – literalmente, ou por dedicação – por um país democrático, dia de eleição é dia de me fazer arrepiar. 
 
Se tem gente que agradece que a partir de domingo voltaremos a ter paz – sem propagandas políticas, sem materiais gráficos aos montes, sem carros de som, sem bafafá nas redes sociais – eu saio com certa nostalgia. Porque, mal ou bem (e, olha, na maioria das vezes mal mesmo) é a hora em que se debate temas adormecidos no tempo dispendido entre acordar, trabalhar, cuidar da vida e dormir. É a hora que a gente tem que tomar posição. E assistimos a todo mundo sair do armário: defendendo legalização de drogas ou redução da maioridade penal. 

Mas o que mais me encanta nesses domingos quentes, de filas e ouvindo tururururu vindo das salas, é a incrível igualdade que, infelizmente, se quebra assim que saímos dos portões daquela escola. Meu voto é igual ao do pedreiro negro na minha frente, do professor da escola pública do bairro, do vizinho médico, do filho do que fez doutorado, da arquiteta, da prostituta. É igual ao do candidato que, mesmo parlamentar há cinco mandatos, ainda está ali na fila com frio na barriga porque quem decide mesmo, no fim das contas os rumos da política, somos todos nós ali.

Vale o mesmo tanto que o do adolescente gay de 16 anos que vota pela primeira vez, da senhorinha de 90 anos que não quer deixar de exercer seu poder de decisão. Tem o mesmo valor do nordestino que vota em Dilma porque acredita nos programas sociais que te tiraram da miséria. Vale o mesmo do paulista que não vota em Dilma porque acha que esses mesmos programas não significam fim da miséria, mas o início da preguiça financiada.

E as razões pelas quais meu santinho é completamente diferente de uns e muito parecido com dos outros podem ser muito parecidas ou muito difusas. O que se sabe é que, no fim das contas, para a maioria, não há ideologia na boca da urna: o povo vota, simplesmente, se o governo está melhorando a vida dele ou não. 

Para o empresário, o mais importante deve ser a tributação de impostos que ele acha que o desfavorece e que bolsa família só forma vagabundo e, por isso, está difícil encontrar funcionário – convicto de que sua proposta de trabalho é incrível. Já ao pedreiro importa que o bolsa família tem ajudado ele e a família em casa a não caírem na miséria e terem o mínimo que garanta que seu filho mais novo consiga estudar e seguir adiante. A ele, que é negro, importa que sem as cotas, jamais teria o filho mais velho formado na universidade. 

À minha vizinha advogada, que nunca foi pobre – nem rica –  incomoda ficar cada vez mais insustentável pagar empregada doméstica e arcar com todos direitos trabalhistas e ter de conviver com aeroportos cheios de gente. Ao filho do vizinho que fez doutorado, importa que ele conseguiu estudar por 10 anos com bolsas de estudo, fazer intercâmbio fora e agora ter muitas universidades para tentar um concurso público. Ao professor da escola do bairro, importa que os seus alunos adolescentes, que ele acompanha a trajetória desde criança em famílias problemáticas, possam ser encarcerados com uma possível redução da maioridade penal.

O médico, que recebe por planos de saúde muitas vezes atrasado, está preocupado com a inflação. A senhora, de 90 anos, acha um absurdo ter de pagar pelo fator previdenciário e vota com quem a favorece. Já o adolescente que é gay e já foi apedrejado andando de mãos dadas com o namorado na rua, importa votar em quem ele acredita que possa apoiar a aprovação da criminalização da homofobia. O dono da mercearia, que não se sente muito beneficiado com o governo, acha mesmo que não pode tolerar corrupção e, desiludido com todos os lados, prefere optar por ninguém.

Por isso, acho interessante entender a relação entre preferência por candidatos e nível de escolaridade, mas acho completamente imbecil relacionar nível de escolaridade à falta de consciência política. Coisa que vem sendo repetida desde que as pesquisas mostram as preferências dos menos estudados.

Primeiramente porque é superestimar demais nosso ensino – e, vejam vocês, não estou falando apenas do público, mas também dos privados, dos que poucos têm acesso. Não é novidade para ninguém que nosso sistema educacional não forma cidadãos. Forma, na melhor hipótese, excelentes trabalhadores para o mercado (sobre isso, já escrevi aqui). Disso segue-se que MBA, mestrado e doutorado não redime ninguém de ignorância política. 

Segue-se, também, que a formação de uma pessoa – cidadã, sobretudo – passa por muitas outras esferas, não se reduzindo ao que ela aprende dos quadros negros e dos livros didáticos. Diz respeito às pessoas com quem convive, às conversas que ela compartilha, às leituras e informações que absorve, aos espaços onde se engaja. Como ela se relaciona com o mundo, com sua comunidade, com seus projetos – e isso é política – diz respeito a muita coisa que vai além da escola. E, aqui, podemos elencar, por exemplo, as artes, a religião, movimentos sociais e, destaco, sobretudo, o direito de se informar. E esse direito, a gente bem sabe, é violado em um país onde a comunicação não reflete a diversidade de seu povo mas, ao contrário, solapa tudo em detrimento dos interesses de quem detêm os meios de comunicação (vários eleitos, inclusive). 

Em 2011 fiz uma reportagem sobre as cotas na UFG (veja aqui) e um núcleo da Faculdade de Educação que estudava como essa política vinha se desenvolvendo, compartilhou de uma conclusão que diz muito sobre nosso ensino. Os alunos que vinham de escolas públicas tinham um engajamento muito maior que os das escolas particulares. Eles eram ativos nos centros acadêmicos, nos diretórios estudantis, participavam das atividades que a universidade oferecia e estavam sempre a frente das movimentações políticas. 


Primeiro porque vinham de experiência de grêmios na escola. Depois porque eles precisavam das políticas de assistência para permanecer na universidade e o jeito era brigar por isso. O que quer dizer que, de certa maneira, a escola pública oferece um tipo de formação que a particular não oferece: o engajamento social e político. Portanto, os alunos dali podem não chegar à universidade por ter péssimos conhecimentos de matemática e um texto terrível, mas não quer dizer que saibam menos sobre seu papel cidadão.

Confio mais na consciência política do pedreiro que mora na esquina de casa e que participa de todas as reuniões da comunidade escolar do que nos meus colegas de ensino fundamental e médio cujos pais pagaram mais de um salário mínimo mensal pela formação escolar e que hoje tem seus MBA’s, mas que adoram arrotar que odeiam política.

Confio mais na faxineira de casa que participa da reunião da associação de moradores do que nos trabalhadores de sucesso que venceram na vida e hoje dedicam todo seu tempo ao trabalho e são incapazes de participar nem da reunião de condomínio do prédio. Que mandam a babá participar da reunião de colégio dos filhos. 


Confio mais em quem sabe exatamente por que vota em X ou Y e como as políticas governamentais funcionam ou deixam de funcionar, do que naqueles que não tem ideia de como funcionam e resolvem tudo com um: político é tudo igual. Vamos jogar uma bomba no Congresso Nacional.

O que ocorre, contudo, é que em um mundo onde o objetivo de vida é ganhar dinheiro (e, para a maioria, fazer faculdade e especializações é o caminho), fica difícil engolir que pobres tenham tanta decisão nos rumos políticos do país: aqueles que não têm nem dinheiro, nem estudos. Fica difícil respeitar esse voto sem acreditar que, dessa vez, dinheiro e estudo não são critérios para se guiar a melhor decisão. E, como diria Kant, erudição não cura estupidez.
 
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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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