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Entrevista com o maestro Eliseu Ferreira – Como tudo começou

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17.02.2021 - 15:30:53
Eliseu Ferreira da Silva (n. 1974) é natural da cidade de Anápolis, Estado de Goiás. Possui o título de Mestre em Regência pela Escola de Música e Artes Cênicas (EMAC) da Universidade Federal de Goiás (UFG). Nessa mesma Instituição, diplomou-se em nível de graduação nos cursos de Educação Artística – Habilitação Música e Bacharelado em Clarineta.

Profissional incansável e de reconhecida competência, Eliseu Ferreira construiu uma sólida carreira no campo da “música de concerto”. De fato, Eliseu tornou-se um dos mais importantes nomes da história da música orquestral do Estado de Goiás. 
 

Segue, abaixo, parte do bate-papo realizado com Eliseu Ferreira, via aplicativo Zoom. 
 
Othaniel Alcântara: Quando e como ocorreu o seu o interesse pela música? 
 
Eliseu Ferreira: Sempre me interessei por música instrumental. Meus pais eram evangélicos. Comecei a estudar com oito ou nove anos na Igreja Assembleia de Deus, em Anápolis. Meu primeiro instrumento foi a requinta, mas também estudei um pouco de trombone. Embora não soubesse ler música, eu tinha um bom ouvido. Assim, quando falavam o nome de um determinado hino eu conseguia tocar. Depois, surgiu a chance de estudar na Banda Juvenil de Anápolis. Era um projeto que funcionava no Parque da Criança (Parque da Matinha). Um dia, eu estava por lá e um rapaz me disse que tinha aberto algumas vagas para estudar música ali por perto. Então, fui olhar.
 
Othaniel: E quando você fez a opção pela clarineta?
 
Eliseu: Foi na Banda Juvenil de Anápolis. Como qualquer criança, eu não tinha muita noção, e quando perguntado pelo maestro Wando Resende [Wanduílio] respondi que queria estudar saxofone. Então ele disse que não tinha mais vagas para sax, mas que eu poderia começar na clarineta. Disse, ainda, que seria possível usar o conhecimento adquirido na clarineta quando eu viesse a conseguir a vaga no saxofone. Ainda bem que não tinha saxofone. Eu brinco bastante com isso. Digo sempre que isso foi providencial, porque foi a clarineta que me direcionou pra esse lado da música de concerto.
 
Othaniel: Como foi o seu desenvolvimento nos primeiros anos de estudo da clarineta? 
 
Eliseu: Logo quando comecei, o maestro Wando Resende percebeu que eu tinha talento. Imagina, logo me colocou pra dar aulas. Naquela época, eu tinha doze ou treze anos. O Andreyw [Andreyw Antônio Batista, também regente] que foi meu colega, ainda tem uma prova [exame] que nós fizemos lá [na Banda Juvenil de Anápolis]. Deram uma prova de 90 questões. Imagina, o livro da Maria Luiza de Mattos Priolli inteiro. Essa era a minha referência na época. Eu tinha aula com os militares na Igreja, que era o pessoal da Base Aérea de Anápolis. 


 

Clarinetista Eliseu Ferreira  – Ano: 1990
Banda Juvenil de Anápolis
Praça da Prefeitura – Anápolis/Goiás
Foto: Arquivo Pessoal de Eliseu Ferreira

Othaniel: Você fez toda a sua formação musical em Anápolis, antes de ingressar na UFG?
 

Eliseu: O Wando Resende (maestro da banda) era trompetista e sempre me colocava pra tocar junto com ele etc. Ele sempre me dizia: “Olha, você tem que ter aula em Brasília! ”. E logo ele me levou para ter aulas no Festival de Verão de Brasília, com o José Botelho. Isso foi no final da década de 1980 e início da década de 1990. Depois, passei a ter aulas de clarineta em Brasília com o Fernando [Fernando Henrique Machado] na Escola de Música [EMB]. 
 

 


Clarinetista Eliseu Ferreira  – Ano: 1990

Banda Juvenil de Anápolis

Teatro Municipal de Anápolis (Goiás)

Foto: Arquivo Pessoal de Eliseu Ferreira

Othaniel: Em Goiânia, quem foram seus professores de clarineta? 
 

Eliseu: No começo eu tive aulas com o José Nogueira. Depois com o José Alessandro.
 
Othaniel: Como foi sua passagem, como aluno, pela EMAC/UFG?
 
Eliseu: Ingressei na UFG em 1992. Fiz o Curso de Educação Artística – Habilitação em Música, porque naquele tempo não tinha o Bacharelado em Instrumento/Clarineta. Então, paralelamente, fiz a disciplina de “Clarineta” na UnB [Universidade de Brasília] com o Gonzaguinha [Luiz Gonzaga Carneiro]. 
 
Quando terminei o Curso de Educação Artística [UFG], entrei no então recém-criado Curso de Bacharelado em Clarineta da instituição goiana. Nesse caso, aproveitando na Escola de Música e Artes Cênicas os dois anos que eu havia estudado na UnB como aluno especial. Assim, terminei esse curso em dois anos [em 1997]. A partir de então, trabalhei como professor no Centro Cultural Gustav Ritter e no IFG (antigo CEFET).
 
Othaniel: Você fez o Curso de Canto também, não foi?
 
Eliseu: Fiz uma boa parte do Curso de Canto na EMAC/UFG, com o professor Faustini [Zuinglio Faustini, 1938-1999]. Mas, quando começou o quarto ano resolvi parar. Ou seja, não colei grau. Importante dizer que depois que ele faleceu estudei com o professor Ângelo de Oliveira Dias. Mais tarde, fiz o Curso de Mestrado com o professor Ângelo de Oliveira Dias, na área de Performance em Regência. 
 
Othaniel: Quando você começou a fazer o Mestrado? 
 
Eliseu: Eu defendi em 2008. Então, foi em 2006. Isto é uma das coisas de que me arrependo: De terminar a Graduação e não ter entrado logo no Mestrado. Levei um tempão pra poder fazer o Mestrado. E o Doutorado, então? Já se passaram doze anos e agora que meu deu um “Ah”…
 
Othaniel: Você atuou como clarinetista em qual ou quais orquestras em Goiânia? 
 
Eliseu: Oficialmente, na Orquestra Filarmônica de Goiás [OFG], em 1993. Na época, o maestro era o Emilio De Cesar e, depois, o Sérgio Kuhlmann.
 
Othaniel: Foi mais ou menos nessa época que você começou a reger, não foi? 
 
Eliseu: O maestro Sérgio Kuhlmann assumiu a direção da OFG em substituição ao maestro Emilio De Cesar, que havia pedido demissão. Logo em seguida, o Sérgio Kuhlmann me convidou para ser seu assistente. Depois regi – como convidado – na Sinfônica de Goiânia, alguns concertos na época do Joaquim Jayme. 

Quando a Orquestra Filarmônica foi transformada na Orquestra de Câmara Goyazes, no começo de 1999, passei a ser o Regente Titular e Diretor Artístico daquele grupo. Daí, então, eu praticamente abandonei a clarineta.

 



Maestro Eliseu Ferreira

Orquestra Sinfônica de Goiânia

Teatro SESI (2019)

Foto de Rafaela Pessoa
 

Othaniel: Em janeiro de 1999, começava o primeiro mandato de Marconi Perillo como Governador de Goiás. Naquela época, quem era ou quem eram os responsáveis pela pasta da Cultura?
 

Eliseu: O presidente da AGEPEL [Agência Goiana de Cultura Pedro Ludovico Teixeira] era o Chaul [Nasr Nagib Fayad Chaul]. E o Diretor de Ação Cultural da AGEPEL era o Zé Eduardo [José Eduardo Siqueira de Morais].
 
Othaniel: Mas você já havia estudado regência? Já possuía experiência nesse ofício?
 
Eliseu: Comecei a reger devido à necessidade da área musical daquela época. O pessoal foi me colocando na “fogueira”. Primeiro, regi corais e bandas. Na verdade, eu não tive uma formação acadêmica em regência. Aprendi muito na prática, na raça! No campo da música sinfônica, como não tinha praticamente ninguém em Goiânia para fazer esse trabalho, fui aprender fazendo. Assim, acabei utilizando a Orquestra de alunos do Centro Cultural Gustav Ritter e mesmo a Orquestra de Câmara Goyazes como laboratório. Mais tarde, como já disse, fiz o Mestrado na área de Performance em Regência.
 
* Entrevista realizada em 2020, via aplicativo Zoom.
 
 
Na sequência, um pouco mais sobre a carreira de Eliseu Ferreira:
 
Eliseu Ferreira foi Regente Titular e Diretor Artístico da Orquestra Goyazes e da “Nova” Orquestra Filarmônica de Goiás. Também foi regente dos seguintes grupos: Orquestra Jovem de Goiás, Orquestra Planalto Central, Orquestra de Câmara de Goiânia, Camerata Vocal de Goiânia, Banda Sinfônica do CEFET-GO e Orquestra Sinfônica de Goiânia.

Além disso, é digno de nota em sua biografia, a execução de projetos que visam democratizar o acesso à formação musical. Neste seguimento, destacam-se as orquestras formadas com estudantes de música do Centro de Educacional Profissional em Artes (CEP) Basileu França, em Goiânia. Entre elas, encontra-se aquela conhecida pela alcunha de Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás.

Durante 15 anos foi Regente Titular e Diretor Artístico da Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás, com a qual realizou um intenso trabalho didático e artístico, realizando séries de concertos na capital e em todo o Estado de Goiás, além de turnês em outros Estados Brasileiros e também turnês na Espanha, Alemanha e Venezuela. Entre dezembro de 2016 e janeiro de 2017 realizou uma turnê de 08 concertos com a OSJG na China (sendo a primeira orquestra sinfônica brasileira a se apresentar naquele país), tocando em salas importantes em cidades como Nanjing, Hangzhou, Ningbo, Huzhou, dentre outras.
 

Eliseu Ferreira também foi o fundador e Diretor Executivo/Artístico do Instituto Sinfonia do Amanhã, na cidade de Cachoeira Dourada (GO). Por meio dessa Entidade, foi criado, em 2013, o Projeto Sinfonia do Amanhã, o qual é executado pela Associação dos Amigos da Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás. Nesse Projeto são oferecidas aulas de instrumentos musicais e canto coral para jovens de até 18 anos de idade. Trata-se de um projeto que busca, antes de mais nada, desenvolver elementos de cidadania por meio da prática musical. Os alunos desse Projeto realizaram concertos em Goiânia, Brasília, Niterói, Petrópolis e em Roma, na Itália. 

Foi Diretor do Instituto Tecnológico do Estado de Goiás em Artes Basileu França entre 2014 e 2017.

Atualmente, Eliseu Ferreira ocupa os postos de Regente Titular da Orquestra Sinfônica de Goiânia e de Diretor Geral da Rede de Orquestras Jovens de Goiás.
 

 
 
Maestro Eliseu Ferreira (n. 1974)
Orquestra Sinfônica de Goiânia
Teatro SESI (2019)
Solista (violino): Cármelo de los Santos (n. 1977)
Foto de Rafaela Pessoa
 
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por Othaniel Alcântara

*Othaniel Alcântara é professor de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador integrado ao CESEM (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical), vinculado à Universidade Nova de Lisboa. [email protected]

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