Samuel Straioto
Goiânia – O Dia das Mães costuma ser marcado por flores, abraços e mensagens de gratidão. Mas, por trás das comemorações, existe uma história pouco contada: a da mulher que, diante do filho recém-nascido, experimenta a alegria imensa da maternidade enquanto silencia uma pergunta íntima: onde ficam meus outros sonhos? Para muitas, projetos são adiados ou interrompidos para dar lugar a uma nova e bonita prioridade. No Brasil, essa realidade se conecta a um dado expressivo: 10,3 milhões de jovens entre 15 e 29 anos estavam sem estudar e sem trabalhar em 2023, ano da divulgação do levantamento mais recente da Síntese de Indicadores Sociais do IBGE.
Entre as mulheres que ficam fora dessa equação, o cuidado com os filhos e a falta de uma rede de apoio surgem como razões centrais. Geovanna Madureira, 29 anos, e Elieth Francisco Ferreira, 57, conhecem essa realidade de perto. Ainda assim, decidiram que essa condição não seria definitiva. Reorganizaram a rotina para conseguir guiar todos os sonhos, sem deixar nada pendente, mesmo que isso levasse mais tempo, e hoje estão no 10º período do curso de Direito, a um passo da formatura em 2026. Colegas de turma, trajetórias distintas e a mesma persistência: a de nunca deixar o sonho da formação profissional morrer.

Quietinho, mas vivo
Elieth cresceu vendo o pai debruçado sobre os livros. Naquela época não havia computador, tudo era datilografado, folha por folha, letra por letra. O pai advogado era mais do que uma profissão. Era uma imagem que ela carregava dentro de si como uma promessa.
“Aquilo sempre me inspirou. Eu sempre fui muito unida com o meu pai e sempre tive aquele sonho”, conta. Depois vieram o casamento, o trabalho na panificadora que abria às seis da manhã e fechava às nove da noite, a casa, as filhas. O sonho foi ficando quietinho dentro dela. “Eu não reclamava, mas eu sempre pensava: um dia eu vou concluir o meu curso de Direito.”
Já para Geovanna, a pausa veio do corpo que pedia cuidado. Grávida, as escadas do bloco 3 da faculdade foram se tornando intransponíveis. O elevador vivia com problema, a cadeira era desconfortável, o cansaço era real. “Foi uma escolha, mas atrelada à necessidade do momento”, diz. E havia algo maior ainda que a fez pausar sem culpa: a amamentação.
“Para mim era algo muito importante. Como eu tive a oportunidade de amamentar, graças a Deus, não queria interromper aquilo por conta das atividades externas.” Depois vieram o pós-parto, os primeiros meses de vida do filho, as demandas que só quem viveu sabe dimensionar. “Foi um sentimento de angústia misturado com uma felicidade, porque eu estava vivendo algo muito mágico e muito especial, que é a maternidade.” O sonho profissional poderia esperar. Aquele momento, não.

O amor que fala mais alto
Quando o divórcio chegou, Elieth tinha 36 anos, quase 37. As filhas, Bruna, de sete anos e meio, e Nathália, de dez, acompanharam tudo. “Eu olhei para elas e falei: não vou deixar faltar nada para vocês.” Não foi uma decisão racional, calculada. Foi visceral. “O amor de uma mãe fala mais alto do que qualquer situação, do que qualquer sentimento. É muito abrangente. De repente, eu deixei de pensar em mim.”
Acordava às cinco e meia da manhã. Às vezes ia trabalhar chorando, deixando as meninas, porque não havia tempo para um café da manhã mais calmo, para um despertar mais carinhoso. “A minha rotina era muito puxada. O nosso tempo juntinhas era restrito.” Mas em nenhum momento parou para se lamentar. “Nem um momento eu fiquei me perguntando por que não fui estudar. Eu estava olhando as meninas. Isso é algo muito espontâneo, muito natural para quem é mãe.”
Entrega
Geovanna vivia a mesma entrega, em versão diferente. Depois de retornar ao trabalho e, logo em seguida, à faculdade, o coração apertava toda vez que saía de casa. “Eu ia com o coração muito apertado porque eu sabia que ele dependia de mim, que ele precisava de mim.” O filho Davi ficava com a mãe de Geovanna, a irmã e o marido, uma rede tecida com amor e presença constante. “Meu esposo sempre foi um grande companheiro, um pai excelente. Minha mãe sempre esteve presente desde o primeiro momento da gestação.”
Quando dizia que não iria à faculdade porque queria ficar com o filho, a família inteira a encorajava a ir em busca de conhecimento. “Minha mãe, minha irmã, todo mundo falava: vai, pode ir tranquila, ele vai ficar bem cuidado. Esse apoio me impulsionou a não desistir e sempre permanecer com muita paz no coração.”

A brecha que a vida abre
Para Elieth, o reencontro com o sonho de fazer o curso superior foi chegando devagar, junto com pessoas boas que foram entrando na vida dela. Uma comadre, uma madrinha, uma rede que foi se tecendo. “A vida vai te trazendo os espaços, vai te proporcionando aquelas brechas.” Mas ela tinha uma condição interna, uma bússola que a guiava. “Eu não posso voltar para a sala de aula enquanto eu não tiver certeza de que as minhas filhas estão encaminhadas. O meu maior medo era partir dessa vida e deixá-las sem uma formação, sem uma direção.” Quando esse medo foi se dissipando, quando as filhas foram crescendo e mostrando seu caminho, ela soube que era hora. “As minhas meninas sempre foram muito presentes comigo, sempre estiveram muito juntas comigo, sempre me deram força.”
Para Geovanna, o sinal veio quando o filho completou dois anos. A primeira fase havia passado. E ela sentiu, com clareza, que podia voltar. “Esse sonho nunca morreu dentro de mim. O que aconteceu foi que eu só dei uma pausa mesmo, que eu entendi que era necessária naquele momento.” E havia também uma urgência nova, não de angústia, mas de propósito.
“Quando eu voltei a estudar, já não voltei só por mim. Aquele ser tão pequenininho já me mostrava o quanto era dependente de mim. O desejo de dar um futuro melhor para ele existia muito forte dentro de mim.” Havia ainda outra razão honesta: “Eu não queria demorar muito para me formar, para poder conquistar o meu sonho de ter o meu diploma.”

A reta final
Hoje Elieth e Geovanna dividem a mesma turma, o mesmo semestre, a mesma expectativa de cruzar uma linha de chegada que cada uma traçou há muitos anos. As filhas de Elieth acompanham a mãe nessa reta final. A Bruna e a Nathália, que um dia ficaram no mesmo lote enquanto a mãe abria a padaria de madrugada, hoje veem essa mesma mulher prestes a se tornar advogada.
Geovanna fala com a serenidade de quem aprendeu a se conhecer no caminho. “Toda essa mudança me faz ser uma mãe firme, posicionada, que sabe o que quer para o filho, que é muito presente emocionalmente na vida dele.”
A maternidade não a diminuiu, a formou. “Eu busco ler muito, pesquisar muito, entender o mundo da criança para ser muito positiva na vida dele. Sei o que realmente quero para o meu filho, o futuro que desejo para ele e o que preciso construir.” E quando aparecem opiniões sobre suas escolhas na maternidade, ela filtra com leveza. “Consigo separar o que realmente quer somar daquilo que é só um pitaco.”
Para quem ainda está esperando
Se há algo que Elieth e Geovanna gostariam que outras mães soubessem, é que um sonho não precisa morrer para que o filho viva. Ele pode esperar. Ele pode ficar quietinho dentro de você por anos. E quando a hora chegar, e ela chega, ele vai estar lá, inteiro, esperando ser retomado.
“Nunca desisti da minha vontade de fazer uma faculdade”, diz Elieth. Nem nos dias em que foi trabalhar chorando. Nem nas noites em que o tempo com as filhas era curto demais. Geovanna resume com a certeza de quem já viveu o que está dizendo: “Esse sonho nunca morreu dentro de mim. Eu só dei uma pausa.” Uma pausa. Não um fim. E essa distinção, para quem é mãe e sonha, muda tudo.
