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Entenda as mensagens do clipe de ‘This is America’, de Childish Gambino

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11.05.2018 - 12:27:40

Yuri Lopes

Goiânia – Lançados no último sábado (5/5), a música e o clipe de This is America, de Childish Gambino, alter ego musical do compositor, produtor, ator e humorista Donald Glover, se tornou o mais potente grito sobre a violência e a virulência da polícia contra negros desde que Beyoncé lançou Formation, em fevereiro de 2016.    

Mais chocante do que o vídeo de Beyoncé, This is America também também condensa em pouco mais de quatro minutos uma série de referências à discriminação racial, da cultura negra e de pitadas de episódios que ilustram a diferença no tratamento da polícia a indivíduos negros que foram mortos sem oferecer nenhuma situação de risco real para o policial ou para qualquer outra pessoa no local da abordagem.  

“Isso é a América. Não seja pego escorregando. Não seja pego escorregando. Olhe para o que eu estou agitando”, diz um trecho da música.  

A coreografia aqui tem poder de personagem forte, não apenas um efeito visual gratuito. Cada detalhe, personagem em cena, objeto e a forma como esse objeto é manuseado passa uma mensagem que muitas vezes passa sem ser percebida, principalmente para quem não vive o contexto histórico e cultural dos Estados Unidos (às vezes semelhante ao do Brasil).  

O vídeo, seu sucesso (mais de 70 milhões de visualizações) e o poder de gerar debate sobre violência contra negros, polícia e porte de armas tem feito do clipe um fenômeno cultural, dentro e fora dos Estados Unidos.  
 

"This Is America não é apenas uma crítica cega e sem qualquer consciência de si da música pop. Tanto a música quanto seu clipe têm um tom muito mais afirmativo do que negativo: Glover está se colocando ao centro da cultura, da violência, da negritude. Está se afirmando como participante ativo daquilo que o cerca, e deixando claro que, como artista, pode fazer o que quiser.”, escreve Amanda Cavalcanti em texto publicado no site da Vice.  

Para tentar entender e, em seguida, explicar para vocês, eu li uma série de matérias, assisti vídeos sobre as mensagens e a repercussão do material, que foi dirigido  por Hiro Murai, que já dirigiu clipes de Queens of the Stone Age, Chet Faker, Massive Attack, entre outros. A parceria com Childish Gambino vem desde que dirigiu o vídeo de 3005, seguido de Sweatpants, Telegraph Ave, Sober (veja abaixo) e This is America.

Os dois também trabalharam juntos na direção do seriado Atlanta (disponível na Netflix), criado, estrelado e escrito por Donald Glover.  

Veja abaixo uma série de explicações sobre as várias camadas de mensagens deixadas por Childish Gambino em This is America:

Racismo

Em determinado momento do clipe, Childish arregala o olho direito, fazendo alusão ao personagem Tio Rucks, vilão da HQ The Boondocks, que é um negro que pensa ser branco e que tem várias falas racistas.  

Negro como entretenimento

Quando se posiciona para atirar no homem encapuzado, ainda no início do vídeo, Childish imita a famosa pose do personagem Jim Crow (figura abaixo), criado pelo ator branco Thomas Darthmouth, que foi o responsável por interpretar um escravo negro com todos os estereótipos relacionados à comunidade negra, como a música e a dança.

É de Darthmouth a criação do blackface, prática de pintar o rosto de preto para representar negros. Jim Crow passou a representar uma forma pejorativa ao se referir a um cidadão afro-americano e deu nome ao conjunto de leis que reforçaram o preconceito contra negros e garantiu legalidade à segregação racial nos Estados Unidos até 1964, quando foi assinada a Lei dos Direitos Civis.  

Massacre na igreja de Charleston  

O coral que aparece no clipe cantando e em seguida é metralhado é uma clara alusão ao massacre de Charleston, quando o jovem branco Dylann Roof matou nove pessoas em uma igreja afro-americana, em junho de 2015.  

Richard Pryor

Quando Childish pisca para a câmera durante a coreografia com uma revolta policial ao fundo é uma referência a Richard Pryor (foto abaixo), que abordou o racismo e a violência contra negros em seus textos humorísticos.  

 

Polícia mata Stephon Clark  

Quando o vídeo mostra adolescentes com celulares gravando um enfrentamento entre manifestantes e a polícia, a letra diz “Isso é um celular. Esta é uma ferramenta”, como forma de citar o episódio onde Stephon Clark foi morto pela polícia, com sete tiros, quando a polícia procurava por um. Suspeito de quebrar vidros de carros. Stephon estava no quintal de sua casa, falando ao celular, que foi confundido pela polícia por uma arma.  

O cavaleiro do Apocalipse    

Já na parte final do clipe, aparece um homem com o rosto coberto com um lenço e montado em um cavalo branco. A figura representa a citação bíblica no Novo Testamento, sobre um cavalo branco de um dos quatro cavaleiros do Apocalipse, que simboliza a morte e a vitória pelo confronto violento.  

Carinho com as armas

Todas as vezes que armas são usadas no clipe, logo após os disparos, as tanto o revólver quanto a pistola são guardados com cuidado, enquanto os corpos são arrastados ou ignorados.  

Calça dos confederados

A calça usada por Childish no vídeo pode ser uma referência ao traje usado pelos membros da Confederação, grupo de moradores de seis estados que não queriam a abolição da escravatura e, por isso, lutavam para conseguir a independência do restante dos Estados Unidos. 

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por Yuri Lopes

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