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Jordan Peterson, psicólogo e escritor canadense (Foto: Divulgação).

Engolido pela própria sombra

O que a trajetória de Jordan Peterson nos ensina sobre os desafios de pensar com complexidade em um mundo de simplificações extremas

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31.03.2026 - 09:00:57

Mesmo acostumado à estridência dos debates atuais, fiquei assustado, nas semanas que passaram, com a violência da polêmica em torno da polilaminina. As críticas muito rapidamente saltaram de questionamentos científicos e intelectuais legítimos a ataques pessoais e morais dirigidos à pesquisadora Tatiana Sampaio — sem contar todos aqueles que, disfarçados sob o manto da crítica de método, desejavam apenas se promover em meio à controvérsia.  Na trincheira oposta, questionamentos científicos razoáveis também passaram a ser também tomados como ofensas pessoais ou como fruto de misoginia.

Imagino que Tatiana não esperasse reações tão desproporcionais ao anúncio da nova etapa de testes da substância — muito menos sua virulência –, e claramente não se preparara para isso. Não deve estar sendo fácil manter o equilíbrio crítico e a estabilidade emocional necessários para o trabalho. A esfera pública conflagrada do tempo em que vivemos cobra um preço alto de quem a adentra com a expectativa de um debate racional focado unicamente na crítica aberta de ideias.  Essa é uma ideia cara aos cientistas que, por vezes, torna-os ingênuos e suscetíveis.

Guardada a distância entre os perfis e campos de conhecimento distintos, o furacão que engoliu Tatiana me fez pensar no psicólogo canadense Jordan Peterson. Ícone da direita cultural reacionária e conhecido hoje como um ideólogo crítico do progressismo identitário, Peterson já foi uma figura bastante diferente há não tanto tempo assim. 

De raízes junguianas, destacou-se intelectualmente como um pensador da complexidade em torno de um existencialismo moral que valorizava o desafio da busca de sentido e sua conexão com o sofrimento e a responsabilidade individuais. Era uma figura interessante, politicamente próxima de um liberalismo clássico e com firme compromisso com o debate público e a crítica aberta, o que o levou a discussões ricas com figuras como as do neurocientista Sam Harris e do filósofo Slavoj Žižek. Capturado, entretanto, pelas guerras culturais de nosso tempo, não resistiu à violência dos embates. Enfrentou problemas sérios de saúde mental, que o levaram ao vício em benzodiazepínicos, e se converteu em um empreendedor moral — a complexidade de seu pensamento substituída pela luta do bem contra o mal, e o compromisso com a crítica independente e a razão abandonados em favor de uma escolha clara no espectro ideológico.

Depois de Aquiles, Ajax, o Grande, foi o maior guerreiro grego, de incontestáveis força, coragem e lealdade. Quando Aquiles morreu, suas armas divinas precisavam ser atribuídas ao guerreiro mais digno, e Ajax supôs que seriam suas por direito. O conselho grego, porém, decidiu concedê-las a Odisseu, homem da astúcia, da retórica e da manipulação, tudo o que Ajax mais desprezava. Para ele, não foi apenas uma derrota, mas uma inversão moral do mundo, uma declaração de que as virtudes pelas quais vivera não valiam o que acreditava. Enlouquecido pela humilhação e pela raiva, atacou um rebanho de ovelhas e bois imaginando que massacrava seus inimigos. Quando recobrou a consciência e viu o que fizera, suicidou-se. 

A tragédia de Ajax não é a de quem perde uma batalha, mas sim a de quem descobre que há uma fratura quase intransponível entre a imagem que faz do mundo e o mundo real, e não resiste a essa descoberta. É a tragédia de um colapso sob pressão simbólica — como a de Peterson.

Um dos primeiros momentos de grande exposição pública de Peterson aconteceu durante o debate da chamada “Bill C-16″, projeto de lei aprovado no Canadá, em 2017, que adicionou identidade e expressão de gênero à lista de categorias protegidas pelo Código de Direitos Humanos e pelo Código Criminal do país — basicamente estendendo às pessoas trans as mesmas proteções legais já existentes contra a discriminação e o discurso de ódio.

Peterson entrou na controvérsia em 2016, antes da aprovação, com uma série de vídeos no YouTube em que se recusava publicamente a usar pronomes neutros de gênero, alegando que uma lei que obrigasse cidadãos a usar determinada linguagem constituía coerção estatal inaceitável, uma violação da liberdade de expressão sem precedente no direito ocidental. Seu argumento central não era de hostilidade a pessoas trans, mas o de um princípio liberal clássico: o Estado não pode obrigar cidadãos a adotarem uma linguagem específica sob ameaça legal.

Nesse momento, ele ainda operava dentro de um registro intelectualmente reconhecível, fazendo um argumento que liberais clássicos, como Isaiah Berlin, poderiam ter endossado. Mas o ecossistema em torno da polêmica — e não a polêmica em si — começou a cobrar seu preço e a transformá-lo.

A queda no abismo aconteceu de fato com o lançamento de 12 Regras para a Vida, seu livro de autoajuda filosófica, publicado em 2018, que acabou adotado pela direita cultural como uma espécie de manual. É daquelas obras quase impossíveis de se mencionar sem que automaticamente você seja enquadrado, se o elogiar, como de direita — se for de esquerda, é obrigado a ridicularizá-lo e condená-lo. E, no entanto, o livro está longe de ser essa caricatura, de uma espécie de cartilha do cidadão de direita, pela qual é tomado por ambos os lados — é ainda o Peterson genuíno, pensador honesto, e não o guerreiro do ressentimento conservador. 

Embora possa ser lido como conservador, por sua ênfase na ordem, na hierarquia e no papel do indivíduo, o argumento de fundo de 12 Regras para a Vida é o da inevitabilidade do sofrimento, e o de que a resposta a ele não reside na busca pela felicidade ou pela justiça social, mas em assumir responsabilidade individual. É Jung, é Dostoievski, é Shakespeare. Não é performance (ainda) para uma audiência de direita.

O problema é que muitas dessas ideias carregavam afinidades fortes demais com o ecossistema reacionário que crescia ao mesmo tempo. 

A direita leu o livro como confirmação de uma visão de mundo que já tinha: hierarquias são naturais e legítimas, o sofrimento é consequência de fraqueza ou irresponsabilidade individual, identidades coletivas são armadilhas, e a agenda progressista, uma recusa covarde da realidade. Peterson deu a isso ares de autoridade científica e profundidade filosófica, ajudando a  transformar ressentimentos em ideias articuladas. 

Mas a direita reacionária lê no livro apenas o lado do argumento que confirma sua visão de mundo. O Peterson desse momento ainda é profundamente contrário a um individualismo raso. Ele não diz “faça o que quiser”, mas sim “carregue o peso máximo que você é capaz de suportar” — é uma ética da responsabilidade quase esmagadora, mais próxima de um existencialismo trágico do que de qualquer libertarianismo de direita. Segundo, ele leva sofrimento a sério como condição ontológica, não como punição para perdedores — há uma compaixão genuína no livro que seus leitores de direita em geral ignoram. Terceiro, e mais importante, Jung é um pensador que exige a integração da sombra — o reconhecimento de que o mal, a crueldade, o potencial destrutivo estão dentro de cada um de nós, não apenas nos inimigos. É o oposto da mentalidade de guerra cultural que projeta tudo no adversário. O Peterson clínico e junguiano dessa época é alguém que diria, de forma ironicamente cristã, aos seus próprios seguidores: olhem para dentro antes de apontar para fora.

Mas esse é um Peterson que ele mesmo progressivamente abandonou porque  a audiência que o consagrou não queria esse Peterson complexo — desejava o Peterson que confirmava aquilo em que já acreditava. 

Num momento de fragilidade pessoal extrema, onde se somaram os ataques pessoais à quase morte de sua esposa, ele foi transformado por um ecossistema e pelos algoritmos que recompensam certeza moral e identidade situada. O paradoxo é cruel: o pensador que falava sobre integrar a sombra acabou engolido pela sua. Como Ajax, o guerreiro que assumia a responsabilidade de pesadas escolhas, Peterson também tomou ovelhas por inimigas e passou a culpar o mundo por sua desgraça.

Como mostra a virulência dos ataques a Tatiana Sampaio — que, importa repetir, se distinguem das críticas duras relacionadas a problemas de método e rigor, legítimas e adequadas —, não é possível se colocar de forma ingenuamente aberta em uma esfera pública que já não aceita ambivalências, dúvidas ou ideias em processo de construção. O risco de se deixar arrastar pelas forças da polarização ou de se moldar pelo moedor dos algoritmos é imenso. A trajetória trágica de Jordan Peterson ilustra de forma lapidar o colapso de valores fundamentais em torno da importância da independência crítica e da razão em nosso mundo e sobre o lugar do intelectual público e do cientista.  É desafiador manter a serenidade e tentar sustentar um pensamento da complexidade e de perguntas em um mundo que exige respostas certas, posicionamentos claros e definitivos e valoriza uma moralidade rasa que organiza o mundo entre amigos e inimigos.

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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG. / [email protected]

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