Samuel Straioto
Goiânia – No Brasil, 73% das empreendedoras são mães. Mais de 68% delas afirmam que os filhos vieram antes de abrirem o próprio negócio, o que, segundo especialistas, revela a resistência do mercado de trabalho em aceitar mães como profissionais. Para muitas, o empreendedorismo não foi uma escolha romântica. Foi o caminho que restou. Em 2025, mais de 2 milhões de pequenos negócios liderados por mulheres foram criados no Brasil, um recorde histórico, segundo o Sebrae. Por trás de cada CNPJ, há uma história. Às vezes, há também um bebê no colo durante a reunião.
Florence Eva e Rafaella Stival conhecem esse cotidiano de perto. Uma tem uma escola de música, ensina canto e voltou às aulas com o filho Heitor, nascido em janeiro, ainda nos braços. A outra tem 22 anos, uma filha de um ano e sete meses, cursa a faculdade e toca uma loja on-line de acessórios de prata há um ano. Histórias diferentes, uma mesma descoberta: ser mãe e empreendedora ao mesmo tempo é, acima de tudo, aprender a se desdobrar sem se perder.

Renúncia
Florence tinha mais de 30 alunos quando o Heitor chegou. Quando voltou a dar aulas, em março, o filho tinha dois meses. A escola encolheu, de propósito. “Me adaptei a sete, oito alunos. Redução de horário e tudo mais para poder me adaptar a essa nova vida”, conta. Não foi fácil. E ela é direta sobre o preço dessa escolha: “Tem coisas que eu estou vendo agora, que por mais que eu tenha voltado a trabalhar com ele com dois meses, muita coisa passou despercebido quanto ao desenvolvimento dele.”
Rafaella também conhece o peso das decisões que tomou. Aos 22 anos, universitária, mãe e empreendedora, ela diz sem rodeios que o empreendedorismo nasceu da necessidade. “Eu precisava trabalhar, mas não tinha condições de trabalhar fora porque eu tinha faculdade no período e tinha minha bebê, e eu não queria abdicar do tempo que eu teria com ela, principalmente porque ela era muito pequenininha.” A loja de acessórios de prata 925 surgiu daí, não de um plano de negócios, mas de uma conta a fechar no final do mês.

O bebê no colo durante a aula
Florence reorganizou a rotina para que o Heitor estivesse sempre por perto. Uma aula de manhã. Uma aula à tarde. On-line, sempre que possível. “Tem vezes que eu tenho que dar aula com ele nos braços. Aí ele chora, né.” Os alunos, ela conta com gratidão, entenderam. “Eu tive uma conversa com todos eles e o retorno que tive foi incrível. Às vezes eu tenho que levantar para acalmá-lo no meio da aula. Eles têm me ajudado muito nisso.” Voltou, ela diz, sem se sobrecarregar. Com limites traçados de forma consciente. “Me organizei para que eu pudesse atender os meus alunos, mas que eu tivesse o meu momento de intimidade com o meu filho.”

Rafaella enfrenta um desafio diferente: o da mulher que trabalha sozinha em todas as frentes. “No momento eu trabalho sozinha na minha loja, então eu tenho que exercer todas as funções.” Compra, venda, estoque, redes sociais, atendimento ao cliente. “A internet nos tenta fazer acreditar que as pessoas estouram de um dia para o outro, mas antes disso, há muito trabalho ali por trás.” E há ainda a pressão silenciosa de quem está se formando em comunicação e sabe exatamente o que deveria estar fazendo. “As pessoas me cobram, não diretamente, mas eu sei que elas me cobram e eu também me cobro.”
A culpa que visita
Florence não esconde que o arrependimento bate. E que volta. “Se eu falar que não bateu, eu vou estar mentindo. Tem hora que eu falo: para que eu estou trabalhando se eu posso ficar com ele o dia todo?” E logo em seguida, a resposta que a faz continuar: “Mas eu tenho que dar o melhor para ele. Preciso ter uma base financeira para poder oferecer isso ao meu filho.” É uma tensão que ela não resolve — convive. “O tempo todo eu sempre pensando no melhor para ele. Às vezes já bateu arrependimento e às vezes ainda bate. Mas aí eu sempre penso no futuro dele.”
Rafaella também já pensou em desistir. Várias vezes. “Meu sonho é ter carteira assinada às vezes, sabia? Ganhar um décimo terceiro, ter vale-alimentação, ter direitos. Porque nada me resguarda.” Ela está gripada no dia em que responde às perguntas. Não pode parar. “Se eu parar, o que vai acontecer comigo? Sou autônoma. Tudo depende de mim.” Mas quando pesa na balança, o lado do empreendedorismo tem algo que o emprego formal não dá: presença. “Isso nos permite viver as fases dos nossos filhos. Quando engravidei, fiquei muito insegura. Pensei: o que vai ser de mim, o que vai ser da minha filha, eu não vou vê-la crescer. E o empreendedorismo me permitiu isso.”
O que a maternidade ensinou
Florence diz que a chegada do Heitor mudou a forma como ela ensina. A sensibilidade ficou mais aguçada. A escuta, mais presente. “Mudou muito a forma como trato a linguagem com os alunos, crianças, as mães. Passei a ter ainda mais sensibilidade no ouvir e na forma de abordá-los.” Ela acompanha um aluno que está deixando a infância para trás — e encontra nisso um ensinamento para o futuro. “Esse meu aluno tem sido um ensinamento maravilhoso quanto à forma como me comporto em certas situações. Algum dia o Heitor vai chegar nessa fase.”
Para Rafaella, a maternidade foi o gatilho que faltava. “Eu sempre tive curiosidade de ter meu próprio negócio, mas era muito jovem, 20, 21 anos, nunca tinha pensado tão a fundo sobre isso. A maternidade me deu a coragem e me fez entrar no ponto de necessidade.” Ela define empreender sendo mãe com uma clareza que surpreende para quem tem 22 anos: “A gente costuma estar sempre trabalhando. É sempre alguém mandando mensagem, sempre a gente calculando o que tem que fazer. Quando você tem funcionários e começa a delegar, as coisas caminham mais. Só que até você chegar nesse ponto é um caminho muito longo.”

Para quem ainda está com medo
Florence encerrou a entrevista pedindo desculpas por ter se segurado para não chorar. Disse que a palavra mãe, hoje, tem um peso que ela ainda está aprendendo a carregar. “Ser mãe nesse meio empreendedor molda a gente, nos ensina a trabalhar sem perder de vista o crescimento do filho, os detalhes que ele demonstra. É renúncia. Ser mãe, pra não ter dúvida, é renunciar muita coisa para poder estar pertinho dele.”
Rafaella termina com a energia de quem ainda está construindo — e sabe disso. “Se você é mãe e está querendo empreender, tem algo que você gosta de fazer, algo que você seja muito boa, ou algo que você sempre teve vontade de aprender, vá em frente. Ter medos bobos e coragens absurdas. A vida é sobre isso. A gente não precisa se limitar a uma coisa só.” E faz um alerta gentil: o empreendedorismo também tira a mãe da redoma. “Quando a gente vira mãe, a nossa vida vira isso. Você é só a mãe de fulano. Às vezes a gente fica tão imersa nesse papel que se esquece quem nós somos, o que nós gostamos de fazer. Então é muito importante assumir outros papéis — sem se sobrecarregar, mas tê-los.”
