Logo

Empreendedorismo: da ficção à dura realidade

25.05.2015 - 16:28:10
WhatsAppFacebookLinkedInX
 
Goiânia – Era uma vez um garoto que, apesar de nunca ter trabalhado, tinha ideias geniais e uma vontade muito grande de colocá-las em prática. Jones não imaginava que, para abrir seu próprio negócio, ele precisaria viver uma aventura cheia de desafios e lutar contra um impiedoso vilão: o Governo.
 
Como todo principiante, ele compartilha sua ideia com amigos e familiares e é estimulado a dar vida a esse projeto. Essa ideia parece uma "doença contagiosa" e toma conta do garoto. Ele não fala em outra coisa, não pensa em outra coisa. Só tem olhos para seu projeto e não para de imaginar em como será feliz quando ele se tornar realidade. Até mesmo a namorada não aguenta mais ouvi-lo falar sobre a tal aventura e de suas expectativas.
 
Em meio a todo entusiasmo e preparativos, surge o primeiro desafio: criar um bom nome. Uma tarefa difícil, principalmente quando o negócio precisa ter presença na internet – todo nome bacana que ele pensa em criar já existe e, quando não existe, alguém já registrou.
 
Nome escolhido, agora é preciso um logotipo. Será mesmo? Ainda não tem pesquisa de mercado, não estudou o consumidor, a concorrência e nem a viabilidade do negócio. Mesmo assim, ele vai em frente com seu projeto. “É uma ideia inovadora, não tem como dar errado”, pensa Jones.
 
Pois é assim mesmo que a maioria começa um negócio! Apenas no sentimento, na raça, na esperança de que tudo vai dar certo. E é aí que a verdadeira aventura começa! O empreendedor vai entrar em uma floresta escura e sem fim, mas com promessa de um pote de ouro no final.
 
Até então, é dia e os passarinhos cantam. O logotipo ficou lindo, o texto de missão, visão e valores é mágico – como manda o figurino – e o plano de negócios de quatro páginas está pronto. O sentimento de confiança continua: tem algo falando que esta é a oportunidade da sua vida, um oceano azul.
 
Mas, de repente, começa a anoitecer. Pediram um tal de 'fiador' para o aluguel de uma sala, além de um comprovante de renda. Mas que renda? Ainda não tem um negócio, muito menos renda! E o preço do aluguel abocanhou a poupança de Jones. Se ele não começar a vender logo, além de escurecer, vai começar uma terrível chuva. O jovem empreendedor começa a ficar assuntado, afinal, a linda e encantadora floresta começa a revelar um lado obscuro, frio e burocrático.
 
Após a noite mal dormida, em que as primeiras preocupações virem à tona, amanhece um lindo dia de sol. Chegou a hora de comprar os móveis e equipamentos para mobiliar a loja. Este é um momento mágico, seria quase "o grande final de um filme", no qual Jones beija a mocinha. Mas é aí que o tiro sai pela culatra e deixa nosso herói desacordado por dias, quase em coma. Ele gasta mais do que deve. Compra decoração, uma mesa mais bonita, um computador mais potente, um quadro para parede onde tinha um horizonte azul pintado…
 
Depois do baque, levanta atordoado e se dá conta de que as compras estão parceladas no cartão e a data de vencimento da fatura ainda está longe. Os móveis chegam, a internet é instalada, que dia mágico! Fica arrumando sua casa na floresta até altas horas e, depois, reúne os amigos em volta da fogueira para comemorar! “Amanhã tudo começa e minha vida vai mudar! Fiz o que precisava fazer”, pensa o empreendedor Jones.
 
Na manhã seguinte, nosso aventureiro acorda animado e vai à luta. Mas logo cedo descobre que precisaria ter um eterno aliado: o contador (embora ele só traga péssimas notícias). Lá se foi mais dinheiro para um tal contrato social e para os primeiros impostos…
 
Como se trata de um negócio novo e pequeno, Jones contrata dois funcionários. Em seguida, recebe da contabilidade mais impostos para pagar. As contas se acumulam antes mesmo de realizar sua primeira venda. Já ansioso com a situação, Jones senta-se em sua mesa e pensa que ainda não chegaram as contas de água, luz, IPTU e por aí vai…
 
Quando registra sua primeira grande venda, felicidade total? Não!  Percebe que deve pagar mais impostos, emitir uma nota fiscal pelo que vendeu. Isso, sem contar o valor que já havia pago por todos os produtos que estavam em sua loja. A chuva nesse momento é acompanhada de raios e trovões e está quase ininterrupta. Já desesperado, o empreendedor Jones lamenta: “Eu não tinha pensado em todos esses valores quando coloquei preço no meu produto. Como vai ser agora? Meu lucro, onde vai ficar? Como repassar esses valores para os meus clientes? Mas vou assim mesmo! Já cheguei até aqui, vamos em frente!”.
 
Deste dia em diante, raramente fez sol na floresta.
 
Infelizmente esse "conto" é mais comum do que se imagina. Empreender no Brasil transforma os empreendedores em aventureiros. Mas de uma coisa eu tenho a certeza: todos são heróis! E os que permanecem no mercado são, ainda, mais, pois enfrentam os desafios e os monstros da floresta diariamente, sem exceção. 
 
De ambulante à referência no varejo – Fred Rocha estudou Economia e Publicidade. Atualmente é diretor da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm-MG). Foi comerciante, sacoleiro de roupas e ambulante, antes de atuar no e-commerce e como palestrante e consultor. Já colocou ‘no ar’ mais de 200 lojas online, desde 1999. Foi fundador de uma agência de propaganda focada em Varejo, em Minas Gerais, e é criador do Portal de notícias Varejo1 (www.varejo1.com.br).

 *Fred Rocha é especialista e consultor em varejo

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Fred Rocha

*

Postagens Relacionadas
Ricardo Menegatto
17.02.2026
Prejuízos causados por eventos climáticos: quais são os direitos do consumidor?

Os alertas da Defesa Civil sobre tempestades severas tornaram-se parte da rotina de moradores de São Paulo e de diversas capitais brasileiras. Com eles, cresce também a apreensão quanto à possibilidade de quedas de energia elétrica e aos prejuízos que podem atingir residências, comércios e até a saúde de pessoas que dependem de equipamentos essenciais. […]

Carla Conti
14.02.2026
Educar com consciência planetária é um compromisso com a vida

A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo […]

Anna Carolina Cruz
13.02.2026
O tempo que não temos

Há dias em que a alma pede silêncio. Não o silêncio da ausência de barulho, mas o silêncio da consciência que desperta. Tenho pensado muito na forma como estamos vivendo. Corremos como se houvesse um incêndio permanente, como se cada mensagem ou e-mail não respondido fosse o fim do mundo, como se cada prazo fosse […]

Bruno D´Abadia
12.02.2026
Gestão de dados fortalece operadoras de saúde

O setor de saúde suplementar vive uma transição decisiva. Transparência, integridade da informação e precisão técnica deixaram de ser apenas exigências regulatórias e passaram a influenciar diretamente a sustentabilidade e a credibilidade das operadoras. Em um ambiente cada vez mais monitorado, dados corretos não são apenas números enviados à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). […]

Ralph Rangel
12.02.2026
O Homo Instagramabilis: O crepúsculo da inteligência

Houve um tempo em que o ser humano era definido pela sua capacidade de busca: a busca pelo abrigo, pelo fogo, pela forma de armazenar o alimento, pela verdade, pelo conhecimento profundo, enfim, éramos buscadores. Hoje, essa trajetória evolutiva parece ter sofrido um curto-circuito. Estamos testemunhando a ascensão de um novo tipo de pária social: […]

Luciana Brites
11.02.2026
Por que as crianças estão perdendo habilidades motoras na era digital?

O aumento do uso de tablets e celulares reduz o tempo de brincadeiras físicas, prejudicando o desenvolvimento motor e cognitivo. Por este motivo, temos notado que muitas crianças estão perdendo habilidades motoras. As atividades para coordenação motora são essenciais para desenvolver a integração de movimentos e a precisão no controle muscular. A coordenação motora global […]

Mardonio Pereira da Silva
10.02.2026
Quando o ódio invade a sala de aula: violência, feminicídio e a negação do Direito em um Estado Democrático

A morte brutal da Professora de Direito e policial civil, Juliana Santiago, assassinada dentro da sala de aula por um aluno do 5º período, não é apenas um crime hediondo: é um ataque frontal ao Estado Democrático de Direito. A barbárie ocorrida no ambiente universitário rompe todas as fronteiras do aceitável e impõe uma reflexão […]

Renato Gomes
10.02.2026
A qualidade da saúde começa na gestão

Durante muitos anos, quando se falava em qualidade na saúde, o debate quase sempre se concentrava no ato assistencial. O olhar estava voltado para o médico, o hospital, a tecnologia, os equipamentos. Tudo isso é, sem dúvida, essencial. Mas, após mais de 25 anos de atuação em gestão, consultoria e educação em saúde, cheguei a […]