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Johnny Massaro em 'Emergência Radioativa' (Foto: divulgação)

‘Emergência Radioativa’ peca por ser cautelosa demais

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23.03.2026 - 10:02:43

Acho que já é possível argumentar que algumas séries originais da Netflix, sejam elas produzidas dentro ou fora do Brasil, possuem uma estética própria. Infelizmente, essa vibe muito própria é marcada por uma característica negativa: ser sem sal. Esse é facilmente o maior pecado de Emergência Radioativa, minissérie inspirada no acidente radiológico do césio-137 em Goiânia em 1987, e que é tão cautelosa, didática, quadrada, que não consegue se destacar em nenhum departamento.

A trama traz Johnny Massaro no papel de Márcio, um físico nuclear que está visitando o pai na capital goiana quando acaba enredado no acidente. Trocando nomes reais, dramatizando eventos e aglutinando pessoas e fatos para melhor efeito dramático, o enredo se reveza entre Márcio e a luta dos membros da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) para tentar conter os estragos com o drama e sofrimento das vítimas contaminadas.

A série foi criticada por ter sido filmada inteiramente fora da Goiânia, com uma equipe também de fora. Em termos de qualidade de produção, isso não a afetou: tecnicamente, Emergência Radioativa é muito bem feita, mantendo o padrão das produções nacionais da plataforma de streaming.

Porém, talvez a preocupação em ofender ou ser acidentalmente xenofóbica, como aconteceu com a minissérie Todo dia a mesma noite, tenha deixado os produtores ressabiados. Isso contribuiu um tanto, ao meu ver, para deixar a série tão sem sabor. É tudo assombrosamente genérico. Falta personalidade e presença em tudo: nos atores e nos cenários, fazendo tudo parecer meio de papelão. O cenário tem cara de cenário: as repartições públicas têm a aparência que você imagina de uma repartição; o governador de Goiás é referido praticamente a série inteira simplesmente como “governador”.

O máximo de “goianidade” que a série apresenta ocorre logo nas cenas iniciais, com a passagem de um carro da pamonha, e expressões como “quando é fé” e “tem base um trem desse não”. Mas logo a coisa toda entra numa maçaroca acinzentada, um mingau com gosto de nada. Até o impacto emocional do sofrimento das vítimas parece meio podado, pra evitar um dramalhão. Até a morte da menina Celeste, versão ficcional da pequena Leide das Neves, falha em atingir os tons e impactos dramáticos que a trama demanda.

Acaba que o que podia ser uma série marcante sobre um fato muito importante e que tem sido sistematicamente apagado, principalmente pelas autoridades goianas, vira algo completamente esquecível e superficial, tão raso que vale mais a pena pesquisar no YouTube sobre um caso, ouvir um podcast, ou ler os excelentes livros-reportagem feitos sobre o acidente.

Enfim, a minissérie deixa um sabor de potencial desperdiçado.

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por José Abrão

*José Abrão é jornalista, mestre em Performances Culturais pela Faculdade de Ciências Sociais da UFG e doutorando em Comunicação pela Faculdade de Informação e Comunicação da UFG

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