Logo

Embaixador esmeraldino

WhatsAppFacebookLinkedInX
03.09.2014 - 13:08:09

Goiânia – “Oi, Pablo. Aqui é o Diogo, trabalho no marketing do Goiás. Você poderia passar hoje aqui em nossa sede para combinarmos de gravar um depoimento sobre sua história com o time para o programa que temos no PFC?”.

Recebi a ligação logo cedo e, com essa pauta, fui no final da manhã de ontem na Serrinha conversar sobre a gravação. Estava animado com a perspectiva, mas o que me esperava de verdade foi emocionante. O departamento de marketing alviverde me escolheu como primeiro Embaixador Esmeraldino. Fui presenteado com uma camisa do clube personalizada, com meu nome e a honraria grafados nas costas, além de um diploma que já mandei enquadrar e até o final da semana estará pendurado na parede de minha casa.

Sob a direção do sempre simpático e reconhecidamente competente Edson Araújo, a galera do marketing bolou o Embaixador Esmeraldino para reforçar vínculos de esmeraldinos que propagam o nome do time. Ser o primeiro dessa lista me deixou esfuziante.

Na hora, me lembrei dos momentos marcantes que tive com o Goiás. Vou ao Serra Dourada desde a barriga da minha mãe – meu pai já a levava grávida ao estádio. Ainda bebê, também frequentava as arquibancadas, embora naquele momento mais interessado no picolé e na pipoca do que na partida.

Minha memória começa com um jogo contra o Vitória, eu devia ter uns 5 ou 6 anos, que fiz minha mãe comprar na manhã de domingo um boné do time na Feira Hippie (que ainda era na Avenida Goiás) e uma buzina verde e branca. Peguei uma camisa do Goiás do meu tio César e meu pai me levou ao Serra Dourada todo fantasiado.

Teve um jogo contra o Atlético Mineiro pela Copa do Brasil que é o mais marcante de minha vida e até publiquei um texto sobre essa partida no livro Meu Jogo Inesquecível ao lado de nomes como Chico Buarque, Juca Kfouri e outros tantos gigantes que fico até envergonhado de estar ali no meio.

A lista de partidas especiais é grande. O jogo contra a Desportiva (ES) em que Baltazar, de pênalti, garantiu a volta do Goiás para a Série A. A derrota para o Botafogo campeão brasileiro de 1995. A semifinal contra o Grêmio em que o Paulo Nunes fez aquela dancinha ridícula bem na minha frente. A participação na Libertadores da América. A fatídica derrota ainda hoje não cicatrizada na Argentina pela Sul-Americana…

Minha vida se confunde com minhas experiências no Serra Dourada. As fases do time marcam bons e maus momentos que passei. Tenho um baita orgulho de torcer para o Goiás. E essa homenagem me deixou, como já disse, emocionado.

Mas foi só postar a foto nas redes sociais como Embaixador Esmeraldino que o tribunal do Feicebuqui (obrigado, Tom Zé) mostrou as caras. Não é segredo para ninguém que meu segundo time é o Flamengo. Está em minhas redes sociais. Está para o mundo ver. Mas algumas pessoas, poucas, é verdade, executaram o rito condenatório e falastrão tão comum em redes sociais.

Vamos aos números. Até agora, quando escrevo esse texto, no Instagram, a foto teve 245 curtidas e 22 comentários – sendo que 14 elogiosos, quatro de vilanovenses zoando e quatro criticando por eu ter o Flamengo como segunda opção. No Facebook, foram 146 curtidas e 18 comentários elogiosos. Fui marcado em uma publicação crítica nessa mesma rede social que pouco repercutiu – duas curtidas e quatro comentários que discordam da homenagem que recebi.

Dá para ver que se trata de uma minoria que sente incômodo. A real é que as pessoas entendem perfeitamente que sou um goianiense que torce par ao Goiás e tem simpatia pelo Flamengo como segunda opção. Simples assim.

Mas a sanha totalitária de quem desenvolve o discurso contra os pejorativamente chamados de mistos é muito agressiva. Típica de concepções tacanhas e limitadas.

De todas as críticas, a mais engraçada foi a que me acusou de ser manipulado pela televisão para gostar do Flamengo. Não nego que fui manipulado para essa escolha. Mas pelo meu pai. Assim como fui para torcer pelo Goiás – e nessa manipulação ninguém vê problema, até por que todo mundo foi influenciado por alguém para escolher seu time de coração, ninguém desenvolve naturalmente esse amor.

Meu pai nasceu em Pires do Rio. Meu avô torcia para o Vasco e Pires do Rio – foi até presidente do clube. Meu tio, irmão mais velho de meu pai, Botafogo e Pires do Rio. Meu pai, para ser contra aos dois, começou a torcer para o Flamengo e Pires do Rio. Não, a minha família não tinha televisão naquela época. A decisão foi motivada por birra familiar mesmo.

O amor dele pelo Goiás só apareceu depois, quando veio fazer o segundo grau em Goiânia. Quando nasci, ele já era esmeraldino como segunda opção. A primeira sempre foi o Pires do Rio. O Flamengo caiu para a terceira.

Tenho 35 anos e todos, repito, todos meus amigos de infância tinham dois clubes. O Marcos é Goiás e Vasco. Aldelúcio, Vila Nova e Flamengo. Luis Fernando, Goiás e São Paulo. Júnior, Goiás e São Paulo. Geovanne, Vila Nova e Vasco. André, Atlético e Vasco. Thiago, Goiás e Corinthians. Todos tinha sua predileção local e outra nacional. Eu sou fruto desse meio. Não vou apagar o que aprendi com meu pai e cultivei na infância por conta do tribunal de Feicebuqui.

Estou certo de que a maioria dos que me criticam, em algum momento da vida, também tiveram um segundo time. É natural de nossa região. Assim como é natural no Nordeste – e ali não impede os clubes locais de terem numericamente mais torcedores e presença muito mais massiva nos estádios do que os de nosso estado. Mas eles apagam seu passado. Igual político que muda de partido e sai na internet apagando posts críticos aos novos aliados. É chamar o povo de burro. É não respeitar a própria trajetória. Se você faz isso, de boa, problema seu. Não sou assim. Não vou negar que eu fui, quem eu sou (obrigado, Mano Brown).

A primeira vez que conheci alguém que torcia para um único time, tinha de 12 para 13 anos. Se me recordo é por que me marcou pelo estado de exceção. Na escola, o Rogério torcia só para o Goiás. Estranhei. Não era usual. Na mesma época, o Marcus também se dizia unicamente esmeraldino, mas tinha uma pequena simpatia pelo Botafogo por conta de seu pai.

Acho meio fascistoide essa postura de “meu clube, minha vida, meu estado, meu sangue”. O patriotismo é o último refúgio do canalha, disse o inglês Samuel Johnson. O bairrismo pode ser incluído aí. É persecutório. É intimidador. O lance é valorizar o local, mas sem fechar a porta para o mundo. Se assim fosse, teríamos que parar de ouvir Beatles e Rolling Stones e só escutar rock goiano. É estreitar demais a percepção.

Se me perguntam para quem torço, não tenho dúvidas e a resposta é única: Goiás. O que não me impede de gostar do Flamengo. E quando os dois times se enfrentam, estou sempre no Serra Dourada vestido de verde.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
06.10.2026
Vila Cultural Cora Coralina recebe exposição de Vik Muniz; veja como foi a abertura

Carolina Pessoni Goiânia – A Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia, abriu, nesta segunda-feira (6/10), a exposição “Vik Muniz – REVER: imagem e reflexão”. Considerado um dos artistas brasileiros de maior reconhecimento internacional, Vik Muniz ocupa a Grande Sala da Vila Cultural Cora Coralina para apresentar, em Goiânia, um conjunto de 60 fotografias produzidas ao longo […]

Meia Palavra
06.10.2026
Primeira temporada de ‘Lanternas’ entrega uma competente trama de detetive com um tempero de super-herói

Terminou neste domingo, na HBO Max, a primeira temporada de Lanternas, uma ousada reimaginação mais madura para os Lanternas Verdes, basicamente os policiais cósmicos do universo DC, muito conhecidos pelos leitores, mas não tão conhecidos pelo grande público. Nesta nova DC cinematográfica capitaneada por James Gunn, havia a dificuldade de introduzir esses personagens sem sobrecarregar […]

Noite e Dia
05.10.2026
André Rocha é reconduzido à presidência da Fieg; veja como foi o evento

Carolina Pessoni Goiânia – A Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) realizou nesta segunda-feira (5/10) a eleição de sua Diretoria Executiva para o quadriênio 2027-2030. O pleito confirmou a recondução do empresário e engenheiro civil André Luiz Baptista Lins Rocha à presidência da Federação. Com foco voltado ao aumento da competitividade da indústria […]

Joias do Centro
02.10.2026
Estádio Olímpico: há 85 anos palco de celebrações do esporte em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Localizado na Avenida Paranaíba, bem no Centro de Goiânia, está o estádio de futebol mais antigo da capital. Fundado em 1941, o Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira, mais conhecido apenas como Estádio Olímpico, é parte da história da capital e cresceu junto com ela, fazendo parte de sua trajetória no esporte […]

Noite e Dia
30.09.2026
Basileu França abre exposição e apresenta espetáculo musical em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Escola do Futuro de Goiás (EFG) em Artes Basileu França abriu, na última segunda-feira (28/9), a exposição “Cidades: Entre Memórias, Sonhos e Futuro”, na Galeria de Arte da instituição, em Goiânia. No mesmo dia, o Teatro Escola recebeu o espetáculo “A Noite do Rei”. A programação reúne trabalhos de estudantes de […]

Meia Palavra
30.09.2026
‘Unabomber’ não fica à altura de um dos crimes reais mais curiosos dos EUA

Estreou na Netflix Unabomber, um novo filme que tenta recontar a história fascinante do assassino e terrorista doméstico Ted Kaczynski, o titular Unabomber, que apavorou os Estados Unidos com atentados a bomba por várias décadas antes de finalmente ser capturado em meados dos anos 1990. Infelizmente, apesar de seus méritos, o filme não consegue ficar […]

lABORATÓRIO pÚBLICO - cIÊNCIA, pOLÍTICA E MEIO AMBIENTE
29.09.2026
Sem apocalipse ou redenção II

No último artigo por aqui, comentei das visões diametralmente opostas a respeito da inteligência artificial. De um lado, os otimistas tecnológicos acreditam que ela resolverá todos os nossos problemas; de outro, os tecnofóbicos já decretam para breve o fim da humanidade à medida que a IA rapidamente evoluir e sair de nosso controle. Argumentei que […]

Noite e Dia
28.09.2026
Armazém AZ apresenta mostra sobre Maria Abadia Haich em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Armazem AZ apresentou no último sábado (26/9), em Goiânia, a exposição Tessituras: Histórias de Bá, dedicada à trajetória de Maria Abadia Haich, co-fundadora da loja e personagem ligada à formação e à difusão do design brasileiro na cidade. Construída a partir do olhar de seus seis netos, com coordenação de […]