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Embaixador esmeraldino

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03.09.2014 - 13:08:09

Goiânia – “Oi, Pablo. Aqui é o Diogo, trabalho no marketing do Goiás. Você poderia passar hoje aqui em nossa sede para combinarmos de gravar um depoimento sobre sua história com o time para o programa que temos no PFC?”.

Recebi a ligação logo cedo e, com essa pauta, fui no final da manhã de ontem na Serrinha conversar sobre a gravação. Estava animado com a perspectiva, mas o que me esperava de verdade foi emocionante. O departamento de marketing alviverde me escolheu como primeiro Embaixador Esmeraldino. Fui presenteado com uma camisa do clube personalizada, com meu nome e a honraria grafados nas costas, além de um diploma que já mandei enquadrar e até o final da semana estará pendurado na parede de minha casa.

Sob a direção do sempre simpático e reconhecidamente competente Edson Araújo, a galera do marketing bolou o Embaixador Esmeraldino para reforçar vínculos de esmeraldinos que propagam o nome do time. Ser o primeiro dessa lista me deixou esfuziante.

Na hora, me lembrei dos momentos marcantes que tive com o Goiás. Vou ao Serra Dourada desde a barriga da minha mãe – meu pai já a levava grávida ao estádio. Ainda bebê, também frequentava as arquibancadas, embora naquele momento mais interessado no picolé e na pipoca do que na partida.

Minha memória começa com um jogo contra o Vitória, eu devia ter uns 5 ou 6 anos, que fiz minha mãe comprar na manhã de domingo um boné do time na Feira Hippie (que ainda era na Avenida Goiás) e uma buzina verde e branca. Peguei uma camisa do Goiás do meu tio César e meu pai me levou ao Serra Dourada todo fantasiado.

Teve um jogo contra o Atlético Mineiro pela Copa do Brasil que é o mais marcante de minha vida e até publiquei um texto sobre essa partida no livro Meu Jogo Inesquecível ao lado de nomes como Chico Buarque, Juca Kfouri e outros tantos gigantes que fico até envergonhado de estar ali no meio.

A lista de partidas especiais é grande. O jogo contra a Desportiva (ES) em que Baltazar, de pênalti, garantiu a volta do Goiás para a Série A. A derrota para o Botafogo campeão brasileiro de 1995. A semifinal contra o Grêmio em que o Paulo Nunes fez aquela dancinha ridícula bem na minha frente. A participação na Libertadores da América. A fatídica derrota ainda hoje não cicatrizada na Argentina pela Sul-Americana…

Minha vida se confunde com minhas experiências no Serra Dourada. As fases do time marcam bons e maus momentos que passei. Tenho um baita orgulho de torcer para o Goiás. E essa homenagem me deixou, como já disse, emocionado.

Mas foi só postar a foto nas redes sociais como Embaixador Esmeraldino que o tribunal do Feicebuqui (obrigado, Tom Zé) mostrou as caras. Não é segredo para ninguém que meu segundo time é o Flamengo. Está em minhas redes sociais. Está para o mundo ver. Mas algumas pessoas, poucas, é verdade, executaram o rito condenatório e falastrão tão comum em redes sociais.

Vamos aos números. Até agora, quando escrevo esse texto, no Instagram, a foto teve 245 curtidas e 22 comentários – sendo que 14 elogiosos, quatro de vilanovenses zoando e quatro criticando por eu ter o Flamengo como segunda opção. No Facebook, foram 146 curtidas e 18 comentários elogiosos. Fui marcado em uma publicação crítica nessa mesma rede social que pouco repercutiu – duas curtidas e quatro comentários que discordam da homenagem que recebi.

Dá para ver que se trata de uma minoria que sente incômodo. A real é que as pessoas entendem perfeitamente que sou um goianiense que torce par ao Goiás e tem simpatia pelo Flamengo como segunda opção. Simples assim.

Mas a sanha totalitária de quem desenvolve o discurso contra os pejorativamente chamados de mistos é muito agressiva. Típica de concepções tacanhas e limitadas.

De todas as críticas, a mais engraçada foi a que me acusou de ser manipulado pela televisão para gostar do Flamengo. Não nego que fui manipulado para essa escolha. Mas pelo meu pai. Assim como fui para torcer pelo Goiás – e nessa manipulação ninguém vê problema, até por que todo mundo foi influenciado por alguém para escolher seu time de coração, ninguém desenvolve naturalmente esse amor.

Meu pai nasceu em Pires do Rio. Meu avô torcia para o Vasco e Pires do Rio – foi até presidente do clube. Meu tio, irmão mais velho de meu pai, Botafogo e Pires do Rio. Meu pai, para ser contra aos dois, começou a torcer para o Flamengo e Pires do Rio. Não, a minha família não tinha televisão naquela época. A decisão foi motivada por birra familiar mesmo.

O amor dele pelo Goiás só apareceu depois, quando veio fazer o segundo grau em Goiânia. Quando nasci, ele já era esmeraldino como segunda opção. A primeira sempre foi o Pires do Rio. O Flamengo caiu para a terceira.

Tenho 35 anos e todos, repito, todos meus amigos de infância tinham dois clubes. O Marcos é Goiás e Vasco. Aldelúcio, Vila Nova e Flamengo. Luis Fernando, Goiás e São Paulo. Júnior, Goiás e São Paulo. Geovanne, Vila Nova e Vasco. André, Atlético e Vasco. Thiago, Goiás e Corinthians. Todos tinha sua predileção local e outra nacional. Eu sou fruto desse meio. Não vou apagar o que aprendi com meu pai e cultivei na infância por conta do tribunal de Feicebuqui.

Estou certo de que a maioria dos que me criticam, em algum momento da vida, também tiveram um segundo time. É natural de nossa região. Assim como é natural no Nordeste – e ali não impede os clubes locais de terem numericamente mais torcedores e presença muito mais massiva nos estádios do que os de nosso estado. Mas eles apagam seu passado. Igual político que muda de partido e sai na internet apagando posts críticos aos novos aliados. É chamar o povo de burro. É não respeitar a própria trajetória. Se você faz isso, de boa, problema seu. Não sou assim. Não vou negar que eu fui, quem eu sou (obrigado, Mano Brown).

A primeira vez que conheci alguém que torcia para um único time, tinha de 12 para 13 anos. Se me recordo é por que me marcou pelo estado de exceção. Na escola, o Rogério torcia só para o Goiás. Estranhei. Não era usual. Na mesma época, o Marcus também se dizia unicamente esmeraldino, mas tinha uma pequena simpatia pelo Botafogo por conta de seu pai.

Acho meio fascistoide essa postura de “meu clube, minha vida, meu estado, meu sangue”. O patriotismo é o último refúgio do canalha, disse o inglês Samuel Johnson. O bairrismo pode ser incluído aí. É persecutório. É intimidador. O lance é valorizar o local, mas sem fechar a porta para o mundo. Se assim fosse, teríamos que parar de ouvir Beatles e Rolling Stones e só escutar rock goiano. É estreitar demais a percepção.

Se me perguntam para quem torço, não tenho dúvidas e a resposta é única: Goiás. O que não me impede de gostar do Flamengo. E quando os dois times se enfrentam, estou sempre no Serra Dourada vestido de verde.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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