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Em um dos dias da mulher…Cora Coralina, a celebração por trás dos vinténs

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13.03.2016 - 18:44:52
A estas mulheres, dentre muitas, felizmente, que sabem e estão pela nossa esperança: Lisa (Alves), Helenas (Frenzel e Terra), Larissa (Mota), Denise (de Deus), Ana Carolina (Neves) 
 

Goiânia – Mas que foguetório todo, esta semana, oito de março, amanhecendo terça-feira, nos primeiros repastos do dia, Dia Internacional da Mulher! A gente bem viu…
 
De passagem: reza uma lenda, contada por Dona Maria Alice da Silva, andadeira e moradora da Cidade de Goiás, que, uns trinta e poucos anos antes de hoje, começou de fabulações com umas certas pessoas não sabidas a poeta Cora Coralina, que tinha só o primário incompleto quando se tornou escritora de obra vastíssima, pois-que esticando horizontes.
 
O caso, conforme testemunhado por Dona Maria Alice, ocorreu, muito possivelmente, num domingo, com sol e indícios de chuva fininha. Gentes nas ruas, pensando, vindo, vivendo.
 
Foi que: como se em seus todos-os-dias, as pessoas passavam na porta da casa de Cora. Indo, fabulando, talvez-que. Normalidades. Mas de logo começaram a notar uma prosearia abilolada, luminosa, coisa de mulher conversando com outra mulher, bem-muito à vontade, de lembranças, sustentando contrapontos, ampliando deferências, ora-se… 
 
— Ah, sim, você veja, Simone: acho importante assinar os autos do passado antes que o Tempo passe tudo a raso, sabe? Por isso, a precisão de escrever, tenho quase-obsessão, mesmo na velhice — ouvia-se Cora, em sorrisos, ao que respondia decerto sua interlocutora:
 
— Se a velhice é uma grande paródia, minha querida, precisamos é desacreditar disso: que não há mais necessidade de mudanças. Ando ouvindo isso tanto, e me entristece, entristece…
 
Era já assunto-isso, assunto-aquilo… Fato que, vinha virando grande: ao passarem pela Casa Velha da Ponte, para onde Cora tinha retornado após anos a fio longe de Goiás, quase sempre reclusa, já bastante epifanias, só poetando, sem ninguém mais no importuno, eis que as gentes todas que atravessavam as ruas eram ouvido atento, curiosidades empinadíssimas:
 
— Gente, com quem será que a Cora, sempre tão sozinha, anda conversando uma hora dessas? — Cidade pequena, todo mundo conhecido, bem se sabe… Ali, porém, quase ninguém nem-não entendia a palavração toda. Falavam aquelas mulheres era do quê?
 
Num zás, cogitava-se maiormente um quase-absurdo ao se perceber que a poeta dizia em alto e bom entressom: “O segredo é que todas as vidas vivem dentro de nós”. E que não tinha por quê, afinal, andar pelas ruas, atravessando pontes e largos, evitando ser-sendo. Ou tendo que cumprir capricho dos outros, lavar, obedecer, entreter, “não dá para aceitar assim, dá?”. 
 
Era sobre ser mulher que elas palavravam. Cora, Simone, Virginia, Gioconda, Nélida, Clarice, Carola, mais-muitas. Tomavam café. Fora da casa, vinham de hipóteses os dali-escutando:
 
— Coisa besta… esta de defender direito de mulher! A gente leva elas é no pianinho; mandou, calou, ditou e fez. De hora para outra, as pessoas estavam na rua, conjetura a torto e a direito:  
 
— Pois eu discordo. Temos que deixar que elas se manifestem — contrapunha Seu José do Carmo, “um quase feminista”, como gostava de se referenciar. Triste ou paradoxalmente é que ele concordasse que “mulher devia se aprumar para o companheiro, saber quando dizer as coisas, cuidar da lida, nunca dizer não a filho vindo, por motivo nenhum, tinha que parir”.  
 
— Quando se vive de tal maneira para os outros, é um pouco difícil começar a viver para si. Mas quando se começa a enxergar a vida, ah… — intercalavam-se as opiniões na casa. 
 
— … Ah, daí logo se nota que querer-se livre é também querer livres todos os outros. É esta a ideia de libertação, de democracia, não? Infelizmente, não se entende muito que igualdade, coerência, direitos dignos e equilibrados para nós-todos têm que vir em primeiro lugar, psiu? 
 
— E o que entristece mais, Cora, é a incomunicabilidade. Esse vão entre o que um diz e o que o outro interpreta. Quando interpreta. Porque parece que tem gente berrando coisa tão intranslúcida hoje em dia, que é na verdade para fazer calar, e então as pessoas… se calam.
 
— Pois eu, sem rebuliço, falo sim. E falo em cadência ritmada ou em clamor. Não adianta, vive dentro de mim a mulher do povo, bem proletária, bem linguaruda. Vive um viva à mulher! Qualquer mulher que tenha a dignidade de respeitar os outros. Mulher da vida, mulher sem jeito, sem estrupício, sem condomínio. Mulher roceira, a que hoje opera o leme, poliniza e fecunda; que trabalha, analfabeta, madrugadeira; meio casmurra até, benzendo quebranto, rodilhada de pano, lavando no rio Vermelho; a mulher da casa, cozinheirinha, da rua, pisando alho-sal; mulher de todos os tempos, de todos os povos. Mulher como eu. De e em nós.
 
A coisa de mais arrepiar, pois tenho dito: Dona Maria Alice sustenta até hoje que Cora Coralina estava, naquele dia, sozinha-sozinha. Ninguém na casa dela, só ela em canto solitário. Escutava-se quem ali de prosa larga com a poeta então? 
 
Durante anos, de lá para cá, hipotetizou-se sobre. Nunquinha que se resolutou dar qualquer confirmação a respeito do episódio. Penso até hoje que as pessoas, de dentro de suas casas ou quando vão para as ruas escutar/dizer/solicitar as coisas, é para celebrar a humanidade que ainda há de existir em nós. Foi do que Cora Coralina — mulher de reivindicar mundo sem preconceitos, de casca-grossa, pé no chão, palavra honesta e sem treta — sempre poetou. 
 
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por Carol Piva

*Carol Piva é doutoranda em Arte e Cultura Visual na UFG e uma das editoras-fundadoras do jornal literário "O Equador das Coisas". Servidora do TRT de Goiás, tradutora e ficcionista.

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