Logo

Em cartaz em Goiânia, ‘A Forma da Água’ é fábula sobre pessoas ignoradas

WhatsAppFacebookLinkedInX
01.02.2018 - 08:10:00

São Paulo – Era uma vez um garotinho chamado Guillermo del Toro, que, aos 6 anos, costumava assistir a um filme na TV todos os domingos em sua casa em Guadalajara, no México. Num determinado domingo, foi a vez de O Monstro da Lagoa Negra (1954), de Jack Arnold. Quando viu a criatura nadar por baixo da atriz Julie Adams, metida num maiô branco, foi uma revelação. "Eu tinha 6 anos e senti algo inexplicável por ela", disse, entre risos, em entrevista à reportagem em Londres.

"E senti algo pela criatura que também era inexplicável. Achei que aquela cena era a coisa mais linda que tinha visto. Pensei que os dois iam terminar juntos, e não acontece." Foi assim que nasceu A Forma da Água, que concorre a 13 Oscars, incluindo melhor direção – se Del Toro ganhar, vai ser a quarta vez que um mexicano leva o troféu na categoria em cinco anos, juntando-se a seus grandes amigos Alfonso Cuarón (em 2014, com Gravidade) e Alejandro González Iñárritu (em 2015 com Birdman e em 2016 com O Regresso).

O sonho do pequeno Guillermo levou 47 anos para chegar às telas. "Não tinha achado uma maneira de contar a história espiritualmente, emocionalmente, politicamente", explicou o diretor. Eis que, em 2011, num café da manhã, Daniel Kraus lhe contou que tinha a ideia de um filme sobre uma faxineira trabalhando numa instalação secreta do governo que conhece um homem anfíbio mantido lá e o leva para casa.

"Percebi que era a maneira de fazer, porque é o tipo de pessoa em quem ninguém presta atenção, que conseguiria levar a criatura para casa", contou Del Toro. E foi assim que nasceu sua fábula sobre Elisa (Sally Hawkins), uma faxineira muda que se apaixona pelo homem anfíbio (Doug Jones) e conta com o apoio de amigos como Giles (Richard Jenkins) e Zelda (Octavia Spencer). Para fazer seu conto de fadas com toques de suspense, musical e filme de espionagem, Del Toro situou a história em 1962, no auge da Guerra Fria.

"Quando alguns americanos dizem: 'Vamos tornar a América grande novamente' (slogan do presidente Donald Trump), eles sonham com essa época, com Kennedy na Casa Branca, corrida espacial, TV, vida no subúrbio, dinheiro abundante do pós-guerra. E tudo era lindo para quem era homem, branco e heterossexual. Mas para o resto não era legal, tinha racismo, machismo, narcisismo, movimento de pensamento positivo. Tudo o que nos transformou no que somos hoje."

Assim, ele povoou sua fábula de "outros": um monstro que só se comunica pelo olhar e por gestos submetido a experimentos, Elisa, uma faxineira muda, sua amiga Zelda, também faxineira e negra, e Giles, um pintor que precisa esconder a homossexualidade. "O filme é sobre pessoas esquecidas, ignoradas", disse Jenkins, que concorre ao Oscar de coadjuvante. "Sempre prestei atenção nelas, desde criança. Tinha um cara que ficava horas olhando a vitrine no pet shop. Sempre imaginava quem era, onde morava."

O cineasta levou três anos na criação do homem anfíbio, com ajuda do escultor Mike Hill. "Tinha de ser uma mistura de animal, protagonista de cinema, deus e monstro de filme", disse Del Toro. Acima de tudo, necessitava ser alguém por quem uma mulher podia se apaixonar. Essa mulher precisava ser interpretada por uma atriz que "ouvisse e olhasse muito bem".

A inglesa Sally Hawkins sempre foi sua primeira escolha e estava no projeto desde que vendeu a ideia para o estúdio Fox Searchlight. "Porque se ela olha a criatura como um pedaço de borracha, acabou. E Sally olhou para ele e realmente gostou. Ela ficou nervosa em sua presença, meio que se apaixonou pela criatura."

Fascinado por monstros e mundos fantásticos, Del Toro lamenta que o formato ancestral das parábolas e contos de fadas tenha cedido espaço quase totalmente ao realismo. "Na era da razão, entronamos a razão e destronamos as fábulas. Mas essa é minha catedral", disse. "Para mim, elas abrangem todas as artes e servem como espelho de quem somos e onde vivemos." (Agência Estado)

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Yuri Lopes

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
TEATRO
24.10.2026
Espetáculo “Uma Jornada de Aventura e Sabedoria” chega a Goiânia em novembro

A Redação Goiânia – O espetáculo “2026: Uma Jornada de Aventura e Sabedoria” será apresentado no dia 12 de novembro, às 19h, no Teatro Madre Esperança Garrido, em Goiânia. Os ingressos estão disponíveis no site e custam R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia-entrada). Com uma combinação de música, dança e teatro, a apresentação promete […]

Arte
24.10.2026
Bailarinos goianos disputam final de festival de dança na Argentina neste final de semana

A Redação Goiânia – Bailarinos goianos atravessaram as fronteiras do Brasil para disputar, neste fim de semana, dias 24 e 25 de outubro, a grande final de um festival internacional de dança promovido pela Matrix Producciones, em Rosário, na Argentina. Considerado um dos maiores eventos do circuito sul-americano da produtora, o festival deve reunir cerca de […]

Literatura
24.10.2026
Edival Lourenço lança livro ‘Um palmo ou dois acima do chão’ em Goiânia

A Redação Goiânia – A memória e a ficção se encontram em “Um palmo ou dois acima do chão”, novo livro do escritor goiano Edival Lourenço. A obra mergulha nas relações de trabalho rurais, nas tradições da Folia de Reis, no garimpo, na mística sertaneja e na riqueza linguística do homem do campo, que inventa […]

CULTURA
24.10.2026
IHGG terá dia 27 duas palestras sobre obras de Guimarães Rosa

Jales Naves Especial para o jornal A Redação Goiânia – O Instituto Histórico e Geográfico de Goiás foi escolhido pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás para sediar em seu auditório, na manhã de terça-feira, dia 27, a III Jornada de Colóquios do seu Programa de Pós-Graduação em Letras (Mestrado e Doutorado). Na agenda, duas palestras: “Outras […]

LITERATURA
24.10.2026
5 obras literárias que ajudam a conhecer a história e a identidade de Goiânia

A Redação Goiânia – Goiânia completa 93 anos neste sábado, dia 24 de outubro, e parte da história da capital pode ser conhecida pelas páginas de livros que registram sua arquitetura, seus espaços verdes, seus artistas e seu patrimônio cultural. Além de documentar construções e personagens, essas publicações ajudam a compreender as transformações da cidade e […]

ANIVERSÁRIO
24.10.2026
Goiânia 93 anos: conheça as histórias curiosas por trás dos nomes de ruas e praças da Capital

Samuel Straioto Goiânia – Quem nunca marcou um encontro na Praça do Cruzeiro, passou pela Praça do Avião ou combinou de encontrar alguém perto da Praça do Ratinho? Em Goiânia, alguns lugares ficaram tão conhecidos pelos apelidos populares que seus nomes oficiais acabaram em segundo plano. Por trás das placas, porém, há histórias de personagens, acontecimentos […]

Cultura
23.10.2026
Nando Reis apresenta turnê “Pra você guardei o amor” em Goiânia

A Redação  Goiânia – O cantor Nando Reis trará para Goiânia sua nova turnê: “Pra Você Guardei o Amor”.  O evento vai ocorrer no dia 24 de outubro, no palco do Centro de Convenções da PUC-GO. Os ingressos estão à venda no site oficial do artista. O músico colocará em primeiro plano sua faceta mais […]

MÚSICA
23.10.2026
Eli Soares leva turnê ‘Brasil’ a Anápolis

A Redação Goiânia – O cantor Eli Soares apresenta a Turnê Brasil em Anápolis no dia 27 de outubro, às 20h, no Teatro São Francisco. O espetáculo reúne canções que abordam fé, esperança, identidade e a relação afetiva com o país. Serviço:  Turnê Brasil – Eli Soares 27 de outubro, às 20h, no Teatro São […]