Logo

Em artigo no Estadão, Ana Carla Abrão defende regime fiscal para os Estados

WhatsAppFacebookLinkedInX
22.11.2016 - 08:33:43
 
A Redação
 
Goiânia – A secretária da Fazenda de Goiás, Ana Carla Abrão, assina um artigo no Estadão desta terça-feira (22/11) falando sobre a gravidade da crise que os Estados atravessam. Intitulado "Conjunto vazio", o texto resgata um histórico dos gastos públicos e apresenta possíveis soluções.
 
Para Ana Carla, a exemplo da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) federal, o teto de gastos em nível estadual também se faz necessário. 
 
"A solução está, portanto, num novo regime fiscal para os Estados. Essa não é a agenda ideal. Se fosse, incorporaria discussões ainda mais difíceis […]. Ainda assim, é uma agenda cuja interseção com o politicamente viável parece ser um conjunto vazio", diz.
 
Confira o texto na íntegra:
 
Alguns meses de experiência na gestão pública são suficientes para aprender a trabalhar na interseção entre o ideal e o politicamente possível, focando na parte do primeiro que esteja contida no segundo. Alguma frustração acompanha a prática, que envolve abrir mão de algo do ideal para viabilizar o possível. Melhor focar no mais importante: na margem, avança-se na direção correta. Mas estamos vivendo tempos extremos também aí. A gravidade da situação atual dos Estados sugere que não há interseção óbvia entre o ideal e o politicamente possível.
 
Já se vão mais de 20 anos desde que uma onda privatizante tomou conta do País. Parte de um grandioso projeto de estabilização econômica, a redução do Estado foi motivada por um binômio que compunha eficiência com responsabilidade fiscal. Buscava-se interromper o processo de estagnação e empobrecimento. A salvação estava em recolocar as finanças públicas em ordem. A estabilização da moeda era a parte mais visível de um projeto de concertação nacional cuja base era a responsabilidade fiscal. Naquele momento, a privatização varreu o Brasil. De empresas federais a bancos estaduais, as máquinas públicas federal e estaduais foram reduzidas, estreitando o espaço para a ineficiência, a má gestão e a corrupção. Os resultados foram benefícios diretos e indiretos que nem mesmo a pobre crítica ideológica que se seguiu conseguiu anular.
 
É um meio dejà vu, se pensarmos nos sombrios dias atuais. A grave crise econômica é uma crise fiscal e, se no nível federal as soluções começam a se desenrolar, nos Estados a situação se agrava a cada dia. São 27 governadores que, em diferentes estágios, compartilham dos mesmos problemas. Vários batem às portas de Brasília em busca de fôlego para pagar a próxima folha de servidores, postergando em 30 dias uma agonia que se repete a cada mês, 13 vezes por ano. Neste final de ano a repatriação foi esse fôlego, ano que vem a nova repatriação será outro. Mas nada disso muda a realidade. Enquanto receitas e despesas continuarem em dissonância nos Estados, a crise não cederá e, como mostra o caso agudo do Rio de Janeiro, sinais de distensão social podem adicionar ao crítico quadro um fator ainda mais complexo.
 
A solução da crise dos entes subnacionais passa por uma drástica redução do Estado. As máquinas públicas estaduais atingiram tamanho e escopo insustentáveis, com obrigações permanentes e crescentes que não cabem na capacidade de geração de receita. As despesas com pessoal se tornaram incontroláveis em razão de sucessivos aumentos reais de salários e do crescimento vegetativo da folha – alavancados por uma relação trabalhista desequilibrada, fruto do regime estatutário combinado à leniência da lei de greve –, além de um regime previdenciário que hipoteca gerações à frente. Por outro lado, a frustração de arrecadação dos últimos anos, quer pelo impacto da crise econômica sobre a atividade, quer pela erosão da base tributária, consequência inegável de mais de uma década de guerra fiscal, nos levou a um descompasso entre despesas e receitas que tem na sua reversão estrutural a única saída para a crise.
 
O diagnóstico é cristalino e a receita, clara. Há que enfrentar o problema de frente no nível estadual: um agressivo programa de desmobilização de ativos, que englobe a privatização ou transferência para a gestão pública das inúmeras atividades laterais; redução das despesas de custeio, notadamente as com pessoal; e revisão do modelo previdenciário são o início duro e imprescindível da solução. Ajustado o nível, há que limitar o crescimento do gasto. A exemplo da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) federal, também em nível estadual um teto de gastos é necessário.
 
Mas há que deixar claro na partida: não há justificativas para que minorias organizadas se protejam nos seus privilégios e transfiram a conta do desajuste – que de tão grande é de todos nós – a uma coletividade muda e desmobilizada. Até porque essa maioria silenciosa vê-se hoje representada pelo vergonhoso número de 12 milhões de brasileiros desempregados. Além disso, o desajuste é do Estado, não é do Executivo. Deixemos de lado o discurso corporativista que se arvora em afirmar que austeridade e ajuste, se estendidos às carreiras do Judiciário, são atentado à independência dos Poderes ou guerra à Operação Lava Jato. Pensemos, com a mesma verve pública que nos ferve quando o tema é corrupção, na premência de uma correção de rota que sabemos imprescindível e que sob nenhum argumento justo pode cair sobre os que menos podem só porque os que mais podem têm voz e força.
 
A solução está, portanto, num novo regime fiscal para os Estados. E, para chegar a este novo mundo, não pode haver vacas sagradas. Servidores públicos, Previdência pública, despesas de custeio, empresas e políticas públicas, Poderes independentes e incentivos fiscais. Todos esses itens terão de compor um projeto de correção de rota. E a única maneira de impor um custo menor para cada um é corrigir os excessos que sabemos que há em todos. 
 
Essa não é a agenda ideal. Se fosse, incorporaria discussões ainda mais difíceis, como a da estabilidade além das carreiras de Estado, a do piso nacional da educação e a do endurecimento da Lei de Responsabilidade Fiscal. Ainda assim, é uma agenda cuja interseção com o politicamente viável parece ser um conjunto vazio. Mas a gravidade e o caráter sistêmico da crise dos Estados requerem agora o contrário do habitual, ou seja, a distensão do politicamente possível para fazer caber o que é minimamente necessário. Do contrário, o colapso nos levará a todos e de nada nos adiantará, no futuro, termos sido obedientes aos contornos do politicamente possível de então.
 
*Secretária de Estado da Fazenda de Goiás, é doutora
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Mônica Parreira

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Solidariedade
07.10.2026
TJGO realiza campanha de arrecadação de brinquedos para crianças em situação de vulnerabilidade social

A Redação  Goiânia – O Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO) realiza uma ação solidária para arrecadação de brinquedos para crianças em situação de vulnerabilidade social. As doações podem ser feitas até o dia 13 de outubro, de itens novos ou usados em bom estado. A iniciativa é da Presidência do TJGO, por […]

Investigações
07.10.2026
Ação integrada entre MPGO e MPBA prende foragido suspeito de manipular mandado de prisão no CNJ

A Redação Goiânia – Uma ação integrada entre o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de Goiás e da Bahia asseguraram a prisão de um foragido da Justiça suspeito de manipular mandado de prisão no Banco Nacional de Medidas Penais e Prisões do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). […]

Educação
07.10.2026
Fátima Gavioli retorna ao comando da Secretaria de Educação de Goiás

A Redação  Goiânia – A professora Fátima Gavioli foi nomeada pelo governador Daniel Vilela nesta terça-feira, 6 de outubro, para o cargo de secretária de Estado da Educação de Goiás. Ela já havia ocupado a função de janeiro de 2019 a março de 2026, durante a gestão de Ronaldo Caiado. Ao assumir a pasta, em […]

Educação
07.10.2026
Governo de Goiás intensifica ações do “Só Vem Enem” na reta final para o exame

A Redação Goiânia – O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026, acontece nos dias 8 e 15 de novembro. E pensando no suporte ao estudantes que irão realizar a prova, a Secretaria de Estado da Educação (Seduc), irá intensificar, a partir do dia 10 de outubro, as ações do projeto “Só Vem Enem”, voltado […]

Goiânia
07.10.2026
Comurg inicia plantio ornamental na rotatória do Hugol

A Redação Goiânia – A Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg) iniciou o plantio ornamental na rotatória próxima ao Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol), no Setor Santos Dumont. A ação é uma etapa do paisagismo no local, que passa por intervenções para melhorar fluxo do trânsito na região. O projeto […]

Patrulha da Dignidade
07.10.2026
Ação da PM encaminha pessoas em situação de vulnerabilidade para atendimento

Hector de Souza  Goiânia – O 38º Batalhão da Polícia Militar de Goiás realizou mais a 11ª edição da ação social Patrulha da Dignidade. Nesta etapa, nove pessoas em situação de vulnerabilidade foram encaminhadas para atendimento especializado. O objetivo do projeto é auxiliar pessoas que desejam ajuda para sair da situação de rua. Aqueles que aceitam […]

Educação
07.10.2026
Fies 2026/2: faculdades privadas podem ofertar vagas até esta quarta-feira (7/10)

Brasília – As instituições de educação superior interessadas em ofertar vagas remanescentes do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) no segundo semestre podem formalizar a adesão ao processo seletivo até esta quarta (7). O novo edital que estabelece o cronograma e as regras para o processo do Fies 2026/2 foi publicado na quarta-feira (30) pelo Ministério da […]

Energia
07.10.2026
Bela Vista de Goiás recebe Caravana da Tarifa Social da Equatorial Goiás

A Redação Goiânia – Será realizada entre os dias 13 e 16 de outubro a Caravana da Tarifa Social, da Equatorial Goiás, em Bela Vista de Goiás. A ação vai orientar consumidores elegíveis à Tarifa Social de Energia Elétrica a atualizar seus dados no Cadastro Único (CadÚnico) e garantir a continuidade do benefício. Em Goiás, mais […]