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Elogio, sim. Cantada, não!

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16.04.2015 - 20:12:29

Sarah Mohn

Goiânia – Pouca coisa nessa vida é mais irritante do que receber cantadas na rua. “Vai, gostosa”, “boa tarde, deusa”, “essa é gatinha demais”, quando pegam leve conosco. Quando não, somos alvo de baixarias comumentemente verbalizadas em comparativos com suínos e equinos – potrancas, cachorronas e afins. E assim por diante, até o fim da linha, que fica bem próxima à audição daquele característico chiado de ar sendo sugado por entre os dentes e prensado pelo maxilar, numa versão piorada de assovio. Esse tira qualquer uma do sério.

Não há mulher que suporte andar por aí e perceber que seu corpo serve de alimento a esfomeados olhos alheios. Aliás, deve existir, mas não conheço ser humano do sexo feminino que goste de passar por isso. A meu ver, esse tipo de atitude é muito mais desconcertante do que propositiva. Provoca muito mais repulsa do que atração. Então, por que é que boa parte dos homens insiste em se comportar como animal irracional no cio diante de uma mulher visualmente interessante?

Tenho duas suposições. A primeira explicaria o famoso “vai que cola?”. O cara que é capaz de proferir cantadas indiscriminadamente é adepto da teoria de que o "não" ele já tem. Se conseguir o "sim", será lucro. Duvido muito que essa espécie humana já tenha obtido sucesso utilizando-se dessa bela estratégia de autoengano.

Minha segunda sugestão remete a uma característica sociocultural. Questiono se homens afeitos a esse tipo de prática não se sentem vangloriados ao tentar rebaixar mulheres à categoria de objetivo sexual merecedor de maus dizeres. Agridem-nas publicamente sob falsos elogios, certos de que não serão retrucados e conquistarão deferência de outros machos. Necessidade de afirmação de sua masculinidade.

É ruim enfrentar essa realidade. Eu confesso que não sei como lidar com isso e, muitas vezes, me pego possessa de raiva, desejando que uma bomba repentina surja em cima do cidadão que me agride. Afora o pensamento vingativo, o máximo que consigo fazer é ignorar. Finjo não ver e ouvir, porque tenho medo desse tipo de homem. Penso que quem é capaz de atacar verbalmente não mede esforços para partir às vias de fato, caso assim deseje. Por isso, fico na minha. Engolindo meu ódio, não enfrento.

Mas admiro mulheres corajosas, como a estudante mineira Débora Adorno, de 22 anos, que genialmente traçou uma estratégia para se livrar das investidas masculinas. “Estava perto da rodoviária (em Belo Horizonte), e quem conhece a região sabe que lá os passeios e ruas ficam lotados de vendedores ambulantes. Uma das ruas estava bem cheia e fui obrigada a andar mais devagar. As cantadas começaram de forma agressiva e eu me senti presa, impotente e quase sufocada mesmo. Um cara veio na minha direção me encarando. Antes de ele falar alguma coisa eu soltei logo a careta do dentinho. Ele achou tão estranho que passou reto”, explicou Débora em entrevista ao portal G1.

A técnica consiste em encolher o lábio superior e deixar dentes e gengivas à mostra. Aqui em Goiás, já vi essa expressão física ser chamada de “sorriso de cavalo”. Não importa o nome. O interessante é constatar que o negócio deu certo. De acordo com a estudante, diante da careta, os homens ficam sem reação e não proferem palavras desrespeitosas. “Depois disso, choveu um arco-íris dentro de mim, porque de uma hora pra outra não era mais eu quem estava desconfortável. De uma hora pra outra não era mais eu quem estava desviando o olhar, não era mais eu quem estava apertando o passo”, disse à reportagem do G1.

Sensacional. O desconforto ocupou seu devido lugar: na mente de quem o provocou. Débora merece ser parabenizada pela audácia e pela sacada e nós devemos seguir o exemplo de coragem. Acho que a solução é criatividade para lidar com esse tipo de situação. Se reagirmos com bom humor, ou sarcasmo, que seja, mas sem responder na mesma moeda da violência verbal, quem sabe um dia poderemos alterar o comportamento masculino e fazer os homens entenderem que a melhor cantada que podem nos oferecer é o respeito? Não custa tentar. E a perspicácia pode nos abastecer com boas risadas.

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por Sarah Mohn

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