Adriana Marinelli e Ludymila Siqueira
Goiânia – Cabeça baixa, mãos trêmulas e suadas, olhar distante. Seu comportamento mudou. As roupas estão sujas, nos pés, apenas um chinelo gasto. O semblante, embora inofensivo, carrega a tristeza de quem já perdeu o brilho no olhar. Um sorriso forçado tenta disfarçar a carência de cuidado e afeto. Ela parece envergonhada, com medo. No silêncio angustiante, os olhos inocentes “gritam” por ajuda. Não compreende o que está acontecendo, apenas chora a dor irreparável do abandono dentro do próprio lar. A cena é de uma menina de apenas três anos, que, apesar da pouca idade, já carrega as marcas visíveis da tristeza, algumas impressas em sua própria pele. Este é o triste retrato de uma vítima de violência infantil.

Menina de três anos foi abusada pelo pai e também pelo avô, além de ser vítima de maus-tratos (Foto: Polícia Civil)

Fonte: Painel de Dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, cenário nacional
(Promotor de Justiça Pedro Florentino)
Crianças e adolescentes na mira da exploração sexual infantil

Os dados podem ser ainda maiores, devido à falta de denúncias (Foto: Adriana Marinelli/A Redação)

Durante operação da Polícia Federal contra exploração
sexual infantil na internet foram cumpridos mais de 140 mandados de busca e apreensão em todo o Brasil (Foto: Polícia Federal)
"A conscientização, por meio de iniciativas que dialogam diretamente com crianças, adolescentes e adultos, é fundamental para estimular denúncias de casos de violência sexual. Essa problemática só pode ser enfrentada com o engajamento de todos. Nesse contexto, a educação emerge como o principal caminho, já que muitas vezes a criança não compreende o que está acontecendo. É na escola que ela pode entender que não é aceitável que um adulto toque suas partes íntimas ou cometa qualquer forma de abuso", explica Florentino em entrevista à reportagem do A Redação. Confira mais detalhes sobre as iniciativas desenvolvidas:
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Além da frente voltada à proteção de crianças e adolescentes de 0 a 18 anos vítimas ou expostas a cenários de violência, o Ministério Público de Goiás (MPGO) exerce sua função essencial de promover, de forma privativa, a ação penal pública contra aqueles que infringirem os direitos desse grupo. Um exemplo recente é o caso de um homem condenado a mais de 50 anos de prisão por crimes sexuais cometidos contra três adolescentes, incluindo sua própria filha, em Montes Claros de Goiás. A decisão foi proferida em janeiro deste ano, após denúncia feita pelo Ministério Público. Clique aqui e veja sobre o caso citado
"Eu tinha apenas 7 anos e não sabia o que estava acontecendo. Entendia que não estava certo, mas ao mesmo tempo não entendia nada. Fui abusada por um primo próximo, uma pessoa que eu via como um amigo. Ficava na casa da minha tia após a escola, enquanto minha mãe estava no trabalho, e era aí que tudo acontecia. Me sentia coagida, envergonhada, com medo de revelar o que acontecia e minha família não acreditar em mim. Guardei isso e sigo guardando pra mim. Ainda lembro como se fosse hoje, uma marca sem fim", relata S.S., com lágrimas nos olhos, em entrevista à reportagem do jornal A Redação.
Para a entrevistada, a educação em direitos, promovida por meio de ações preventivas como as cartilhas elaboradas pelo MPGO, é essencial para encorajar as vítimas a relatar violações aos servidores da educação.
(S.S, vítima de abuso sexual aos 7 anos)
"Uma criança que sofre violência pode enfrentar consequências a curto, médio e longo prazo, que podem se manifestar na vida adulta. Entre as consequências mais comuns, encontramos desde sintomas físicos e marcas visíveis até manifestações cognitivas, comportamentais, psíquicas e emocionais. Por exemplo, essas crianças podem ter dificuldades de relacionamento, problemas de autoestima, além de apresentar comportamentos agressivos ou episódios de choro inexplicáveis, entre outros", explica.
A psicóloga ressalta ainda que diversos fatores dificultam a redução dos casos de violência infantojuvenil. Segundo ela, existe uma concepção social que naturaliza e banaliza a violência sexual, especialmente contra adolescentes, tratando-os como se já fossem adultos e muitas vezes responsabilizando as vítimas. "Esse é um tema frequentemente abordado como tabu, com pessoas relutando em discutir. Entretanto, informação é uma forma de proteção. Crianças, adolescentes e adultos bem informados são mais alertas em relação à violência sexual. Na maioria das vezes, as vítimas começam a sofrer abusos quando ainda são muito pequenas, não compreendendo o que está acontecendo. Elas apenas percebem que um tio, por exemplo, tem um tipo de brincadeira que não entendem como um abuso sexual, não sabendo que essa pessoa não pode tocar suas partes íntimas", pontua.
(Sílvia Guimarães, Pscicóloga do MPGO)

Altos índices de violência doméstica contra a mulher desafiam o
sistema de segurança pública (Foto: Agência Brasil)

Ramon Souza matou as duas filhas para se vingar da mãe delas (Foto: reprodução/Polícia Civil)

A violência pscicológica também é uma das violações dos direitos das crianças e adolescentes
(Foto: Ludymila Siqueira/A Redação)
Família Acolhedora

(Foto: Ludymila Siqueira/A Redação)

Primeiro bêbe acolhido no projeto Família Acolhedora em Goiânia (Foto: TJ-GO)
Pedro Florentino explica que o acolhimento familiar tem prioridade em relação ao institucional, pois, segundo o promotor de Justiça, a vivência em um ambiente familiar, mesmo que não seja o de origem, é fundamental para o desenvolvimento da criança, especialmente na primeira infância. Ele ressalta que uma experiência individualizada é algo que uma instituição não pode proporcionar.
de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento
sadio e harmonioso, em condições dignas de existência.
ECA – Artigo 7 da Lei nº 8.069 de 13 de Julho de 1990
