Logo

E se o banqueiro preso abrir a boca?

WhatsAppFacebookLinkedInX
22.11.2025 - 14:17:40

Foi uma cena cinematográfica: o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, se preparava para fugir para o paraíso fiscal de Malta, no  mar Mediterrâneo, em um jato particular, avaliado em 200 milhões de reais, no aeroporto de Guarulhos, quando foi surpreendido e preso por agentes da Polícia Federal, durante a operação Compliance Zero.
 
O banqueiro foi preso por fortes indícios de liderar uma organização criminosa, que praticava fraudes contra o sistema financeiro, com rombo de 12 bilhões de reais.
 
Vorcaro transformou um patrimônio de 219 milhões de reais em 5 bilhões, em apenas 4 anos. Uma missão impossível pelas vias normais do mercado financeiro e improvável sem fortes empurrões de gente graúda da política.
 
O Banco Master oferecia um rendimento muito superior, que o praticado no mercado financeiro, para quem investisse em Certificados de Depósito Bancário, CDBs, na instituição. A propaganda prometia risco zero, porque se o banco quebrasse, a conta seria terceirizada para o Fundo Garantidor de Créditos, o FGV, uma instituição privada mantida com recursos dos bancos, e que garante uma cobertura de até R$ 250 mil por CPF, em caso de quebra de uma das instituições mantenedoras do fundo. 
 
As operações do Banco Master geraram inquietação no mercado e suspeita do Banco Central, responsável por fiscalizar e manter a saúde financeira do sistema. 
 
Vorcaro tentou vender o Banco, sem sucesso, e aí começaram as articulações políticas de salvamento do Master. Daniel Vorcaro sempre chamou a atenção pelo enriquecimento vertiginoso e pelo trânsito com grandes nomes da política nacional. 
 
Xadrez político
A primeira negociação de venda do Banco Master foi com André Esteves, dono do Banco BTG. O empresário Fábio Faria, filiado ao PP e ex-ministro das Comunicações do governo de Jair Bolsonaro teria feito a ponte entre Esteves e Vorcaro, como vazado na imprensa. Mas Esteves pulou fora. 
 
Foi aí que entraram em cena o presidente do Partido Progressistas, Ciro Nogueira, ex-ministro-chefe da Casa Civil do governo de Jair Bolsonaro, e o presidente do Partido União Brasil, Antônio Rueda, que facilitaram a aproximação do banqueiro Vorcaro com governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB-DF). A partir daí, seguiu-se a negociação de venda do Banco Master para o banco estatal do Distrito Federal, o Banco Regional de Brasília, o BRB.
 
Na decisão judicial, que autorizou a prisão do banqueiro Vorcaro, consta que o BRB queria comprar o Master por 2 bilhões de reais, quando já era conhecida a falta de liquidez do Master, no mercado. E mais, O BRB comprou mais de R$ 12 bilhões em ativos inexistentes do Master. A negociação está na mira das investigações da PF e a Justiça destituiu do cargo o presidente do banco, Paulo Henrique Costa. Vale destacar que, um dos principais acionistas do BRB é o Instituto de Previdência dos Servidores do Distrito Federal.
 
O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, autorizou a Rio Previdência a aplicar R$ 1 bilhão nos títulos do Banco Master, que não são cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos. Mais uma vez, dinheiro de aposentados. 
 
No ano passado, o senador Ciro Nogueira tentou aumentar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. A proposta ficou conhecida como Emenda Master, no Congresso Nacional. Mas os grandes bancos pressionaram, porque temiam ter que pagar a conta das extravagâncias financeiras do Banco Master e a proposta do senador não foi adiante. 
 
Outra peça desse xadrez é Flávia Péres, ex-ministra-chefe da Secretaria de Governo de Jair Bolsonaro, que é casada com ninguém menos que Gustavo Lima, um dos sócios-proprietários do Banco Master, preso na mesma operação da Polícia Federal, que  deteve Vorcaro. 
 
Não fosse a necessidade do aval do Banco Central para a conclusão do negócio, o BRB e seus correntistas estariam no mesmo buraco, que os investidores do Banco Master e o problema poderia ter se alastrado para o sistema financeiro. Mas ao analisar as bases da negociação, o Banco Central constatou que os ativos apresentados pelo Banco Master, como lastro das operações, eram podres, ou seja, empresas falidas. Era um saco sem fundo. O BC vetou o negócio e decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master.
 
Ligações com o PCC
Após a Operação Carbono Oculto da PF, em setembro, a gestora de investimentos Reag informou em comunicado ter negociado milhões em Certificados de Depósito Bancário, CDBs, do Banco Master. A Reag foi alvo da Operação por fortes indícios de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital, o PCC.
 
E vocês se lembram do piloto Mauro Caputti Matosinho, que em depoimento à Polícia Federal, em setembro, afirmou ter transportado um dos líderes do PCC, Beto Louco – outro alvo foragido da Operação Carbono Oculto -, e malotes de dinheiro para Brasília, em avião, que segundo o piloto pertence ao presidente do Partido União Brasil,  Antônio Rueda? 
 
A reação na Câmara dos Deputados
Enquanto isso, os mesmos políticos citados acima, articularam meios de controlar a atuação do Banco Central e da Polícia Federal, na Câmara dos Deputados. 
 
O presidente do PP, Ciro Nogueira, acionou o deputado federal Claudio Cajado (PP-BA) – o mesmo relator da PEC da Blindagem – , que apresentou um projeto de lei para criar possibilidades de afastamento de diretores do Banco Central. A proposta feria a independência do Banco Central e foi engavetada. 
 
O alvo se voltou para o Polícia Federal. Dessa vez, outro deputado  federal também do PP de Ciro Nogueira, Guilherme Derrite, deixou a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, para relatar o projeto de lei anti-facção de autoria do governo federal. Depois de desfigurar o projeto original, uma das propostas de Derrite foi subordinar a atuação da Polícia Federal à autorização dos governadores. O governo federal pressionou e Derrite voltou atrás, mas mirou nos recursos da PF. 
 
Atualmente, os bens do crime organizado apreendidos pela polícia vão para um fundo que financia, prioritariamente, as ações da Polícia Federal, e se houver envolvimento das polícias estaduais, uma parte dos recursos vai para elas. 
 
Com a proposta de Derrite, os bens apreendidos serão divididos, igualmente, entre a PF e as polícias estaduais. Especialistas em Segurança Pública estimam que a mudança nas regras de distribuição do fundo pode significar 350 milhões de reais a menos, por ano, nos recursos da PF e limitar sua atuação. 
 
O projeto de lei foi aprovado com folga na Câmara, representou um grande fracasso para o governo, mas ainda precisa passar pelo Senado Federal e sanção do presidente Lula. 
 
A Justiça Federal negou o pedido de habeas corpus dos advogados de defesa de Daniel Vorcaro para soltar o banqueiro, que deixou sua mansão avaliada em R$ 36 milhões, em Brasília, para amargar as noites na sede da PF, em SP. Muita água ainda deve passar embaixo dessa ponte, mas uma possível delação do banqueiro já está tirando o sono de muitos peixes gordos, em Brasília.
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Joias do Centro
02.10.2026
Estádio Olímpico: há 85 anos palco de celebrações do esporte em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Localizado na Avenida Paranaíba, bem no Centro de Goiânia, está o estádio de futebol mais antigo da capital. Fundado em 1941, o Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira, mais conhecido apenas como Estádio Olímpico, é parte da história da capital e cresceu junto com ela, fazendo parte de sua trajetória no esporte […]

Noite e Dia
30.09.2026
Basileu França abre exposição e apresenta espetáculo musical em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Escola do Futuro de Goiás (EFG) em Artes Basileu França abriu, na última segunda-feira (28/9), a exposição “Cidades: Entre Memórias, Sonhos e Futuro”, na Galeria de Arte da instituição, em Goiânia. No mesmo dia, o Teatro Escola recebeu o espetáculo “A Noite do Rei”. A programação reúne trabalhos de estudantes de […]

Meia Palavra
30.09.2026
‘Unabomber’ não fica à altura de um dos crimes reais mais curiosos dos EUA

Estreou na Netflix Unabomber, um novo filme que tenta recontar a história fascinante do assassino e terrorista doméstico Ted Kaczynski, o titular Unabomber, que apavorou os Estados Unidos com atentados a bomba por várias décadas antes de finalmente ser capturado em meados dos anos 1990. Infelizmente, apesar de seus méritos, o filme não consegue ficar […]

lABORATÓRIO pÚBLICO - cIÊNCIA, pOLÍTICA E MEIO AMBIENTE
29.09.2026
Sem apocalipse ou redenção II

No último artigo por aqui, comentei das visões diametralmente opostas a respeito da inteligência artificial. De um lado, os otimistas tecnológicos acreditam que ela resolverá todos os nossos problemas; de outro, os tecnofóbicos já decretam para breve o fim da humanidade à medida que a IA rapidamente evoluir e sair de nosso controle. Argumentei que […]

Noite e Dia
28.09.2026
Armazém AZ apresenta mostra sobre Maria Abadia Haich em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Armazem AZ apresentou no último sábado (26/9), em Goiânia, a exposição Tessituras: Histórias de Bá, dedicada à trajetória de Maria Abadia Haich, co-fundadora da loja e personagem ligada à formação e à difusão do design brasileiro na cidade. Construída a partir do olhar de seus seis netos, com coordenação de […]

Curadoria Afetiva
27.09.2026
Códigos atemporais

Há uma contagiante efervescência cultural, como costumávamos caracterizar o circuito social na década de 80, que, curiosamente, vem se reprisando na capital goiana. Salões de arte, mostras de artistas renomados (estejam eles vivos ou mortos), apresentações públicas e privadas de espetáculos clássicos, caricatos e criativos. Aparentemente, um despertar coletivo que contamina, no bom sentido, todos […]

Joias do Centro
25.09.2026
Avenida Goiás: a linha que desenhou o coração de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Há avenidas que levam a algum lugar. E há aquelas que, antes mesmo de serem abertas, já foram concebidas para dizer alguma coisa sobre a cidade. Em Goiânia, a Avenida Goiás pertence à segunda categoria. Desenhada no plano original da capital pelo arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima, ela nasceu como […]

Noite e Dia
25.09.2026
Evento apresenta primeira mostra de Di Cavalcanti para convidados em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Cerrado Galeria realizou nesta quinta-feira (24/9) a abertura exclusiva para convidados da apresentação do novo ciclo expositivo da galeria, que traz pela primeira vez à Goiânia obras do renomado artista Di Cavalcanti, além da primeira individual do goianiense Walter Pimentel. As mostras Di Cavalcanti: Lírico, brasileiro, modernista, e Anímica e […]