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E a burocracia, hein?

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23.08.2011 - 10:40:51


Já xinguei muito a burocracia. Mais do que xinguei, tomei decisões importantes de vida nessa luta inglória contra o tormento da formalidade excessiva. Eu a considerava burra e limitante do desenvolvimento nacional. Não compactuava com isso. O auge do meu desânimo com a burocracia foi quando eu estava no início do terceiro ano do curso de Direito da Universidade Federal de Goiás. Passado pelo segundo ano do curso aos trancos e barrancos, naquele momento entendi que o que eu estudava era exatamente tudo aquilo que odiava. Não teve jeito, joguei a toalha. Eu não dava mais conta do estudo da burocracia que era o tal do Processo Civil. Entreguei os pontos e larguei o curso. Entenda bem: larguei, não tranquei. Apenas deixei de ir às aulas, extenuado com o estudo da burocracia. Não tranquei pois não via a menor perspectiva de surgir uma nova vontade para voltar àquele martírio. Acho que acertei na decisão, pois ainda não me vejo voltando mais ao estudo do Direito.

Por outro lado, reconsiderei o papel da burocracia no Estado brasileiro. E uso aqui o termo burocracia no sentido vulgar do seu entendimento, ou seja, não tem nada a ver com a burocracia na teoria de Max Weber, onde ela é compreendida como um elemento eficaz na organização e padronização dos atos do Estado. Nesse artigo, estou sendo povão, não acadêmico.

Hoje acredito que a burocracia do Estado brasileiro é fundamental para o mínimo de funcionamento do mesmo.

Vivemos em uma sociedade corrupta em sua essência. Uma pesquisa feita pelo Ibope no auge da crise do Mensalão constatou que 76% dos brasileiros assumiram que, caso tivessem oportunidade, passariam a mão na grana tal qual fizeram alguns parlamentares. Mais de três quartos dos nossos compatriotas afirmaram sem pudor que só não são corruptos por falta de chance. Aliás, são corruptos sim, só que no seu âmbito de influência. Seja dando 50 reais de propina para o policial não multá-lo, seja fazendo um gato na rede de energia elétrica ou televisão por assinatura, seja ensinando o filho a colar na prova da escola. Todos esses pequenos atos do cotidiano brasileiro são corrupção em sua essência, o que muda é somente a proporção.

Tendo a convicção de que a mudança desse ethos corrupto brasileiro é coisa de longuíssimo prazo, percebi que a burocracia é fundamental para tentar impor algum tipo de controle na roubalheira generalizada no Brasil. Se mesmo com esse tanto de papel que assinamos para as coisas mais simples do mundo as pessoas ainda roubam nesse volume, imagine só caso não tivéssemos? A farra seria muito pior.

É óbvio que isso prejudica a competitividade do País no cenário internacional, deixa nosso custo Brasil muito mais elevado e perdemos um tempo precioso resolvendo questões que, em tese, não precisaríamos. Mas é o preço que se paga por sermos corruptos em nossa essência. Fazer o quê? Quem ganha horrores com isso são os donos de cartório, pois tudo acaba passando por lá para que provemos que não somos calhordas. Por exemplo, é um real absurdo pedir assinatura com firma reconhecida para o que quer que seja. O cara já parte do pressuposto que você não é você e quer dar um calote nele. O cara diz que você é bandido e você tem que provar o contrário. Com isso, você tem que ir lá no cartório para que ele fale que você é você e, aí sim, a outra parte possa acreditar que você é você. Indignante, né? Mas, mais uma vez, é o preço que pagamos por sermos um povo corrupto.

Então, na próxima vez que você for reclamar da burocracia para, digamos, abrir uma empresa, lembre-se de cada café que você pagou para cada guardinha que liberou você da multa por conta do extintor vencido dentro do carro. Parece que não, mas as duas coisas estão intimamente ligadas, meu caro.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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