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Do pintado à picanha: os rios e nossa cultura

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26.08.2025 - 09:00:00

Em Cuiabá, na semana que passou, visitei o Aquário Municipal. À beira do rio que dá nome à cidade, é uma estrutura simples, mas que me fez pensar sobre o quanto, no Brasil, apesar de todo o discurso sobre crise ambiental, ainda desconhecemos — e damos pouco valor — à nossa biodiversidade. Quantas capitais têm, não necessariamente um aquário, mas museus ou outros espaços de visitação que ajudem a preservar e divulgar a importância e a riqueza dos nossos ecossistemas? Na Amazônia, talvez seja mais comum: Belém tem o Museu Paraense Emílio Goeldi; Manaus, o Musa — Museu da Amazônia —, entre outros. No Cerrado, entretanto, esses espaços são raros. Em Goiânia, a boa exceção fica por conta do Memorial do Cerrado, criado e mantido pela PUC Goiás.
 
Mas o aquário tem algo de mágico. O mundo subaquático é mais misterioso. Por não ser nosso meio de vida, evoca ameaças e lendas. Suas criaturas são furtivas e, às vezes, assustadoras. O aquário, por isso, é especial — literalmente um mergulho em um mundo que não é o nosso. E como os peixes são bonitos.
 
O aquário desperta uma empatia pelo mundo natural que muitas vezes permanece soterrada dentro de nós. No de Cuiabá, na ala dedicada aos peixes da Amazônia, há grandes pirararas de couro claro. Acostumadas aos visitantes, aproximam-se preguiçosamente do vidro e nos encaram, ou exibem suas barrigas nadando verticalmente em contraluz que emula os fachos solares atravessando a floresta e a água em algum rio amazônico.
 
Ao meu lado, um senhor de aparência simples as contemplava, admirado. Virou-se para mim e disse: “Queria uma dessas em casa só pra ficar olhando, como se fosse um gato, pra tentar entender o que ela pensa.” Inevitável não lembrar do entomólogo Edward Wilson, com sua noção de biofilia: a ideia de que sentimos empatia e curiosidade inatas por outras formas de vida.
 
O aquário de Cuiabá tem essa curiosa compartimentação que divide as espécies de peixes entre os três biomas do Mato Grosso: Cerrado, Amazônia e Pantanal. É instrutivo, mas também algo arbitrário, pois faria mais sentido separá-los por bacias hidrográficas — no caso do Mato Grosso, falar em Bacia Araguaia-Tocantins, Bacia Amazônica e Bacia Paraguai-Paraná. Essas linhas todas não deixam de ser abstrações humanas, com algo de aleatório. No caso do Araguaia, por exemplo, a depender de quem fala, o rio é considerado também parte da Bacia Amazônica — tanto que grande parte das espécies é compartilhada.
 
Diante dos pintados e caranhas, na seção do Cerrado, me ocorreu que, em Goiás, aconteceu uma mudança significativa na dieta que revela muito da história de ocupação e transformação da região. Lembro que, quando chegamos ao estado, há 40 anos, era muito mais comum e celebrada a presença do peixe na mesa. A fauna dos rios era abundante, e toda família goiana participava de acampamentos de pescaria ou, pelo menos, tinha um amigo que o fazia e sempre trazia suprimento farto de pescado — pintados, surubins, caranhas, matrinchãs.
 
Nessas quatro décadas, a sobrepesca reduziu os estoques, e a expansão agropecuária simplificou os ecossistemas, agravando ainda mais a escassez. Além disso, grande parte dos rios — em especial o Paranaíba e o Tocantins — foi barrada. Os lagos artificiais são ambientes muito diferentes, e o tucunaré se tornou espécie quase exclusiva em seus domínios.
 
Hoje, ainda que a relação de afeto com os rios e a tradição da pesca se mantenham, esta é quase sempre esportiva — e o peixe, solto ou consumido no local, como exige a lei. Nos finais de semana, em vez da peixada ou da caranha assada, a tradição é o churrasco de carne bovina, herança gaúcha que incorporamos e hoje amamos.
 
É provável que existam estudos mostrando essa mudança na composição da dieta do goiano — e do brasileiro —, com a presença cada vez menor do peixe e maior da carne bovina. É possível que, se cruzarmos os dados de desmatamento com os de consumo de espécies nativas de nossas bacias, encontremos uma correlação negativa quase perfeita.
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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