Fernando Dantas
Especial para o jornal A Redação
Goiânia – O papelão que perde sua função na embalagem, o plástico que sobra da produção e até resíduos como pneus e biomassa podem voltar à cadeia produtiva e ser transformados em novos insumos ou fontes de energia. Isso porque o que uma indústria descarta pode ser matéria-prima para outra. Porém, mais do que encontrar uma destinação adequada, é necessário conectar quem gera os materiais a quem pode recuperá-los, processá-los e dar a eles um novo uso.
É diante desse desafio que Goiás busca avançar na agenda da economia circular. O Estado instituiu a Política Estadual de Incentivo à Economia Circular, por meio da Lei nº 22.593/2024, e criou o Pacto Goiano pela Circularidade, iniciativa que reúne governo, setor produtivo, instituições de várias áreas e municípios para articular os diferentes participantes dessa cadeia. A proposta é ampliar o olhar sobre os resíduos, considerando não apenas a destinação ambientalmente adequada, mas também as possibilidades de reaproveitamento, de geração de renda, de criação de negócios e de retorno para a sociedade.
Para o gerente de Economia Verde e Circular da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Semad), Ramon Pereira Trajano de Castro, o próximo passo é transformar essa articulação em uma estratégia capaz de identificar onde estão os materiais com potencial de aproveitamento, quem pode processá-los e quais mercados podem absorvê-los. “É avançar da criação desse ambiente institucional para a construção de uma estratégia de inteligência das cadeias de valor”, afirma.
Na prática, isso significa mapear os materiais disponíveis, os geradores e os possíveis compradores, além de identificar os entraves que impedem o reaproveitamento. “Isso significa identificar, de forma mais estruturada, quais resíduos e materiais possuem potencial de valorização, onde estão os geradores, os recicladores e os transformadores, quais são os gargalos tecnológicos e logísticos, quais capacidades precisam ser desenvolvidas, quem são os potenciais compradores e, principalmente, qual é o valor econômico associado à manutenção desses materiais em circulação”, explica Ramon.

Goiás já dispõe de instrumentos legais e de um ambiente de integração, mas o desafio é fazer com que as informações de empresas, cooperativas, recicladores, instituições de pesquisa e municípios se conectem. Segundo Ramon, são esses atores que conhecem os volumes de materiais disponíveis, os custos envolvidos, as tecnologias existentes e as oportunidades de mercado.
Ele afirma que a intenção é transformar essa conexão em projetos, parcerias e oportunidades econômicas. “O objetivo é fazer com que a economia circular deixe de ser apenas uma diretriz ambiental e passe a contribuir também para a inovação, a competitividade, a geração de renda e o desenvolvimento econômico do Estado”.
Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), André Rocha, a transformação de resíduos em subprodutos com valor comercial já ocorre em diferentes segmentos industriais. De acordo com ele, no setor sucroenergético, por exemplo, o bagaço da cana, antes considerado um problema, passou a ser aproveitado na alimentação animal, na geração de energia elétrica e, com o avanço das pesquisas, na produção de etanol de segunda geração. “Aquilo que era chamado resíduo hoje é transformado em subproduto”, afirma.
Outro exemplo está na produção de etanol de milho, em que subprodutos como o DDG (Dried Distillers Grains, ou grãos secos de destilaria) são comercializados para a alimentação e nutrição animal, atendendo a cadeias como as de bovinos, suínos, aves, piscicultura e mercado pet. Segundo André Rocha, no município de Quirinópolis, na região Sudoeste do Estado, o aumento da produção desse material pelas usinas de etanol de milho contribuiu para retomar a atividade leiteira e viabilizar novamente uma indústria de laticínios na região.
O presidente da Fieg reforça que esse aproveitamento permite reduzir desperdícios, gerar novas receitas, tornar as empresas economicamente mais sustentáveis e contribuir para outras cadeias produtivas. “Você aumenta a eficiência, reduz também custos com frete, ajuda a descarbonizar a economia, além de possibilitar novas rendas para essas empresas”, ressalta.


Na Marajoara Alimentos, em Goiás, os materiais recicláveis são catalogados, prensados e armazenados em uma estrutura preparada para preservar suas características até a retirada. O diretor-geral da empresa, Vinícius Junqueira, explica que o cuidado começa ainda dentro da unidade. “O material perde qualidade de reciclagem quando exposto às intempéries, então temos um espaço coberto, com solo impermeável, e com uma prensa enfardadeira fornecida pela Copel Recicláveis para a gestão dos descartes da fábrica”, afirma.
Ele reforça que esse trabalho permite que os materiais que saem da indústria sigam em melhores condições para a etapa seguinte, já que papelão, plástico, embalagens longa vida e metais são separados e encaminhados de acordo com suas características.

A Copel Recicláveis, especializada no comércio e na gestão de resíduos recicláveis, recebe materiais da Marajoara e de aproximadamente 200 fornecedores, movimentando próximo de 62,4 mil toneladas de recicláveis nas unidades de Goiânia, Aparecida de Goiânia e Anápolis. O diretor da empresa, Roberto Domingos Júnior, observa, porém, que uma parcela pequena dos fornecedores possui estrutura organizada para realizar a separação. “Normalmente, não são todas as empresas que investem nesta infraestrutura, porque requer uma gestão mais minuciosa”, explica.
Para ele, a diferença aparece na etapa seguinte. “Muitas fornecem o material solto, por caçambas, caminhonetes e meios alternativos de logística. Com o material devidamente catalogado e compactado, conseguimos executar a reciclagem em maior escala.”
Roberto informa que o processamento transforma os materiais em novos insumos. O papelão é recuperado; plásticos são processados para a produção de polietileno granulado; e embalagens longa vida passam por separação de seus componentes. “Esse tipo de embalagem passa por mais estágios no processo de reciclagem devido ao isolamento no interior do material, feito para preservar a qualidade do leite”, explica.

O trabalho do Sistema Fieg nessa cadeia inclui ainda ensaios laboratoriais e a caracterização de resíduos e efluentes. Esses procedimentos permitem avaliar as propriedades dos materiais e identificar possibilidades de destinação. De acordo com Joel, essas ações integram a atuação do Senai Goiás na engenharia de processos industriais e podem contribuir para viabilizar o aproveitamento de resíduos em outras aplicações, inclusive em processos de coprocessamento.

A redução de perdas é uma das frentes de atuação para enfrentar os desafios da indústria goiana. Segundo Joel, entre os resíduos de maior volume no Estado estão a biomassa agroindustrial e os efluentes, como bagaço de cana e vinhaça no setor sucroenergético, além de carcaças, ossos, vísceras e lodos de estações de tratamento de efluentes nos segmentos de proteína animal e laticínios. Também estão entre os materiais gerados pelas atividades industriais as escórias de fundição, o fosfogesso e os resíduos da construção civil.
O gerente aponta dificuldades específicas para a destinação de resíduos perigosos, como lodos galvânicos, solventes, borras oleosas e passivos químicos e farmacêuticos. De acordo com ele, esses materiais exigem rotas de tratamento licenciadas, que podem envolver custos elevados. Outro desafio apontado por Joel é a dispersão geográfica dos geradores e dos compradores de recicláveis, que encarece o transporte e dificulta a recuperação de materiais em diferentes regiões do Estado.
Na avaliação do gerente do IEL, a indústria também tem avançado na busca por alternativas ao descarte convencional. Ele cita o aproveitamento de biomassa e resíduos agroindustriais para geração de energia, o uso de determinados materiais em fornos de cimenteiras e a recuperação de embalagens pós-consumo por meio da logística reversa. No setor sucroenergético, segundo as informações apresentadas pelo gerente, mais de 95% do bagaço de cana e da vinhaça gerados no Estado retornam às caldeiras de cogeração de energia e ao solo por meio da fertirrigação autorizada.

Para Joel, a reinserção de materiais no ciclo produtivo, porém, depende de uma cadeia organizada, capaz de conectar quem coloca embalagens no mercado, quem realiza a coleta, quem processa os materiais e quem comprova sua recuperação. É nessa etapa que o IEL Goiás atua como entidade gestora de logística reversa, por meio da plataforma Reverta+, que reúne empresas, operadores e cooperativas.
Segundo Joel, o sistema permite acompanhar a compensação de embalagens por fração material — plástico, papel e papelão, vidro e metal —, além da documentação fiscal correspondente. “O Dashboard gerencial de compensação ambiental comprova em tempo real a rastreabilidade fiscal, a compensação em massa de embalagens por fração material — plástico, papel/papelão, vidro e metal — e a remuneração direta de cooperativas locais”, afirma.
A plataforma também permite que cooperativas e operadores locais recebam pela participação na cadeia de recuperação das embalagens. “As cooperativas de catadores e operadores locais recebem remuneração financeira direta pela emissão das notas fiscais homologadas, somando uma nova fonte de renda ao valor da venda do material físico”, explica Joel.
Ainda de acordo com Joel, o IEL também atua na preparação das empresas para atender a critérios de sustentabilidade e governança corporativa, enquanto o Conselho Temático de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Fieg (CMAS-Fieg) acompanha questões regulatórias e mantém articulação com órgãos ambientais em temas relacionados à gestão de resíduos, à logística reversa e às condições de competitividade da cadeia de reciclagem.
Na avaliação do gerente, “ampliar a economia circular em Goiás exige fortalecer a participação das empresas nos sistemas de logística reversa, desenvolver aplicações comerciais para resíduos industriais e aproximar geradores e compradores”.

O gerente da fábrica, Alex de Jesus Felix, explica que, no coprocessamento, resíduos substituem parte do coque de petróleo, combustível convencional utilizado na fabricação do clínquer, produto intermediário que dá origem ao cimento. “É o caso de pneus inservíveis, biomassas, resíduos triturados, resíduos do setor agroindustrial e lodos industriais”, explica.
Há também materiais que podem substituir parte das matérias-primas minerais. “Na fabricação de cimento, os resíduos também podem ser utilizados como adição de matérias-primas, como cinzas de caldeira, resíduos minerais e outros materiais previamente avaliados tecnicamente. Isso significa que alguns resíduos possuem componentes minerais que podem ser aproveitados na própria composição do cimento, reduzindo a necessidade de extração de recursos naturais”, afirma o gerente.
Para chegar ao forno, entretanto, os materiais precisam passar por uma sequência de procedimentos. Alex explica que, após o recebimento, os resíduos são armazenados em estrutura licenciada e submetidos a controles de qualidade e verificações técnicas. A partir dos resultados, a fábrica prepara uma mistura de materiais, que passa por peneiramento e pela remoção de componentes grosseiros antes de seguir por correias transportadoras até o sistema de dosagem que alimenta o forno de clínquer.

Em 2025, a unidade utilizou diferentes resíduos provenientes de setores da economia. Entre os materiais citados por Alex estão pneus picados, biomassas, cavacos de madeira, casca de arroz, misturas de resíduos industriais e determinados resíduos minerais. Ele acrescenta ainda que a operação depende de uma cadeia. “A empresa atua em parceria com fornecedores e empresas especializadas devidamente licenciadas, promovendo rastreabilidade, conformidade ambiental e segurança em todas as etapas do processo”, afirma.
Segundo Alex, a ampliação do coprocessamento em Goiás está relacionada à disponibilidade de resíduos compatíveis com os requisitos técnicos e ambientais, à logística de transporte e ao desenvolvimento da cadeia de valorização desses materiais.

Esse diagnóstico considera também a maneira como o resíduo é gerado, separado e armazenado dentro da indústria. Ela informa que a visita técnica de especialistas da Ecoblending permite verificar condições que nem sempre aparecem nos documentos da empresa, como o volume efetivamente produzido, a frequência necessária de retirada, as limitações logísticas da unidade e os procedimentos adotados pelas equipes de produção e meio ambiente.
Segundo Vitória, uma das falhas mais comuns ocorre quando materiais de naturezas diferentes são misturados ou não recebem acondicionamento adequado. “Aparecem em várias etapas, mas costumam começar na origem. Quando o resíduo é mal gerenciado, sem triagem e sem acondicionamento de acordo com as suas características, toda a cadeia fica comprometida, porque a escolha do tratamento depende dessa informação.”
Na Ecoblending, o coprocessamento é uma das alternativas para resíduos que não podem retornar à cadeia produtiva por meio da reciclagem convencional. A empresa realiza a blendagem, que consiste na mistura controlada de materiais compatíveis, para produzir o combustível derivado de resíduos (CDR), utilizado nos fornos de indústrias cimenteiras como alternativa energética aos combustíveis fósseis convencionais.
Vitória destaca que o benefício ambiental acontece em duas frentes. “O resíduo recebe uma destinação adequada, em vez de ocupar espaço em aterro, e a indústria passa a consumir menos recursos não renováveis, já que parte da energia vem do próprio resíduo. É um exemplo prático de economia circular, ou seja, o que seria descartado volta ao processo produtivo como fonte de energia.”

Já a consultora comercial da Ecoblending, Janaina de Assis Silva, orienta que a preparação adequada também pode interferir nos custos de quem gera o material. “Na prática, um resíduo bem caracterizado e separado não se mistura com outro de natureza diferente, o que evita que o conjunto todo receba uma destinação mais complexa e mais onerosa. Conhecer o material abre alternativas como reciclagem, recuperação e coprocessamento, quando são técnica e legalmente aplicáveis”, afirma.
A Ecoblending também mantém um sistema de rastreabilidade que acompanha o resíduo desde a coleta até a destinação final. De acordo com Janaina, esse controle permite comprovar o encaminhamento do material e acompanhar a tecnologia utilizada. Ela alerta que o gerenciamento inadequado pode elevar o risco de destinação em locais impróprios e de contaminação do solo e da água. “Quando a empresa conhece seus resíduos e avalia as alternativas, reduz desperdícios e transforma parte do que era custo em valor, respeitando a viabilidade técnica e os requisitos ambientais aplicáveis”.

Com experiência em operações industriais, segurança do trabalho e gestão ambiental, Henrique trabalha com diagnósticos técnicos, gestão de riscos, capacitação, documentação de segurança, projetos e estudos ambientais. Segundo ele, a análise conjunta dessas áreas permite identificar a origem dos problemas e definir medidas que possam ser aplicadas à rotina das empresas. “O resíduo é um indicador do processo produtivo. Um volume acima do esperado pode apontar perda de matéria-prima, uma mistura de materiais revela falha de segregação e um armazenamento inadequado gera, ao mesmo tempo, risco ambiental e risco para quem trabalha no local. Quem olha apenas para a destinação trata somente o sintoma”, enfatiza.
O diagnóstico da Arvos começa pelo mapeamento dos materiais que entram na produção, das etapas em que são utilizados e dos resultados de cada atividade. “Começamos pelo processo: quais materiais entram, onde são utilizados, o que sai de cada etapa e quem executa as atividades. Em campo, verificamos os pontos de geração, o acondicionamento, a identificação, a segregação, o armazenamento temporário, a circulação interna e a retirada dos resíduos”, explica Henrique.
A avaliação permite organizar as medidas necessárias conforme a gravidade dos problemas encontrados e distinguir o que exige correção imediata daquilo que depende de planejamento ou investimento. Entre as situações identificadas pelo engenheiro estão materiais recicláveis misturados a resíduos contaminados por óleo ou produtos químicos, recipientes sem identificação, áreas de armazenamento sem cobertura ou piso impermeável, falhas na documentação e manuseio sem proteção adequada.

Ele ressalta que parte desses problemas pode ser corrigida com mudanças na rotina, como reorganizar os coletores, padronizar a identificação dos recipientes, estabelecer a frequência de retirada dos materiais, organizar os documentos e capacitar as equipes. Já quando a falha está relacionada à própria atividade produtiva, porém, a correção precisa alcançar a maneira como o processo é executado.
Henrique também chama a atenção para a classificação dos resíduos e para a responsabilidade da indústria sobre o material gerado. Ele diz que a empresa precisa conhecer as características de cada fluxo, verificar se transportadores e destinadores estão licenciados para a atividade e manter os registros necessários para demonstrar o encaminhamento correto. Entre os documentos utilizados estão o inventário de resíduos, o Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos, os Manifestos de Transporte de Resíduos e os Certificados de Destinação Final.
“A responsabilidade da indústria não termina quando o caminhão sai do pátio da empresa”, ressalta o engenheiro, ao explicar que a contratação de uma empresa para coletar os materiais não elimina a responsabilidade do gerador por danos decorrentes de um gerenciamento inadequado.
O diagnóstico também pode revelar oportunidades de reduzir o consumo de matérias-primas e evitar que determinados materiais se transformem em resíduos. Ao medir os fluxos e observar onde ocorrem as perdas, a empresa pode avaliar possibilidades de reutilização, reciclagem e melhoria da segregação. Cada alternativa, segundo Henrique, precisa ser examinada quanto à segurança, à viabilidade técnica e às exigências legais. “Um procedimento só funciona quando quem executa entende o que fazer e por quê. Por isso a capacitação precisa ser específica para a realidade de cada equipe, ou seja, reconhecer os materiais, separar corretamente, identificar situações anormais e saber a quem comunicar uma falha”, ressalta.
Para o engenheiro, a gestão preventiva exige que a empresa conheça seus fluxos de materiais e resíduos, verifique suas obrigações legais, corrija as situações mais críticas, defina responsáveis e acompanhe indicadores como volume gerado, perdas e conformidade das destinações. “Essa lógica aproxima a operação da economia circular e segue a ordem de prioridade do artigo 9º da Lei nº 12.305/2010, de primeiro não gerar, depois reduzir, reutilizar e reciclar, deixando o tratamento e a disposição final ambientalmente adequada para o que realmente não pode ser aproveitado. Na prática, o resíduo que deixa de ser gerado é também custo que deixa de existir”, conclui Henrique.


Se o diagnóstico dos processos industriais ajuda a identificar perdas e oportunidades de reaproveitamento, na Caramuru Alimentos a valorização dos materiais também está incorporada ao processamento dos grãos. A companhia trabalha com soja, milho e girassol e transforma diferentes componentes dessas matérias-primas em produtos destinados a mercados como alimentação humana, nutrição animal, biocombustíveis, cosméticos e indústria farmacêutica.
Segundo a gerente de Sustentabilidade da Caramuru, Thaís Ribeiro Samuelsson, entre os principais coprodutos estão o farelo de soja, a Proteína Concentrada de Soja (SPC), a lecitina de soja, a glicerina refinada, o melaço de soja e o farelo de girassol. “O modelo de negócio da Caramuru é estruturado para maximizar o aproveitamento dos grãos processados”, explica. A gerente destaca que esses materiais retornam à cadeia produtiva como matérias-primas para diferentes aplicações.
A empresa adota medidas para reaproveitar os resíduos gerados nas operações. Em 2025, a Caramuru registrou mais de 52,7 mil toneladas de resíduos em suas unidades industriais e logísticas, das quais 31,9 mil toneladas foram geradas em Goiás. No total da companhia, aproximadamente 46,7 mil toneladas — 88,5% dos resíduos — foram encaminhadas para reciclagem, reprocessamento, compostagem, refino e logística reversa. Em Goiás, quase 19,5 mil toneladas, equivalentes a 60,8% do volume gerado no Estado, seguiram para essas alternativas.

A gerente informa que os resíduos são identificados e separados conforme suas características e classes, armazenados temporariamente em condições adequadas e encaminhados a empresas e parceiros habilitados. Sempre que existe viabilidade técnica, ambiental e econômica, os materiais são destinados ao reaproveitamento, de acordo com ela. A parcela sem possibilidade de recuperação segue para disposição final ambientalmente adequada.
O aproveitamento também alcança a energia utilizada nas operações. Segundo Thaís, a companhia utiliza fontes de biomassa renovável, como lenha de eucalipto, bagaço de cana, maravalha, briquetes e sabugo de milho. Em 2025, 91,92% da energia consumida pela Caramuru teve origem em fontes renováveis. A empresa mantém três unidades de cogeração de energia a partir de biomassa e produz biodiesel de óleo de soja e etanol de soja a partir do melaço gerado no processamento da Proteína Concentrada de Soja.
Outro exemplo está no reaproveitamento de paletes de madeira, no município de Itumbiara. O projeto utiliza madeira de paletes descartáveis para fabricar novos paletes no padrão PBR. Em 2025, 250,7 toneladas de madeira foram destinadas à reutilização e, entre setembro e dezembro do ano passado, a companhia adquiriu 900 paletes por esse modelo, com redução de 43% no custo unitário em comparação com fornecedores tradicionais.
A Caramuru também mantém iniciativas de logística reversa de embalagens. De acordo com Thaís, a companhia participa do sistema eureciclo, por meio da aquisição de créditos de reciclagem, e tem parceria com a Estação Reciclar para triagem e destinação de resíduos. Em 2025, as embalagens sob controle operacional da empresa somaram 2.268,31 toneladas. Desse total, 40% eram compostas por materiais reciclados ou renováveis, enquanto 85% eram recicláveis, reutilizáveis ou compostáveis.
Para a gerente, “ampliar a economia circular em Goiás depende de investimentos em infraestrutura de coleta, triagem e processamento, do fortalecimento das cooperativas e dos operadores especializados e da criação de mercados para materiais reciclados e coprodutos industriais”. Ela também aponta a importância de pesquisa, inovação e maior integração entre empresas, poder público e instituições de pesquisa para desenvolver novas aplicações e ampliar o aproveitamento dos materiais.

Segundo o analista de Desenvolvimento Humano de Cooperativas do Sistema OCB/GO, Heuller Xavier, hoje elas atuam como elos de triagem, beneficiamento e formalização da logística reversa, agregando valor ao material industrial em etapas como classificação fina, quando há separação de resíduos por tipo de produto; compactação (enfardamento), na prensa de materiais volumosos em fardos padronizados, barateando o frete; e na certificação fiscal, com a emissão de notas que geram créditos de reciclagem e rastreabilidade para as empresas.

Para Heuller, a relação entre indústrias e cooperativas ainda tem muito a evoluir. Segundo ele, um dos obstáculos para isso ocorrer aparece antes mesmo de o material chegar aos galpões. É que Goiás produz, aproximadamente, 6,9 mil toneladas de resíduos sólidos por dia e apenas cerca de 5% de todo o potencial de materiais recicláveis secos gerados, tanto pela população quanto pelo comércio e indústria, chega até as cooperativas. “Algumas grandes empresas se conectam às cooperativas via programas formais de logística reversa e créditos de reciclagem, como o Recicla Goiás. Como o estado ainda recicla uma fração muito baixa do seu total de resíduos, há grande margem para ampliar essa integração”, relata.
O Recicla Goiás é uma iniciativa do Governo de Goiás que organiza e fortalece a logística reversa de embalagens, promovendo o retorno de materiais descartados à cadeia produtiva. A plataforma reúne empresas, entidades gestoras, operadores logísticos e verificadores para acompanhar metas, documentos e resultados da reciclagem.

Heuller reforça que, para fortalecer esse elo da cadeia, o Sistema OCB/GO atua de forma estratégica na profissionalização das cooperativas por meio de programas contínuos de capacitação, consultorias em gestão e governança, missões técnicas e inclusão de tecnologias de processos. “O Sistema OCB também exerce um papel importante de representação institucional ativa junto ao poder público para ampliar a infraestrutura cooperativa. Essa articulação viabilizou a captação de emendas parlamentares destinadas à aquisição de frotas para coleta, maquinários de beneficiamento e equipamentos de proteção individual (EPIs)”, ressalta.
O Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae Goiás) também trabalha nesse segmento, por meio de convênio com o Sistema OCB, que inclui as cooperativas de reciclagem entre os públicos atendidos, com foco em contribuir para a melhoria da gestão e para o desenvolvimento sustentável dos negócios.
Entre 2024 e 2026, aproximadamente 26 cooperativas de reciclagem tiveram acesso direto a capacitações, consultorias e ações de benchmarking em eventos do segmento, no âmbito do convênio. O Programa Negócios Coop, voltado para impulsionar a competitividade, a gestão e o faturamento de cooperativas, com destaque para projetos de capacitação direcionados a segmentos específicos como o de reciclagem em Goiás, também trouxe resultados por meio de mudanças na gestão e no faturamento, de acordo com informações da instituição.
A analista técnica do Sebrae Goiás, Florizania Rodrigues, cita que, em 2025, cinco cooperativas participaram da iniciativa, executada pelo Sistema OCB em parceria com o Sebrae, e registraram aumento médio de 30% no faturamento. A entidade também identificou melhorias na gestão, formalização de contratos para dar maior previsibilidade às receitas, investimentos em infraestrutura e aplicação de ferramentas de 5S.
Já o coordenador de Políticas Públicas e Desenvolvimento Territorial do Sebrae Goiás, Charles Dumaresq M. Neto, reforça que a atuação da entidade inclui o desenvolvimento de oportunidades econômicas nos territórios. “No Nordeste Goiano, o programa Território Empreendedor vem sendo utilizado para mapear a gestão de resíduos sólidos e desenvolver ferramentas de políticas públicas. O Sebrae realizou um diagnóstico em 21 municípios da Chapada dos Veadeiros e do Vão do Paranã e uma das principais conclusões foi a necessidade de regionalizar a gestão”.
Segundo ele, o diagnóstico identificou diferentes condições para estruturar essa cadeia: a cooperativa de Alto Paraíso está se expandindo para Cavalcante e estuda abrir uma filial em São João d’Aliança; em Posse, uma empresa privada de triagem tem como principal desafio receber volume suficiente; e, em Campos Belos, foi confirmada a disponibilidade de um galpão. Já em Alto Paraíso, há um centro de triagem com esteira.
Para o Sebrae Goiás, o desenvolvimento desse mercado depende de um fluxo regular de materiais separados e de remuneração pelo serviço de coleta seletiva. Entre as medidas apontadas pela instituição estão a contratação de organizações de catadores para prestar o serviço público, a criação de rotas intermunicipais e a estruturação de centros regionais de triagem. O diagnóstico também aponta oportunidades na venda regional de recicláveis, na compostagem de resíduos orgânicos provenientes do turismo e na instalação de pontos de recebimento de embalagens e eletroeletrônicos.

Ela conta que encontrou o espaço desorganizado, com acúmulo de resíduos inclusive no escritório, e passou a ajudar na organização dos documentos. Na época, não conhecia o funcionamento de uma cooperativa. Ao procurar orientação para regularizar a documentação, recebeu apoio do Sistema OCB/GO e teve acesso a cursos que, segundo ela, contribuíram para sua formação e para o exercício da liderança.
Luciene relata que enfrentou resistência por ser mulher à frente da organização, além de dificuldades administrativas e financeiras. A cooperativa chegou a distribuir apenas R$ 300 aos trabalhadores. Com o tempo, conseguiu avançar na estrutura e nos equipamentos, inclusive por meio de editais, parcerias e apoio de outras instituições.
Hoje, a Cooper Sag tem nove cooperados e dois caminhões utilizados na coleta seletiva. Luciene informa que a estrutura, contudo, ainda não é inteiramente própria. Um dos veículos foi disponibilizado como contrapartida de um condomínio e está vinculado ao CNPJ da prefeitura; o outro foi obtido por meio do Estado, em um processo que ainda envolve a verificação de seu uso exclusivo na coleta seletiva. Ela relata que a cooperativa também conseguiu equipamentos por meio de editais, como prensas e um guincho de elevação, e busca obter um caminhão próprio.
A coleta e a triagem fazem parte da rotina de Luciene, que divide o tempo entre o trabalho no galpão, as atividades na rua e as tarefas administrativas. “Eu não sou a presidente que fica só no escritório. Eu sou a presidente que eu ‘tô’ ali na separação, na triagem, quando eu não ‘tô’ no depósito eu ‘tô’ pensando, quando eu não ‘tô’ pensando eu ‘tô’ na coleta, na rua, no caminhão na rua, mexendo com documentação”, enfatiza.
Ela diz ainda que a atividade é marcada pela oscilação dos preços dos materiais recicláveis, que interfere diretamente na renda dos cooperados, que a remuneração continua abaixo do que considera necessário e que o objetivo é melhorar as condições de todos. “Minha meta é a gente crescer ali dentro da cooperativa, a gente ter um salário digno, honrado.” Para Luciene, o trabalho coletivo é fundamental para manter a cooperativa em funcionamento. “Sem a minha equipe, eu não sou nada. Uma andorinha não faz verão sozinha”, afirma.

Já em Alto Paraíso de Goiás, a Coopera Chapada, também identificada como RecicleAlto, foi criada para formalizar os catadores de materiais recicláveis do município e ampliar os esforços de coleta, triagem e destinação final. A cooperativa tem 15 pessoas e recebe materiais de moradores, comércios, indústrias e escolas que fazem a separação e os levam aos Pontos de Entrega Voluntária (PEVs).
A cooperativa trabalha com papelão, plásticos, vidro e metais, entre outros materiais. O papelão e o plástico se destacam pelo volume recebido, enquanto os metais ferrosos têm importância pelo valor de comercialização. Segundo o gerente de operações, Murilo de Souza Ferreira, a cooperativa consegue destinar até 500 toneladas de materiais por ano.
O valor obtido na venda varia conforme o preço de mercado, o volume disponível e a distância até o destino final. A logística, o acesso a compradores e a oscilação dos preços estão entre os principais gargalos para o crescimento da operação. Murilo também aponta a conscientização de parte da população, a rotatividade de funcionários e o custo de vida elevado do município entre as dificuldades enfrentadas.

Uma das iniciativas da cooperativa é o programa “Reciclar é preciso”, que utiliza uma moeda social para incentivar a entrega de recicláveis pela população. Os cooperados compram os materiais levados ao galpão com essa moeda, que pode ser utilizada em estabelecimentos parceiros para adquirir alimentos, ração animal, produtos de limpeza e medicamentos. A moeda não pode ser trocada por cigarros ou bebidas alcoólicas.
Segundo Murilo, o modelo teve impacto positivo principalmente na educação ambiental e financeira das crianças. A iniciativa também aproxima a entrega de materiais recicláveis do comércio local, criando uma forma de recompensa que pode ser utilizada em compras de produtos do cotidiano.
A ligação com a indústria aparece ainda na destinação de parte dos materiais comercializados. No último ano, quase 200 toneladas de vidro foram encaminhadas para unidades industriais da Ambev nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. De acordo com Murilo, as vendas movimentaram aproximadamente R$ 25 mil, antes do desconto das despesas com transporte e combustível.
A operação mostra tanto a possibilidade de destinar o vidro para a indústria quanto o peso dos custos logísticos no resultado financeiro. Mesmo com esse volume comercializado, Murilo estima que a cooperativa poderia receber aproximadamente mais 100 toneladas por ano se empresas, comércios e indústrias realizassem a separação adequada dos materiais na origem. Para melhorar a conexão com grandes geradores, ele aponta a necessidade de políticas públicas específicas, aplicação rigorosa da legislação e melhoria da fiscalização.

A economia circular faz parte da rotina de grandes cooperativas agroindustriais, que precisam administrar os resíduos gerados em diferentes etapas da produção. Na Cooperativa Agroindustrial dos Produtores Rurais do Sudoeste Goiano (Comigo), o gerenciamento começa no próprio ponto de geração: os materiais são identificados, separados e acondicionados conforme suas características, classificação e possibilidades de destinação. Depois, seguem para armazenamento temporário e são encaminhados a transportadores, recicladores, empresas especializadas e destinadores habilitados.
O assessor ambiental da Comigo, Reginaldo Passos, explica que a destinação varia conforme a natureza de cada material. A cooperativa encaminha metais, plásticos, papel, papelão, ráfia e borracha para reciclagem, enquanto resíduos orgânicos podem ser aproveitados por meio da compostagem e materiais de madeira são transformados em biomassa. A gestão também contempla alternativas para resíduos específicos das atividades agroindustriais.
Um dos exemplos mais expressivos, de acordo com Reginaldo, está nas impurezas retiradas durante a limpeza e o beneficiamento dos grãos. Segundo levantamento apresentado pela cooperativa, aproximadamente 75,7 mil toneladas desse material encontram aproveitamento na alimentação animal. A sucata ferrosa representa outra frente de recuperação: 30,75 mil toneladas são destinadas à reciclagem, permitindo que o material retorne como matéria-prima para novos processos industriais.
Reginaldo informa que a lista inclui ainda varredura de fertilizantes aproveitada nas fazendas florestais; e pallets de madeira utilizados na produção de biomassa. De acordo com ele, são diferentes caminhos para materiais que, em vez de seguirem necessariamente para o descarte, podem encontrar aplicação em outras atividades.

Segundo Reginaldo, a recuperação desses materiais envolve uma rede de parceiros: empresas especializadas, transportadores, recicladores e destinadores participam do gerenciamento conforme a natureza e a classificação de cada resíduo. “Essas parcerias são fundamentais para que materiais com potencial de recuperação encontrem uma nova aplicação”, afirma o assessor ambiental.
O resultado também aparece na relação entre o gerenciamento ambiental e os custos operacionais. Alguns materiais recicláveis têm valor comercial, enquanto outras formas de aproveitamento ajudam a evitar despesas com transporte, tratamento ou disposição final. Reginaldo exemplifica que a varredura de fertilizantes utilizada nas fazendas florestais e os pallets aproveitados para a produção de biomassa são exemplos de alternativas que dão uso produtivo a materiais gerados nas operações da cooperativa.
Reginaldo ressalta ainda que a rastreabilidade é parte desse processo. De acordo com ele, o controle dos fluxos permite acompanhar a destinação dos resíduos e verificar se eles foram encaminhados de forma ambientalmente adequada e, sempre que possível, reinseridos nas cadeias produtivas.
O trabalho, porém, não termina com a destinação dos materiais já aproveitados. A cooperativa avalia continuamente alternativas para ampliar a recuperação e encontrar aplicações para resíduos que ainda não retornam à produção. “A busca por novas alternativas de destinação é um processo contínuo”, afirma o assessor ambiental. Segundo ele, o avanço da economia circular depende da capacidade de conectar quem gera determinado material a empresas que tenham condições técnicas e econômicas de utilizá-lo como matéria-prima.

Os resíduos urbanos, que incluem a parte industrial, ajudam a dimensionar o contexto no qual toda essa cadeia está inserida. Segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), o País gerou 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos em 2024. Desse total, 7,1 milhões de toneladas de materiais recicláveis secos foram encaminhadas para reciclagem. Entre os materiais enviados para recuperação, 64,8% foram coletados por catadores autônomos. A estimativa da entidade é de mais de 700 mil trabalhadores nessa condição no país.
O mesmo levantamento estima que o Brasil gerou 100,8 milhões de toneladas de resíduos da construção e demolição em 2024, volume superior ao de resíduos sólidos urbanos. Os números mostram que a recuperação de materiais envolve diferentes cadeias e atividades econômicas, das embalagens descartadas pelos consumidores aos resíduos gerados pelas obras.

Para que esses materiais voltem à economia, porém, não basta garantir a coleta e o transporte. É preciso organizar a separação, viabilizar o processamento, encontrar mercados compradores e assegurar que os resíduos recuperáveis tenham uma nova aplicação, como já avaliado por especialistas ouvidos pela reportagem. Nesse percurso, o poder público tem a responsabilidade de estruturar políticas de gestão, enquanto o cumprimento das obrigações ambientais por empresas e demais agentes também está sujeito à fiscalização.
Um dos elos dessa cadeia, o Ministério Público de Goiás (MPGO) começou a atuar na gestão de resíduos sólidos em 1997, quando a instituição cobrava dos municípios a construção de aterros sanitários para a destinação final do lixo. Com a Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída em 2010, o trabalho passou a incorporar outra prioridade: exigir que o poder público adote medidas para reduzir a geração de resíduos e aproveitar os materiais antes de encaminhar os rejeitos para disposição final.
O procurador de Justiça Juliano de Barros Araújo, integrante do Grupo de Atuação Especial de Meio Ambiente (Gaema) do MPGO, explica que a mudança alterou o enfoque da cobrança feita aos municípios. “Antes da lei, a política pública era o quê? Coletar e afastar o resíduo”, afirma.
Com a nova legislação, segundo ele, o Ministério Público passou a cobrar o cumprimento da hierarquia de gestão prevista na política nacional. A sequência inclui a não geração, a redução, a reutilização, a reciclagem e o aproveitamento econômico e energético dos materiais, antes da disposição final daquilo que não apresenta possibilidade de recuperação. “Nós começamos a cobrá-la dos municípios, com implantação de coleta seletiva”, explica Juliano. A atuação também envolve a inclusão social de catadores, a educação ambiental da população e a destinação dos rejeitos em aterros sanitários devidamente licenciados.
O procurador ressalta que a solução não depende necessariamente da construção de um aterro em cada município. Em razão da escala, a legislação passou a favorecer alternativas consorciadas, nas quais diferentes cidades compartilham uma estrutura de destinação.
Em Goiânia, o MPGO acompanha desde 2011 o processo de coleta seletiva, a inclusão social dos catadores e as ações de educação ambiental. O trabalho também alcança a implantação da logística reversa em Goiás, mecanismo que estabelece a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos e atribui às empresas obrigações relacionadas ao retorno de embalagens e outros materiais.
Segundo o procurador, o Ministério Público acompanhou, junto ao governo estadual, a elaboração do decreto que regulamenta a logística reversa no Estado e integra o comitê de governança responsável pelo tema. A instituição também cobra das empresas o cumprimento das obrigações previstas. “Hoje tem um grupo, um comitê de governança dessa logística reversa que o Ministério Público faz parte, junto ao estado de Goiás, e temos cobrado das indústrias que elas apresentem seus relatórios e façam efetivamente a logística reversa”, afirma Juliano.
A exigência não se limita à retirada das embalagens do ambiente. Para o procurador Juliano de Barros, o retorno precisa completar o percurso até a cadeia produtiva. “A logística reversa vem para isso, para poder dar essa responsabilidade às empresas que usam embalagens, principalmente, para que elas possam pegar de volta esse material”, diz. Ele acrescenta que “não é só pegar o material e fazer a coleta, é necessário fazer a coleta e reinserir na cadeia produtiva”.

Na avaliação do MPGO, a estruturação desse sistema pode contribuir tanto para a redução do consumo de recursos naturais quanto para a geração de trabalho e renda. Juliano observa que algumas cadeias produtivas já dependem do reaproveitamento de materiais por razões econômicas. O plástico é um exemplo citado por ele, já que por ser derivado do petróleo, seu reaproveitamento pode representar uma alternativa economicamente mais vantajosa diante do custo da matéria-prima. “Algumas cadeias produtivas já necessitam desse material para poder continuar produzindo, pelo custo de produção. O plástico é um derivado de petróleo. Então, com o custo do petróleo lá em cima, é muito mais vantajoso economicamente reaproveitar o plástico que não vai ser mais usado para fazer novos plásticos”, explica.
O procurador pondera, no entanto, que a logística reversa exige investimentos e organização para que as embalagens retornem. Segundo ele, o transporte de volta ainda representa um custo que não está incorporado ao preço dos produtos da mesma forma que o frete de entrega. Na avaliação dele, cabe às empresas estabelecer mecanismos para recolher os materiais e reinseri-los na circulação econômica.
Apesar dos avanços na destinação final, a gestão de resíduos nos municípios goianos ainda enfrenta desafios. Dos 246 municípios do Estado, 160 já haviam encerrado os lixões e encaminhavam os resíduos para aterros licenciados, segundo o levantamento apresentado pelo procurador na entrevista. Outros 86 ainda precisavam de medidas para encerrar essas áreas de disposição irregular.
O encerramento dos lixões, porém, não significa que todas as etapas da política de resíduos estejam implementadas. Juliano ressalta que também é necessário garantir coleta seletiva, separação dos materiais, compostagem e aproveitamento econômico e energético, destinando aos aterros apenas aquilo que não puder ser recuperado. “Mas, paralelo a isso, nós teríamos que exigir também que os municípios fizessem essas outras ações, e não tem nenhum município no estado que faça todas as ações”, reforça.
O procurador cita Goiânia como exemplo de município que possui coleta seletiva, mas ainda apresenta deficiências no serviço. Por isso, ele considera que Goiás está em um processo de evolução, sem que haja, até o momento, uma cidade que cumpra integralmente todas as frentes da gestão de resíduos.
Na avaliação de Juliano, “uma das principais barreiras é cultural, já que o hábito de considerar sem valor tudo aquilo que foi descartado dificulta a separação e o encaminhamento correto dos materiais”. Para mudar esse comportamento, ele defende investimentos em comunicação e educação ambiental, além da implantação e divulgação dos sistemas municipais de coleta seletiva. “Nós temos uma visão negativa coletiva do lixo, isso é natural. O lixo é aquilo que eu não quero mais”, afirma. Para ele, é necessário que a população compreenda que materiais descartados podem ter valor e que a separação correta é parte do funcionamento da cadeia.
O procurador também explica que a obrigação de separar os resíduos depende da existência de um sistema municipal de coleta seletiva devidamente implantado e comunicado à população. Ele acrescenta que, quando há um programa oficial, o cidadão passa a ter a obrigação de separar os materiais conforme as orientações do serviço.
A mudança, portanto, envolve a atuação conjunta de municípios, empresas, população e trabalhadores da reciclagem. Para ele, enquanto o poder público precisa estruturar os serviços e orientar os cidadãos, as empresas devem cumprir suas responsabilidades na logística reversa, e os materiais recuperáveis precisam encontrar caminhos para voltar à produção.

É nessa conexão que o procurador situa o potencial econômico da economia circular. “A lei, ela mudou o conceito. Antes lixo era uma coisa que ninguém queria, agora não, agora é um bem dotado de valor econômico. De potencial agregação de valor, de renda, de trabalho e renda, e nós temos que garantir isso na implantação das políticas públicas”, afirma.
Na avaliação do procurador, o objetivo é alterar a lógica linear de extrair recursos naturais, fabricar produtos, consumir e descartar. “A noção é para que reinserir esse material na cadeia produtiva, por quê? Porque os recursos naturais estão ficando escassos. Então, precisamos diminuir a nossa pegada ambiental”.
Ao defender essa mudança, Juliano relaciona o retorno dos materiais à redução da necessidade de extrair novos recursos, à atividade industrial e à inclusão social. “Com isso nós podemos vamos fazer a circularidade da economia, gerando mais recursos internamente e evitando com isso pegar novos bens ambientais naturais, transformando-os em matéria-prima para a produção econômica”, diz.

Entre os especialistas entrevistados, todos destacaram a importância da rastreabilidade na cadeia de gestão dos resíduos sólidos e da economia circular. Atualmente, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente utiliza o MTR-GO (Manifesto de Transporte de Resíduos) para acompanhar geração, transporte e destinação de resíduos.

O sistema permite identificar o gerador, o transportador, o empreendimento que recebe o material e o tipo de destinação declarado. Mas, segundo a gerente de Instrumentos e Apoio à Política de Resíduos Sólidos da Semad, Andreia Alves do Nascimento, existe uma diferença importante entre registrar um resíduo como encaminhado à reciclagem e comprovar que ele efetivamente retornou à cadeia produtiva. Ela explica que parte do material pode ser perdida durante a triagem e o processamento.
Por isso, a avaliação da circularidade precisa chegar além da saída da indústria. “Recuperar o material é uma etapa, mas ele só volta à cadeia produtiva quando encontra aplicação em um novo processo de fabricação”, afirma. A observação também aponta para outro desafio, de acordo com ela, que é ampliar o número de indústrias que utilizam matéria-prima reciclada. “O objetivo é aproximar as pontas: quem gera, quem coleta, quem processa e quem compra”.
Andreia Alves cita ainda que na logística reversa de embalagens, regulamentada pelo Decreto Estadual nº 10.255/2023, o Estado consolidou um dos mais inovadores modelos do país, baseado em rastreabilidade, transparência e segurança jurídica, permitindo a recuperação de aproximadamente 158 mil toneladas de resíduos recicláveis (plástico, papel e papelão, vidro e metal).
Ela informa que em apenas três anos de implementação, houve elevação do índice estadual de recuperação de embalagens de 2,19 para 7,23 quilos por habitante. Com as cooperativas responsáveis por mais de 53% do material recuperado, também houve a instituição dos Créditos de Logística Reversa, que reconhecem e remuneram os operadores do sistema pelos resultados efetivamente alcançados, fortalecendo financeiramente a cadeia da reciclagem e estimulando investimentos privados na economia circular.

A gerente da Semad reforça que esses instrumentos contribuem para criar condições para que materiais antes tratados apenas como custo de descarte passem a adquirir valor econômico. “A Política Estadual de Incentivo à Economia Circular estimula o reaproveitamento de materiais e a formação de mercados para produtos reciclados. No âmbito da logística reversa, as empresas responsáveis pelas embalagens devem assegurar o cumprimento dos percentuais de recuperação estabelecidos para cada ano-base, promovendo o retorno dos materiais ao ciclo produtivo. Esse mecanismo contribui para o fortalecimento da reciclagem, a recuperação de resíduos recicláveis e a consolidação das cadeias de valor desses materiais. Para as cooperativas de catadores, esse processo pode representar uma fonte adicional de receita, além da comercialização dos materiais recicláveis”, complementa.


Se a economia circular depende da conexão entre quem gera, transporta, processa e compra os materiais, a tecnologia pode ajudar a transformar essa rede em uma cadeia rastreável, capaz de produzir informações para decisões ambientais e econômicas. Mais do que registrar o destino de um resíduo, as ferramentas digitais permitem acompanhar volumes, características, custos, documentação e possibilidades de reaproveitamento, identificando oportunidades que poderiam passar despercebidas na rotina industrial.
É nesse campo que atua a Econtrole, empresa que há mais de 12 anos desenvolve soluções tecnológicas para a gestão ambiental, inicialmente voltadas às empresas de transporte e tratamento de resíduos. Segundo o diretor de Negócios e Sustentabilidade, Maxwel Otsuka, a experiência com as particularidades desse mercado levou à criação da Econtrole Inovação, há cerca de três ou quatro anos, para desenvolver tecnologias a partir das necessidades identificadas junto aos diferentes participantes da cadeia ambiental. “Dessa forma, fomos um dos primeiros softwares a atender especificamente as empresas de gestão de resíduos”, afirma.
A atuação, que começou com transportadores e destinadores, foi ampliada para outras demandas ambientais, como licenciamento, conformidade legal e gestão de práticas ESG (sigla em inglês para Environmental, Social, and Governance/Ambiental, Social e Governança). Para isso, a empresa mantém parcerias de pesquisa e trabalha com profissionais com mestrado e doutorado nas áreas de tecnologia e meio ambiente, além de consultores que ajudam a identificar problemas e desenvolver soluções.
Um dos desafios está em transformar um conjunto de exigências legais, licenças, procedimentos e regras internas em processos que as empresas consigam acompanhar de maneira integrada. “É um emaranhado de exigências, e nós as ajudamos a integrar tudo isso para aprimorar o processo ambiental”, explica o diretor. A proposta é reunir diferentes informações em uma única plataforma, facilitando o acompanhamento das obrigações e das operações mesmo quando a empresa atua em municípios, estados ou países com legislações distintas.
Na gestão de resíduos, Maxwel diz que esse controle começa por duas informações fundamentais: a quantidade gerada e as características de cada material. De acordo com ele, saber quanto é produzido, identificar sua composição, verificar as exigências legais e conhecer os custos envolvidos permite comparar alternativas de destinação e avaliar quais podem trazer melhores resultados. O diretor acrescenta que um material encaminhado integralmente para aterro, por exemplo, pode ser separado em diferentes frações, permitindo que parte continue para a disposição final e outra seja comercializada ou reaproveitada, desde que existam condições técnicas e legais para isso.
“A empresa precisa, primeiramente, quantificar, saber exatamente quanto resíduo gera. Em seguida, vem a qualificação, identificar que tipo de resíduo é para definir o tratamento adequado, checar a conformidade com a legislação e apurar os custos”, afirma Maxwel. Com essas informações, ele informa que a indústria pode identificar oportunidades de redução, escolher alternativas compatíveis com seus recursos e avaliar se determinados materiais podem ser destinados à reciclagem, à compostagem ou a outras formas de valorização.
A tecnologia também ajuda a acompanhar o percurso dos resíduos depois que eles deixam a fábrica. O diretor relata que, na logística, a inteligência artificial já pode automatizar a comunicação e a verificação da documentação de prestadores de serviços de coleta e tratamento, além de monitorar dados operacionais, custos e desempenho de fornecedores.
Esse acompanhamento tem implicações que superam a organização administrativa. A contratação de um serviço de menor custo, sem a verificação das condições legais do transportador ou do destinador, pode expor a indústria a riscos ambientais e jurídicos, afirma Maxwel. Por isso, ele destaca que a tecnologia pode monitorar a cadeia e gerar indicadores quantitativos e qualitativos para apoiar a tomada de decisões e demonstrar a conformidade das operações.

A empresa também desenvolve o Econtrole ESG Global, projeto selecionado e fomentado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) e pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). A plataforma foi concebida para integrar informações ambientais, documentação ESG, compliance, normas técnicas, regras internas e boas práticas corporativas. A proposta é simplificar o acompanhamento das obrigações e relacionar a gestão ambiental à estratégia de negócios.
Maxwel explica que, com o auxílio da inteligência artificial desenvolvida para o setor, a ferramenta pretende verificar o atendimento às exigências legais e apoiar a avaliação das práticas de sustentabilidade adotadas pelas empresas. De acordo com ele, a integração também pode facilitar o acompanhamento de indicadores ESG, reunindo informações que muitas organizações ainda encontram dificuldade para consolidar e monitorar.
Para o diretor da Econtrole, esse é um caminho para mudar a maneira como a indústria enxerga a gestão de resíduos. Em vez de tratá-la apenas como uma obrigação para evitar multas ou garantir a renovação de licenças, ele enfatiza que a empresa pode utilizar os dados para identificar perdas, reduzir despesas e encontrar novas fontes de receita. “Uma solução tecnológica começa a gerar valor econômico para a indústria quando economiza tempo”, afirma. Maxwel acrescenta que a classificação correta dos materiais e o monitoramento das operações podem ajudar a identificar alternativas de tratamento mais econômicas e sustentáveis, inclusive quando existe possibilidade de comercialização de recicláveis e subprodutos.
A inovação, porém, pode começar ainda antes da geração do resíduo. A Econtrole avalia, em parceria com o Parque Tecnológico da Universidade Federal de Goiás (UFG), projetos para incorporar agentes de inteligência artificial capazes de analisar a geração de resíduos desde a concepção dos produtos. A proposta é utilizar essas informações para antecipar problemas e orientar mudanças na engenharia de materiais, nas embalagens e nos processos de fabricação. “Isso permitirá prever, já na fase de fabricação, o potencial de geração de resíduos de um produto, orientando a engenharia de materiais e de produção a alterar embalagens ou processos para gerar menos resíduos ou evitar rejeitos”, explica Maxwel.
Essa perspectiva amplia o alcance da tecnologia na economia circular. Além de acompanhar o que ocorre com um material depois do descarte, os sistemas podem ajudar a indústria a avaliar previamente como reduzir sua geração, melhorar a separação e escolher alternativas de aproveitamento. Maxwel informa que a possibilidade de cruzar dados e identificar parceiros também pode aproximar empresas que precisam destinar determinados materiais de outras que tenham condições de utilizá-los como insumos.
Para ele, Goiás já possui instrumentos de controle ambiental e de uma legislação que oferece bases para avançar, mas ainda precisa fortalecer os incentivos às empresas que adotam práticas sustentáveis e manter a fiscalização. O diretor defende mecanismos financeiros que reconheçam quem investe efetivamente em sustentabilidade, sem abrir mão do combate a práticas que apenas aparentam compromisso ambiental.

