Logo

Do campo para seu lixo: A longa viagem do desperdício

WhatsAppFacebookLinkedInX
15.07.2018 - 08:16:05
Kamylla Rodrigues 
 
Goiânia – Olhe para o seu lixo doméstico. O que tem nele? Comida? Na casa de Lucia Nunes tem o mamão que estava esquecido na geladeira, alguns tomates amassados, cascas de legumes usados no almoço, e a verdura cozida deixada no prato pelo filho. A condenação desses itens na casa dela é proveniente de um hábito comum, que gera um desperdício de 41 mil toneladas de comida diariamente, o que daria para alimentar 25 milhões de pessoas por dia.
 
Uma pesquisa encomendada pela multinacional de alimentos, bebidas e produtos de limpeza Unilever, conduzida pela Edelman, com apoio da Food and Agriculture Organization (FAO), órgão da Organização das Nações Unidas (ONU), e divulgada em junho deste ano, mostrou que o lixo de seis em cada dez lares brasileiros contém comida ainda boa para o consumo. Lucia assume que vê o desperdício como problema, mas acha que isso não causa tanto impacto em sua vida, ainda. "A gente segue aquela linha: é melhor sobrar do que faltar", diz ela. 
 
Essa sobra não tem impacto só na vida da família de Lucia. O desperdício impacta o mundo todo, como ressalta o analista de comunicação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Gustavo Porpino. "O brasileiro típico percebe que jogar comida fora pode prejudicar o orçamento familiar, mas não relaciona o problema ao meio ambiente. Do ponto de vista social, o desperdício de alimentos prejudica os esforços de enfrentamento da fome. Podemos ampliar a oferta de alimentos por meio da redução do desperdício, o que representa a vantagem de reduzirmos o uso de terra agricultável e diversos insumos necessários para produzir alimentos. Também há uma janela de oportunidades para incrementarmos a distribuição do excedente, fortalecendo a atuação dos bancos de alimentos", diz. 
 
Jogar comida fora é também desperdiçar dinheiro. Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) realizada pelo IBGE, cerca de 25% do orçamento familiar é destinado à alimentação. Pegando a renda da família de Lucia, que é de dois salários mínimos (R$ 1.908), em média, R$ 477 são destinados apenas com a alimentação. Se considerar a média mundial, que aponta que 30% dos alimentos são desperdiçados, essa família gastou R$ 143 com alimentos que, no final das contas, foram parar no lixo. Ao parar para analisar a conta, a dona de casa arregala os olhos. "Vamos repensar o consumo e a forma como descartamos comida. Tanta gente passa fome por ai, né?!", observa. 
 
Como tratado na primeira reportagem desta série, o problema da insegurança alimentar ainda atinge 22% da população, segundo os dados de 2013 do IBGE, e está mais relacionado à distribuição do que à produção insuficiente. O Brasil está entre os dez países que mais desperdiçam comida no mundo e 14 milhões passam fome no país. 
 
Gustavo Porpino atribui a possibilidade de desperdício ao gosto pela fartura, típico da cultura latina. "O brasileiro gosta de abundância e diversidade sobre a mesa. A maioria da população pertence à classe C, e neste segmento há maior valorização da fartura sobre a mesa. As porções tendem a ser mais fartas no preparo da comida nas famílias de classe média baixa porque também simbolizam riqueza. É uma forma das pessoas se distanciarem da situação de pobreza e mostrarem para os membros da família que, mesmo em tempos de crise, há fartura na mesa. O problema desta valorização da abundância é que nem sempre as sobras das refeições são reaproveitadas e terminam sendo descartadas no lixo". 
 
 
A pesquisa reforça o discurso do pesquisador: 46% dos brasileiros assumem que cozinham comida em excesso, 54% compram comida além do necessário e 37% adquirem opções extras para satisfazer o gosto de diferentes membros da família. Os alimentos mais desperdiçados são os perecíveis, como saladas, vegetais e frutas. Outro vilão apontado pela pesquisa é comprar alimentos diferentes dos habituais para testar, que acabam não agradando (31%).  Na hora de decidir se joga ou não fora, o brasileiro leva em conta cheiro e aparência (85%) e prazo de validade expirado (83%).
 
Cegueira na geladeira 
A pesquisa ouviu 4 mil pessoas, sendo 2 mil norte-americanos, mil brasileiros e mil argentinos, com idades entre 18 e 64 anos, no período de agosto a setembro de 2017. O estudo buscou entender em detalhes um comportamento chamado de "cegueira da geladeira". Como o nome indica, trata-se do hábito de não ver ou ignorar alimentos que estão em perfeitas condições de uso. Quem compra e desperdiça assume que o grande problema é a falta de inspiração (81%). Muitos olham para a geladeira, mas não sabem o que cozinhar ou comer (78%).
 
 
 
Na contramão do desperdício
O desperdício presente em muitas casas não tem espaço no restaurante do Mercure Goiânia Hotel. Comandada pelo chef Humberto Marra, a cozinha minimiza o que vai pro lixo. No prato oferecido para a equipe de reportagem, talos de couve, cuentro e salsa, cascas de cenoura, chuchu e beterraba. Tudo isso refogado com cebola, alho e sal, agregados a banana frita e farofa de carne. O prato acompanha um suco de manga com a casca. Quem não acompanhou o processo nem nota que alguns dos ingredientes utilizados no prato são facilmente descartados por muitas famílias. "Aqui nós utilizamos os alimentos em sua integralidade. Nenhuma comida é lixo quando se é aproveitável", explica o chef. 
 
  
À esquerda, cascas de beterraba, cenoura e chuchu. À direita, talos de couve, salsa e cuentro. (Foto: Marcela Patrocínio)


Faroda feita pelo Chef Humberto para a equipe de reportagem (Foto: Marcela Patrocínio)
 

No restaurante, os legumes, verduras, frutas e hortaliças são muito bem lavados e servidos integralmente – com casca e talos. "Nossos hóspedes já se acostumaram e não separaram nada no prato. É uma questão de mudança de comportamento diante da comida, de respeito com o que vem da terra e que consome muitos de nossos recursos. Além disso, parte dos nutrientes desses alimentos está mais concentrado no que muitos descartam", reforça Humberto. Os talos de couve, de salsa e coentro também viram vinagrete. Sementes e aparas de tomate se transformam em molho sugo. Casca de banana vira doce para recheio de bolos. 

O restaurante também faz conservas de produtos que estão sobrando na geladeira. Quiabo, pepino, jiló, beterraba viram conserva. A pimenta vira geleia. A laranjinha vira doce. Tudo tem um destino, menos o lixo. "Comecei a mexer com terra há 40 anos e hoje eu vivo disso. Estar na cozinha é se importar com o outro, porque eu cozinho para o outro. E aproveitar integralmente cada alimento tem a ver com a nossa preocupação com o outro. Infelizmente, isso ainda não é uma prática comum nos restaurantes. Temos um caminho longo a ser trilhado, mas se cada um fizer em sua própria casa já é um ótimo começo. Isso é saúde, é sustentabilidade e é economia", pontua. 
 


Chef Humberto e equipe (Foto: Marcela Patrocínio)
 
Humberto ainda utiliza os itens que não são reaproveitáveis no consumo, como a casca de ovo por exemplo, para fazer compostagem que mantém seu projeto atual que é uma horta urbana no oitavo andar do hotel. Tem ervas para chá e medicinais, temperos e hortaliças em desenvolvimento. As plantas são cultivas em vasos e em caixinhas de leite. O projeto da horta, que enche os olhos de quem plantou a primeira semente, será em breve aberta aos hóspedes. "Eles poderão vir até aqui, escolher e colher o que vão consumir. Produtos orgânicos sustentáveis  cultivados com amor e consciencia. Essa iniciativa abre portas para sensibilizar clientes sobre a importância do aproveitamento total dos alimentos, inserção de espécies que sumiram da mesa dos goianos, a valorização da 'fruta feia' e a alimentação saudável", diz Humberto, que conta com uma equipe engajada.
 

  
Projeto do Chef Humberto, horta urbana ganha espaço no oitavo andar do hotel (Foto: Marcela Patrocínio)

 
Servidora pública e presidente da ONG Eco Amor, Jordana Mendonça é uma das militantes da causa. Há dois anos, ela também utiliza em casa a técnica da compostagem, que evita que resíduos causem contaminação de solos e aquíferos. Essa técnica ainda aproveita os nutrientes dos alimentos ao torná-los disponíveis novamente para a planta. A compostagem converte resíduos em compostos orgânicos ricos em nutrientes, substâncias húmicas e carbono, que servem de fertilizantes para as plantas. "Assim, em vez de virar lixo e ocupar espaço em aterros e lixões, ele servirá de insumo. Eu comecei a fazer isso quando fui selecionada em um projeto de São Paulo e ganhei a composteira. Costumo dizer que meu primeiro bicho de estimação foi a minhoca, uma vez que uso a técnica de vermicompostagem. Depois que eu comecei a fazer isso, meu lixo diminuiu significativamente", conta ela.

Jordana afirma que existem vários materiais e formas para se iniciar uma compostagem, que requer cuidados. "Têm composteiras muito caras no mercado, mas a pessoa que quer iniciar pode usar uma caixa de manteiga, por exemplo. Muitos ainda têm preconceito e acham que esse tipo de processo atrai bichos, o que não é verdade. Toda manipulação de alimento em compostagem requer cuidados e acaba se tornando um hábito", diz ao dar dicas para quem tem vontade de iniciar um trabalho parecido. "O primeiro passo é uma reeducação alimentar: comer melhor, o que significa reduzir comida industrualizada. Depois, procurar se informar. A internet é uma aliada muito boa, já que conseguimos acomanhar muitos tutorias. Quem faz a compostagem diminui muito a geração de lixo e isso é cuidar do lugar onde vivemos", ressalta. 
 


Composteira fica na sacada da casa de Jordana (Foto: Jordana Mendonça)
 
Os alimentos depositados em aterros sanitários, ou simplesmente descartados no ambiente, produzem metano, um gás com efeito estufa 23 vezes mais potente do que dióxido de carbono, aumentando o custo ambiental. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, os compostos orgânicos passíveis de compostagem, como é o caso das frutas e hortaliças, representam aproximadamente 60% do total de resíduos gerados. Isso demonstra a importância de se repensar os padrões de consumo de alimentos, assim como alternativas mais sustentáveis para a destinação desses resíduos. 
 
Formar cidadãos conscientes 
De acordo com o pesquisador da Embrapa, Gustavo Porpino, o Brasil precisa investir mais em educação nutricional e construir parcerias que envolvam agentes públicos, varejo e indústria de alimentos. "Faltam fortalecer programas de educação nutricional nas escolas e reaproximar o consumidor urbano da produção de alimentos. As crianças podem ser agentes de mudança comportamental em suas famílias, que, se passarem a perceber que jogar comida fora é muito mais do que perder apenas o alimento, poderemos avançar com o consumo sustentável", pontua.

Ele reforça que para reaproximar o consumidor da produção de alimentos são necessárias ações diversas, desde campanhas de comunicação nos pontos de venda até atividades extra-classe nas escolas para que as crianças e jovens compreendam todo o esforço necessário para produzir alimentos. "Investir em hortas comunitárias e alinhar os bancos de alimentos com ações educativas é um bom caminho", aponta. 

Gustavo complementa que o problema envolve todos os elos da cadeia agroalimentar e por isso é necessário uma aproximação maior entre esses agentes. Um dos eixos de ação da Estratégia Nacional de Combate às Perdas e ao Desperdício de Alimentos, aprovada este ano pela Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional (CAISAN), é comunicação e educação. "O desafio é conseguirmos engajar o setor privado, destravar os projetos de Lei de incentivo as doações de alimentos e temos mais recursos para campanhas educativas que contribuam com mudança comportamental". 

 
Você pode mudar o mundo
Executivo, legislativo, agricultores, comerciantes e a indústria alimentícia são responsáveis pela mudança e diminuição do problema. Mas os consumidores também têm sua parcela de responsabilidade e, para contribuir com o planeta, não depende de investimento, apenas de mudança de comportamento. Que tal começar hoje?

Por meio do projeto “Hortaliça não é só salada”, a Embrapa disponibiliza em seu site, entre outros conteúdos, informações sobre como identificar os produtos de melhor qualidade, como acondicionar para que durem por mais tempo e como consumir em diferentes tipos de preparações.  

 
Outro exemplo é a ONG Banco de Alimentos, uma associação civil que atua com o objetivo de minimizar os efeitos da fome e combater o desperdício de alimentos. Eles disponibilizam também neste site conteúdos sobre como conservar os alimentos mais perecíveis e receitas utilizando o alimento integralmente. 
 
Campanhas como a Sem Desperdício, iniciativa da Embrapa, WWF Brasil e FAO, também são importantes. O perfil ‘Sem Desperdício Brasil’ no Facebook pode ser acessado e consultado para aumentar o engajamento no enfrentamento do desperdício de alimentos. 
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Adriana Marinelli

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Suporte
01.11.2026
Goiás registra aumento de 88% nos atendimentos psicológicos a mulheres em situação de violência

A Redação Goiânia – O Centro de Referência Estadual da Igualdade (Crei), em Goiás, registrou aumento de 88% nos atendimentos psicológicos a mulheres em situação de violência nos primeiros quatro meses de 2026. Foram 363 atendimentos entre janeiro e abril, ante 193 no mesmo período de 2025. A unidade também contabilizou 156 orientações jurídicas no […]

ADVOCACIA
01.11.2026
OAB-GO celebra 38 anos da Constituição Federal e homenageia advogados constitucionalistas

A Redação Goiânia – A defesa da ordem constitucional e do Estado Democrático de Direito marcou a solenidade promovida pela Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Goiás (OAB-GO), por meio da Comissão de Direito Constitucional e Legislação (CDCL), em comemoração aos 38 anos da Constituição Federal de 1988. Realizado nesta semana, no Auditório Eli […]

Justiça
01.11.2026
Nêmesis: ferramenta tecnológica do MPGO assegura proteção de crianças e adolescentes contra crimes sexuais virtuais

Ludymila Siqueira Goiânia – Cabelos longos, 1,63 metro de altura, quase 14 anos. Vaidosa, gosta de estar sempre arrumada, com maquiagem no rosto, roupas novas e unhas feitas. A rotina é a mesma: acorda cedo para ir à escola, à tarde vai para o estágio e, à noite, chega em casa. O celular a acompanha durante […]

Congresso Nacional
31.10.2026
PEC da Segurança Pública deve ser votada na terça-feira (3/11)

Brasília – O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), marcou para próxima terça-feira (3) a votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 18 de 2025, conhecida como PEC da Segurança Pública. De autoria do Executivo, a proposta estabelece penas mais duras e regimes de prisão mais restritos para chefes de facções e milícias e […]

Educação
31.10.2026
Senai oferece 945 vagas para vestibular 2027/1 com seis novos cursos em Goiânia

A Redação Goiânia – As Faculdades Senai Goiás abriram inscrições para o vestibular do primeiro semestre de 2027, com 945 vagas distribuídas entre Goiânia e Anápolis. A principal novidade do processo seletivo é a inclusão de seis novos cursos na Faculdade Senai Ítalo Bologna, na capital: o bacharelado em engenharia elétrica e os tecnólogos em […]

MEIO AMBIENTE
31.10.2026
Goiânia supera capitais internacionais em desempenho ambiental no ranking da Oxford Economics

A Redação  Goiânia – Goiânia conquistou a 110ª posição no indicador ambiental da edição de 2026 do Global Cities Index, ranking da consultoria britânica Oxford Economics que avalia mil cidades ao redor do mundo. Goiânia superou cidades como Nova York, Boston, Dallas e Tóquio, além de ficar à frente de 11 das 29 cidades brasileiras […]

Mudança
31.10.2026
Trânsito no entorno de cemitérios será alterado durante o Dia de Finados em Goiânia

A Redação  Goiânia – A Prefeitura de Goiânia prepara uma operação de trânsito no entorno de 5 cemitérios municipais para o Dia de Finados, celebrado na segunda-feira (2/11). O planejamento inclui interdições totais e parciais, restrições de estacionamento e equipes para orientar os visitantes nos cemitérios Santana, Jardim das Palmeiras, Parque, Jardim da Saudade e Vale […]

PREVISÃO
31.10.2026
Goiás tem alerta de tempestades para o feriado prolongado

Ludymila Siqueira Goiânia – Prepare o guarda-chuva! A previsão é de um feriado prolongado com muita chuva em todo o Estado de Goiás. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu alerta amarelo para chuvas intensas e tempestades. Há risco de ventos fortes, que podem chegar a 60 quilômetros por hora. A umidade relativa do ar deve ficar […]