João Gabriel de Freitas
Reunidos no final da tarde de quarta-feira (16/11) na sede do Conselho Regional de Medicina de Goiás (Cremego-GO), diretores e ex-diretores das quatro principais unidades de saúde do Estado seguiam atônitos e aguardando um posicionamento oficial do secretário Estadual de Saúde, Antônio Faleiros. Mal sabiam que poucas horas atrás, depois de se reunir com o governador Marconi Perillo, Faleiros já havia confirmado o afastamento de todos por 15 dias para se defenderem das denúncias levantadas pela Operação Fundo Corrosivo, iniciada em setembro de 2010 mas deflagrada apenas na segunda-feira, pelo Ministério Público.
Com a decisão, não respondem mais em suas atuais funções, pelo prazo determinado, o ex-diretor do Hospital Urgência de Goiânia (Hugo), Salustiano Gabriel Neto; o ex-diretor do Hospital Geral de Goiânia (HGG), André Luiz Braga das Dores; o diretor do Hospital de Doenças Tropicais (HDT), Boaventura Braz de Queiroz; e o diretor-geral do Hospital de Urgências de Aparecida de Goiânia (Huapa), Gelson José do Carmo.
Todos os diretores e ex-diretores são acusados por omissão. Outras 17 pessoas respondem por desvios, formação de quadrilha ou aplicação indevida de recursos do Fundo Rotativo – voltado para compras emergenciais na área da saúde, sem licitação, até o valor de R$ 8 mil. “O Conselho Regional de Medicina está estarrecido pela forma como o Ministério Público apresentou tais acusações. Todas as ações praticadas pelos diretores foram autorizadas pela Secretaria de Saúde. Estamos também assustados com o anúncio feito pelo governador (na terça-feira) via twitter”, disse inicialmente o presidente do Cremego, Salomão Rodrigues Filho, posicionando-se como um porta voz dos diretores em entrevista coletiva.
Em conversa à parte, todos foram unânimes em dizer que o fundo é usado de fato para outras compras, com valor acima de R$ 8 mil, mas com a orientação da própria SES. “O problema é que este fundo rotativo é o único recurso que a gente tinha para recorrer, por exemplo, para comprar medicamentos na pandemia de H1N1, em 2009”, diz Boaventura Braz, diretor do HDT. “Todos os hospitais geridos pelo Estado usam o fundo acima do limite, fracionando as compras. Ainda é assim que está funcionando”, alega.
“Já estive presente em reuniões com a ex-secretária de Saúde Eny Ribeiro em que ela orientava os diretores a usarem o fundo de forma fracionada, para compras emergenciais. O governo tinha total conhecimento disso”, reforçou o presidente do Cremego, que trazia à mão dois documentos, um deles de janeiro de 2011, assinado por Marconi Perillo, que revigora até 31 de dezembro o prazo de adequação dos fundos rotativos. Outro documento, a portaria 55/2011 da Secretaria de Saúde, demonstra a inteira responsabilidade da SES para indicar os responsáveis pela gestão e distribuição do fundo rotativo.
Ainda sem serem citados pelo MP ou comunicados pela SES, os diretores contaram que seguiam trabalhando na quarta-feira. “Trabalhei normalmente, como nos outros dias”, disse Salustiano Gabriel Neto, hoje superintendente de Controle e Avaliação Técnica em Saúde (Scats) da SES. “Acabei de chegar do hospital (HGG), onde cumpria minhas funções”contou André Luiz Braga.
Para o presidente do Cremego, Samolão Filho, está havendo uma transferência de responsabilidade da situação para os diretores. “Solicitamos que nenhum médico assuma as vagas que forem deixadas vagas, tomando-se por base o Código de Ética Médica”, convoca Salomão. “Nós somos uma pequena parte desse processo todo e estão nos colocando como coordenadores de tudo”, ponderou Gelson José.