Jales Naves
Especial para o AR
Goiânia – Comemorado mundialmente na data de seu padroeiro, São Jorge, 23 de abril, o Dia do Escoteiro será lembrado nesta sexta-feira, 23, pelos integrantes do Grupo de Escoteiros ‘Caio Martins’, que funcionou durante dois anos, de 1962 a 1964, na unidade do Serviço Social do Comércio (Sesc) no bairro de Campinas, em Goiânia. Foi uma rica e intensa atividade cívica, ao ar livre, e que está chegando aos 60 anos de fundação. Formado inicialmente por oito jovens adolescentes, entre 12 e 14 anos, compunha a Patrulha do Galo em suas empreitadas pelos campos e matas de regiões do entorno da Capital, quando aprenderam e tomaram gosto pelo envolvimento com a comunidade, participando e ajudando ao próximo em suas carências.
Na época, deram sequência aos princípios do escotismo, criado em 1907, na Inglaterra, pelo tenente-general Robert Baden-Powell, do Exército britânico, aproveitando os elementos positivos de camaradagem, iniciativa, coragem e autodisciplina presentes na sua vida militar, e técnicas úteis no desenvolvimento dos jovens para criar um novo movimento educacional.
Dividido por faixa etária, o programa educativo do escotismo trabalha as seis áreas de desenvolvimento: físico, intelectual, social, afetivo, espiritual e de caráter, com base nas características individuais de cada fase. Essa estrutura foi pensada para se inserir no cotidiano dos jovens, conforme suas necessidades de crescimento e do meio onde eles se desenvolvem, adaptando-se a diferentes realidades e respeitando sua autonomia. Esse sistema de valores é baseado na Promessa e na Lei Escoteira, “ajudando a construir um mundo melhor, onde as pessoas se realizem como indivíduos e desempenhem um papel construtivo na sociedade”.
Na escolha do nome, o grupo homenageou o escoteiro Caio Vianna Martins, que integrava o Grupo de Escoteiros ‘Afonso Arinos’, de Belo Horizonte, e era símbolo do movimento no país. Ele tinha 15 anos de idade e participava de uma excursão com outros 25 escoteiros a São Paulo, em trem da Central do Brasil, quando, na madrugada do dia 19 de dezembro de 1938, este se chocou com um trem cargueiro, que vinha em sentido contrário, próximo a Barbacena, MG; provocou, até então, o mais grave desastre ferroviário em território brasileiro, no qual morreram cinco e ficaram feridas 44 pessoas.

Patrulha do Galo (Foto: álbum de João Evangelista)
Caio, na época monitor da Patrulha Lobo, recebeu uma forte pancada na região lombar durante o choque, o que mais tarde revelou-se mortal, e mesmo assim persistiu em ajudar os outros escoteiros. O socorro só chegou às 7h, para transportar os feridos para um hospital na cidade; como não havia macas para todos e ao ver ao redor dele pessoas mais necessitadas, recusou-se a ser levado nessa cama de lona, dizendo: “Um escoteiro caminha com as próprias pernas”. Foi andando com os amigos até a cidade; ao chegar ao hotel sentiu-se mal e foi levado à Santa Casa, onde faleceu, por conta do rompimento de vísceras e um grave derrame interno.
Como surgiu o grupo
A primeira reunião do Grupo de Escoteiros ‘Caio Martins’, que reuniu jovens que residiam próximos àquela unidade do Sesc, foi realizada no dia 31 de dezembro de 1962, e a Promessa aconteceu dois meses depois, no dia 3 de março de 1963. Num período em que a violência não era tão grande como atualmente e havia maior confiança entre as pessoas, as viagens eram feitas em caronas, com os motoristas sempre atenciosos e prestativos, alguns já conhecidos do pessoal ou de seus familiares.
Os trabalhos do grupo foram coordenados pelo chefe João Evangelista, na época com 17 anos, que tinha participado, pouco menos de seis meses antes, no início de julho de 1962, de um treinamento específico, de três dias, em Rio Verde, GO. Nessa ocasião ele fazia o Curso de Mecânico de Máquinas, na então Escola Técnica Federal de Goiás, que oferecia o melhor curso técnico da região Centro-Oeste, e se tornou ferramenteiro.
As reuniões eram uma vez por semana, geralmente aos sábados, para uma hora de discussões sobre assuntos diversos, e atividades com bola, para desenvolver habilidades, destreza, memória e observação. Os acampamentos eram nos finais de semana, de dois dias, saindo no sábado pela manhã e retornando no domingo à tarde, a cada dois ou três meses. Como numa família, cada um se responsabiliza por uma atividade e divide tarefas; inclusive, editaram um jornalzinho, “O Ipê”. Escola de liderança, o escotismo estimula a participação e a vocação de cada um, é sempre positivo em suas iniciativas, e oportuniza o crescimento individual e o envolvimento responsável com a comunidade.
Observador, como todo chefe era orientado para analisar e acompanhar os passos de seus comandados, João anotou, e confirmou mais tarde, como se revelaram dois escoteiros do grupo, irmãos, um com 14 anos, e outro com 12. Sevan Naves, o mais velho, monitor da patrulha, era muito metódico, sério nas suas atividades e tinha o hábito de olhar as pedras no caminho, que catava e colocava no bolso, levando-as para casa, e que se tornou geólogo. Jales Naves, o mais novo, era curioso, buscava se informar, ficar por dentro do que via, queria saber o que acontecia, anotava, era muito crítico, ao contrário da maioria, mais desligada dos fatos, e se tornou jornalista.
Dois outros irmãos, com a mesma faixa etária, participaram do grupo: Luiz Faber Ribeiro e Renato Nunes Ribeiro, que moravam na rua Santa Luzia, eram muito unidos entre eles e os pais e muito ativos.
Bananas e iniciativa
Uma das primeiras excursões foi ao sítio Bacuri, de propriedade de José Rodrigues Naves Júnior, pai de dois escoteiros, no município de Goianira, uns 20 km de Goiânia, que era servido por um pequeno córrego e tinha um bananal. Naquele momento os pés estavam com cachos maduros e os escoteiros se esbaldaram comendo banana nanica. “Vão virar macacos”, brincou o chefe, diante daquela invasão da plantação.
Um dos aprendizados do escotismo, de ter iniciativa e saber chegar a qualquer lugar, foi atingido naquele dia pelo escoteiro Juarez Paulino, que não pôde acompanhar o grupo e chegou, sozinho, bem mais tarde. Foi cumprimentado pela agilidade e senso de direção.
Noutra ocasião, o grupo participou do desfile cívico de 7 de setembro de 1963, no centro de Goiânia, e viajou logo depois para Cromínia, seguindo pela rodovia BR-153. Tudo tranquilo, sem imprevistos. O problema foi na volta, quando conseguiram uma carona e o motorista, talvez por embriaguez, começou a fazer peripécias, indo de um lado para o outro da pista. O chefe João, de imediato, não aceitou, pediu para ele parar o veículo, todos desceram e acamparam novamente. No local, havia tido muita queimada de pastos e todos acabaram se sujando nas cinzas deixadas pelo fogo.
Serra da Jiboia e jaguatirica
A maior aventura da Patrulha do Galo foi na Serra da Jiboia – o nome derivou de sua semelhança com uma cobra –, que fica a 51km de Goiânia, entre os municípios de Palmeiras de Goiás e Nazário, na região oeste de Goiás, no lado esquerdo de quem segue de Goiânia. Os participantes assim a consideraram pelo inusitado do que vivenciaram, pela prática de atividades de sobrevivência no campo e pelos resultados alcançados neste curto período de duração da viagem, de pouco menos de dois dias no mato.
O pequeno grupo chegou à ponte sobre o ribeirão Anicunzinho, no trecho entre Trindade e Nazário, na manhã do sábado. Logo se embrenhou pela pequena mata que enfrentou, com suas mochilas nas costas, pesadas, abrindo caminho e avançando, com pequeno intervalo para o lanche, para chegar ao pé da serra às 17h, em tempo de fazer uma refeição mais reforçada. Em seguida, montaram o acampamento – uma improvisada e espaçosa cozinha, coberta de lona e forrada com folhas de coqueiros, para guardar o material e dispor de um fogão para preparar a alimentação; várias meia barracas no entorno, que serviriam de dormitórios; e uma fogueira no centro, para iluminar e proteger de animais invasores.
Essas atividades serviam de exercício de habilidades manuais, pelas amarras com cordas finas, exigindo atenção e segurança na sua realização.
A surpresa, que agitou a todos, foi a jaguatirica, vista a uns 20m de distância e que alguns se adiantaram em correr atrás dela. Essa aparição do pequeno animal acendeu o sinal de alerta e as barracas foram deixadas de lado, quando o chefe João tratou de escolher um pé de ingá para que todos se instalassem para passar a noite – e dormir, quem conseguisse. O receio era que esse ‘gato do mato’ pudesse atacar de surpresa, o que levou o grupo a uma revisão dos treinamentos, sobre os laços e a escada de corda improvisada para subir numa árvore. Em seguida, João foi o primeiro a escalá-la, escolher uma forquilha para se acomodar, e serviu de apoio para que cada um, na sequência, subisse para igualmente fazer a escolha da forquilha na qual se acomodaria, envolto numa lona, para evitar a friagem da noite. Normalmente, dois ficavam de sentinela, por período.
O temor não resultou em nova surpresa, apenas alguns urros não identificados na madrugada, e o dia amanheceu tranquilo e bonito, mas deixando a todos atentos para qualquer eventualidade naquele espaço.
Tão logo a manhã foi surgindo todos cuidaram de se organizar para a longa caminhada que teriam pela frente, de escalar o morro, para entronização da bandeira dos escoteiros, o que foi alcançado ao meio dia, e retorno à base, devidamente programado do alto, de onde avistavam a estrada.
A subida foi tranquila, sem contratempos, e a volta teve dificuldades, pois marcaram, lá de cima, como seria a descida para se alcançar mais facilmente a estrada para retornar a Goiânia – na caminhada, a situação se complicou, o grupo acabou se perdendo e demorando mais do que o previsto inicialmente, e chegou até a sede de uma fazenda. Ali, o chefe tirou seu facão e o bateu num toco, foi conversar com o pessoal daquela propriedade e, ao sair, de forma apressada, não notou que tinha deixado ele preso na madeira. Já na rodovia, sentado na sua beira, é que verificou que o equipamento tinha ficado para trás.
Foi quando surgiu uma Kombi, que felizmente tinha um motorista que era conhecido do chefe João; parou, acolheu a todos, que se alojaram no chão do veículo e, de tão cansados, logo já estavam cochilando.
Foram deixados na porta do Sesc, em Campinas.