Logo

Descuido ainda ronda casos de HIV/Aids em Goiânia

WhatsAppFacebookLinkedInX
27.12.2022 - 07:35:51

José Abrão
 
Goiânia – Dezembro Vermelho é uma campanha dedicada à conscientização sobre a Aids. No primeiro dia do mês, é celebrado o Dia Mundial do Combate ao HIV, o vírus da imunodeficiência humana, que pode levar ao desenvolvimento da síndrome da imunodeficiência humana (Aids). A epidemia explodiu em meados dos anos 1980 e sua exposição nos meios de comunicação turbinou um grande pânico moral, impactando principalmente grupos vulneráveis, como os homossexuais masculinos. Em Goiânia, atualmente o descuido ainda é um fator que ronda os casos da doença. 
 
Após 35 anos de epidemia, o HIV/Aids parece ter sumido da mídia, o que preocupa especialistas pelo registro de aumento de casos em nível mundial. Segundo dados da Unaids, grupo que monitora a doença pela Organização das Nações Unidas (ONU), há cerca de 38,4 milhões de pessoas no mundo viviam com HIV em 2021.
 
Por outro lado, enquanto a preocupação com a doença parece ter diminuído no imaginário das pessoas, o estigma e o preconceito com os soropositivos permanece, alimentado, ainda, por imagens chocantes de três décadas atrás de celebridades acometidas pela doença. Em 2022, grandes avanços foram feitos: pessoas soropositivas têm vidas normais sem o risco e transmitirem o vírus. Métodos avançados de prevenção e redução de danos evitam que as cenas de antigamente se repitam.
 
Segundo dados da Secretaria Municipal da Saúde de Goiânia (SMS), a capital notificou 5.098 casos de infecção pelo HIV no período de 1º de janeiro de 2012 a 31 de dezembro de 2021. Entre 2012 e 2016, foram registrados aumentos de notificação, começando em 110 e chegando a 709 após quatro anos. Depois, houve queda, chegando a 492 notificações em 2020 e 493 em 2021.



Testagem feita na Rua do Lazer, no Centro de Goiânia (Foto: SMS)

 
Segundo a gerente de Vigilância de Doenças e Agravos Transmissíveis da SMS, Camila Batista da Silva, houve uma redução de 45% na média nos últimos 10 anos, mas a diferença de um caso entre 2020 e 2021 deve ser levado em consideração. “Os dados de 2022, que fecham no dia 31/12, nos mostrarão se houve um incremento pelo aumento da oportunidade de testagem ou se foi um aumento das pessoas portadoras do vírus”, explica.
 
Camila lembra que estes são os casos de pessoas soropositivas e que há uma distinção enorme entre ter o HIV e Aids. “A partir do momento que eu tenho HIV, o vírus está incubado no meu sistema imunológico e eu posso transmitir para outras pessoas, mas não tenho a imunidade tão comprometida ao ponto de uma gripe ser uma ameaça. Na Aids, é a doença em si, em sua forma mais crítica. O vírus se replica tanto que eu não consigo mais ter um sistema imunológico ativo que pode ser acometido por diversas doenças oportunistas, sendo a principal delas a tuberculose, mas até uma gripe simples pode ser fatal devido ao grau de comprometimento”, descreve.
 
Além de ser responsável pela investigação e notificação obrigatória de HIV/Aids, Camila conta que a prefeitura também desenvolve uma série de ações de testagem e acompanhamento: “Só esse mês, fizemos na Rua do Lazer nossa tenda para testar, fizemos no Senac, isso facilita para o paciente ter o acesso ao teste. Porque, muitas vezes, se a pessoa tem que ir até a unidade de saúde, ela pensa, ‘e se der positivo?’. Com nossas ações, a pessoa passa pela rua e pode ter o resultado em 20 minutos”.
 
Ainda segundo a gerente, o HIV/Aids é considerado uma doença controlada, mas “temos que ficar em alerta para vermos se os dados analisados em 2022 mostram um aumento significativo”. Uma das preocupações é com a população em situação de rua. O acompanhamento hoje é feito pelo Consultório na Rua, uma van que percorre toda Goiânia. “Todo usuário que vai para a rua, mesmo se não tiver documentação, é acompanhado. O consultório sabe o nome e tem o histórico de todos os pacientes e acompanha vacinações, medicamentos, quando precisa encaminhar para uma unidade de saúde”, conta Camila.
 
A principal preocupação agora é com a conscientização para evitar o aumento de notificações. Segundo a enfermeira, as novas infecções são registradas na população entre 20 e 29 anos. “São jovens que não tiveram contato com o estigma do HIV nos anos 1980 e 1990 e por isso negligenciam o uso do preservativo”, alerta.



(Foto: SMS)

 
Prep e Pep
Um dos grandes avanços no combate ao HIV veio por meio do Prep: a Profilaxia Pré-Exposição. É quando a pessoa ainda não teve contato com o vírus, mas pode fazer uso desse medicamento contínuo para se prevenir da doença. Ele é para uma população específica, que pode estar em risco, chamada de públicos-chave. São quem, segundo os dados da SMS, possuem maior vulnerabilidade. “Profissionais do sexo; homens que fazem sexo com homens; a população de rua; pessoas trans e usuários de drogas injetáveis. Estes usuários podem ir ao CRBT [Centro de Referência em Diagnóstico Terapêutico] e receber uma cartela mensal para fazer uso diário do medicamento, disponibilizado gratuitamente pela prefeitura”, orienta Camila.
 
Existe também a Pep: Profilaxia Pós-Exposição, quando já houve uma exposição ao vírus por relação sexual ou mesmo por acidente biológico em um laboratório, por exemplo. “Esse medicamento precisa ser tomado entre duas e 72 horas após a exposição e então por uso contínuo por 28 dias. Não é feito no CRBT, mas em unidades de saúde de emergência”, explica a enfermeira.
 
Em Goiânia, assim que uma pessoa testar positivo, ela deve ir ao CRBT, no Setor Sul, onde terá acompanhamento com infectologista, assistente social, psicológico e toda a equipe técnica preparada para receber esse paciente. E, então, começará o "medicamento da tarde", que são quatro antibióticos de uso contínuo para que o vírus se torne indetectável no sangue do paciente e para que ele não possa transmitir o vírus para outras pessoas.
 
Acolhimento e vulnerabilidade
Para além do atendimento oferecido na saúde pública, há o desafio de acolher e conscientizar a população para impedir, de forma crucial, a propagação do vírus. “Enquanto não reduzirmos a vulnerabilidade, não conseguiremos vencer a epidemia da Aids”, resume Tâmara Gonçalves, uma das diretoras do Grupo Aids Apoio Vida Esperança (Aave).
 
A organização não-governamental foi criada em 1995 em meio à explosão de casos no Brasil com o intuito de acolher a população mais afetada. O grupo hoje atende cerca de 200 pacientes e suas famílias e se especializa em pessoas em situação de grande vulnerabilidade social, com foco em inclusão e capacitação, além de um trabalho externo de conscientização em Goiânia e região metropolitana.
 
“Nós atendemos aqueles em situação de extrema vulnerabilidade. São pessoas pobres, de baixa escolaridade e discriminadas. É bem rotativo, porque a partir do momento que a pessoa participa das nossas atividades e melhora sua questão psicológica, ela começa a trabalhar e nisso entram outras pessoas. Sempre temos demanda”, relata Gonçalves.



Trabalho de conscientização em escolas (foto: Grupo Aave)

 
A ONG oferece cursos, oficinas e oportunidades para pessoas soropositivas, além de atendimento social, jurídico, psicológico, alfabetização, inglês básico, oficina de informática, cursos profissionalizantes e técnicas de artesanato. Ainda segundo a diretora, houve um aumento na procura pelo grupo durante a pandemia da covid-19 porque as vulnerabilidades aumentaram: “Muita gente perdeu o emprego. Pessoas soropositivas que não procuravam e agora procuram”.
 
Assim como Camila, Tâmara conta que percebeu uma “banalização” da doença conforme os jovens perderam o medo do vírus. “A Aids não diminuiu, na verdade, aumentou entre os adolescentes e jovens, especialmente em grupos mais vulneráveis. E quanto mais vulnerável o grupo, maior a taxa de transmissão, porque são pessoas sem acesso à saúde, ao teste e à informação”, diz. Desta forma, o grupo também atua fora da instituição com o objetivo de propagar informação. “Fazemos palestras informativas e preventivas, além de eventos de massa, levando à conscientização sobre a doença. Não basta combater, temos de evitar que novos casos se espalhem”, finaliza Gonçalves. 

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Mônica Parreira

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Saúde
31.10.2026
Programa ‘Goiás Todo Rosa’ realiza mais de mil testes genéticos para identificar risco de câncer de mama e ovário

A Redação Goiânia – Entre janeiro de 2024 e setembro de 2026, o programa Goiás Todo Rosa realizou 1.153 exames genéticos para identificar a predisposição hereditária ao câncer de mama e de ovário em mulheres. A iniciativa do Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Estado da Saúde (SES-GO), é desenvolvida em parceria com […]

Saúde
30.10.2026
SUS detecta quase 10 mil testes positivos para HPV de alto risco

Brasília – Desde que o exame molecular de rastreio de HPV em mulheres começou a ser disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), 9.904 testes apresentaram resultado positivo para HPV de alto risco, que é o subtipo do vírus associado ao risco de câncer do colo do útero. O exame DNA-HPV é indicado pela Organização Mundial […]

Urgente
30.10.2026
Banco de Sangue do Araújo Jorge alerta para necessidade de doações de sangue e plaquetas

A Redação Goiânia – O Banco de Sangue do Araújo Jorge – Hospital de Câncer alertou para a necessidade de doações de sangue e plaquetas, devido a alta demanda. Segundo Jeffter Roniery Silva, biomédico responsável pela Garantia da Qualidade da unidade, muitos pacientes em tratamento oncológico passam a produzir menos células sanguíneas, seja devido à própria doença […]

Prevenção
29.10.2026
Goiás inicia implementação de teste molecular para detecção precoce do câncer do colo do útero pelo SUS

A Redação Goiânia – O teste molecular DNA-HPV, que permite detectar precocemente infecções associadas ao câncer do colo do útero, já está disponível nos municípios de Aparecida de Goiânia e Goiânia, em Goiás, pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A tecnologia identifica o HPV antes do surgimento de lesões e, em caso de resultado negativo, […]

Saúde
22.10.2026
Rede de urgência de Aparecida registra mais de 60 mil atendimentos em setembro

A Redação Goiânia – As unidades da rede municipal de urgência da Secretaria Municipal de Saúde de Aparecida de Goiânia (SMS) registraram 60.093 atendimentos no último mês de setembro. Desse total, 57.543 foram realizados nas três Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e nos dois Centros de Atenção Integrada à Saúde (CAIS), Nova Era e Colina Azul, […]

Saúde
22.10.2026
Anvisa aprova novo medicamento para câncer de pulmão avançado

Brasília – A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou novo medicamento para o tratamento do câncer de pulmão. O Emrelis (telisotuzumabe vedotina) é indicado para pacientes adultos com câncer de pulmão de células não pequenas (CPCNP) com as seguintes características: não escamoso, localmente avançado ou metastático, com receptor do fator de crescimento epidérmico tipo selvagem, […]

SAÚDE
21.10.2026
OMS publica primeiras diretrizes globais para tratar obesidade infantil

A Redação Goiânia – As primeiras diretrizes globais para o tratamento da obesidade em crianças e adolescentes foram publicadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 7 de outubro. As recomendações orientam profissionais e sistemas de saúde a oferecer um cuidado integrado, individualizado e baseado em evidências para uma doença crônica que pode comprometer a […]

Saúde
20.10.2026
Saúde inicia oferta de novos medicamentos oncológicos no SUS

Brasília – O Ministério da Saúde começa a ofertar, a partir desta semana, nove novos medicamentos de alta tecnologia para tratamento de câncer no Sistema Único de Saúde (SUS). A inclusão é a maior já feita para o cuidado com o câncer e atenderá 100% da demanda por esses produtos. Os novos nove medicamentos são indicados […]