Logo

Dando nó em ponta de faca: uma “América” de três-notas-sol

WhatsAppFacebookLinkedInX
31.07.2016 - 19:09:41

Nova York — Entramos, às sete e cinquenta da noite de nove de julho, na casa de John Zorn. Éramos quarenta, distribuídos em fileiras de oito. As pessoas-ali chegam vontadeando nem-não saírem mais. Olham-se umas nas outras, ficam de imaginaturas, ávidas. O que fazem mesmo é examinar cada mo(vi)mento enquanto a sonoridade da orquestra é preparada. Não são esperadas serventias de espécie alguma ali; comeres e beberes, deixados para hora outra-qualquer. O venue toma o seu lugar na expectativa de um som que beira o indizível. E é. De tão.  
 
Fundada em 2005, a casa de música experimental e avant-garde The Stone fica na Alphabet City, East Village, bem na capital daquelas tantas coisas que no mínimo especulamos sobre Nova York: dias cheirando à fumaça das esquinas; gentes de tudo quanto é canto; uma carestia que se cobra no comprar as coisas, de injunção quase invencível; aqueles flashes, flãs, flagrantes de bárbaros anúncios; e a arte pululando convidações extraordinárias, coisa de transdoidar, por assim sentir.  
 
A noite é da Banff/NYC Improvisers Orchestra. Tyshawn Sorey: o maestro. Minutos antes, a um passo da fila para a entrada, converso com o saxofonista Bryan Qu, do Canadá; sinto um todo-ele vidrado de jubilecenças por se apresentar ali e, tanto-além, conduzido por quem — músico-compositor dos melhores, virtuoso, brilhante.
 
Não são para menos (as louvações): Sorey começa. Na sua primeira indicação à orquestra, levanta uma folha sulfite, escrita com letra dele próprio, pedindo ritmo sorrateiro aos músicos. Lemos pelo verso do papel a palavra air. Os instrumentos de sopro (clarineta, flauta, fagote, oboé, trombone e sax) passam a fazer ar, outros depois de uns, todos juntos, aquela propagação de sopramentos, cochichos, sibilâncias. Dali a pouco sobrevém o carregamento de novas sonoridades, como se nos amanhecendo-pés, calafrios, vida urbana.
 
Os dedos do maestro se agitam no ar: sem batuta, com a batuta, e então duas, em upbeat, downbeat, mãos e pulsos e torsos concatenados no contratempo da cidade. Aos poucos, os sons começam a se enfileirar: dessa vez os contrabaixos e cellos sintonizam-se no mode Ab Bb Cb Db Eb Fb Gb, indicado pelo regente em nova folha de papel, dirigida aos músicos. E os próximos vozeamentos sintonizam a gente, na verdade, com pelo menos três coisas: (é a cidade que nos amanhece de) dor, sonho e memória, com suas todas belezas e absurdidades.   

* * *
 
A dor: o que reparo primeiro ao desembarcar na terra que os próprios estadunidenses chamam (para si) de “América” é que as cores da exploração seguem as mesmas, como se-em todo lugar. Príncipes e paredes flácidas, homens e mulheres de uniformes amarelos ou verde-florescentes, com dentes e olhos de uma canseira que sobe e desce degraus; limpando diariamente a cena para os novos espetáculos que nunca lhes concederão primeiras páginas; carregando o peso de construções que serão de outros. Respeitadas as diferenças entre culturas e sociedades e indivíduos mundo afora, ainda que a gente só as tenha imaginado até hoje de nossos quartos vazios ou salas de estar, fato é que as cores do que está em jogo — (in)visibilidades e (im)possibilidades de dizer sobre si e sobre o mundo — são semelhantes. Mudam-se os modos operandi, faciendi e vivendi, é claro; prevalecem, todavia, delírios e pungências, intolerâncias e abismos, desejos de menos ou de mais. E os tantos grilhões da escravidão moderna.
 
Na chegada, paga-se rápido, do aeroporto mesmo, para transitar. As shuttles (vãs) são ali dirigidas por haitianos. Que conversam em inglês e em francês. Gesticulam com precisão, servis como aprenderam a viver-lá. Organizam-se ligeiro no guardamento das malas. E seguimos viagem.
 
[Levanta agora o maestro um novo sinal aos músicos: scratch. Saxofones choram de dor. Juntam-se a eles os instrumentos de corda. E vão transbordando ruídos, da urbe: departamentos pessoas becos viadutos semáforo ônibus metrôs atrasos, “Foi o despertador que não tocou”, a celeuma em screens bate-papos máquinas arames farpados andares e pavimentos. A rua e a faixa de pedestres. Anúncios. One life, one body, one chance. Casas coladas sem muro rastros na calçada amanhecida florezinhas de canteiro ziguezague tique-taque. O sol, os carros, um chão de avenidas cinzas.]
 
* * *
 
Do sonho: no dia em que entrei pela primeira vez no MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York, a pele se abriu aos arrepios. Sextas-feiras, das quatro em diante não se paga. Ver de perto as centenas de shots feitas pela fotógrafa Nan Goldin. E a colaboração entre artistas, a pedido do poeta Tristan Tzara, para a antologia Dadaglobe, na década de 1920 ainda: cartas, poemas, prosas, desenhos, objetos, fotos… ah, as fotos e prints do Man Ray são de botar dinamite quando vistos sem distância! Andares inteiros com aqueles que até então só existiam por trás da tela sem luz de um computador, ou em páginas-livro, ou a gente na peleja de ir-ter-com em alguma remota exposição por ali-aqui, ou, ainda, em só imaginando-se. É preciso coragem para se perder de desejos pelo que ali se vê: porque não é mais questão de ouvir falar d’A persistência da memória; ou do Van Gogh, Munch, Monet, Cézanne, Matisse, Pollock, Chirico, Hopper, Magritte, Basquiat… Agora é coisa de estar com. Em-absor(vendo). As bailarinas do Degas, no último piso, ainda transbordam aflição tremenda: num zás nos damos conta de não ser possível voltar atrás e ver tudo de novo — fechado o museu às oito da noite em ponto. Será preciso voltar amanhã.
 
[No The Stone, a experiência em instante de fazer-imagem é desafeita de zonas luminosas e gentrificadas. Insinua-se nas frestas e desvios. A gente ferve de “letripulias” internamente, e conversa com estranhos imaginários, e despalavra as nossas sandices. Pois a imagem do sonho arde, de fato, quando toca o real. É devaneio lúcido. O maestro… desperta a orquestra… levanta agora a palavra groove… sinaliza que a voz sibile nas margens. Ganavya Doraiswamy entoa a linha do destempo, sem fim de visualidades, coisa neste mundo de ainda devanear.] 

Na memória: as menores cidades têm casas que não têm muros, e a vizinhança se faz de silêncios (que podemos entender como quietudes paradisíacas ou desconexões). Ficamos distantes uns dos outros. Também dos comércios, onde se compra tudo, em geral tudo junto, e em lugares imensos. Com seus também lugares-de-sabores, tão variados quanto idênticos. Incrível, além do quê, a intercorrência de re(imaginações), leituras, judiarias. O Douglas Coupland, em algum momento, não sai da cabeça. Passagens dele titilando na memória: alguns “dezesseis mil quilômetros quadrados de shoppings centers e [a gente] não conseguindo notar que alguma coisa, em algum lugar, está muito, mas muito errada”. Neste mundo. Tão mundo, tão mesmo, tão nosso. Temos também a impressão de cidades feitas de carros. Com pessoas que não se acostumam mais à flânerie dos céus-por-cima-do-andar-descalço, tão crucial. E, sim, tem-se a rapidez dos acessos, bem à flor da pele, é de estontear.
 
As lembranças se conturbam, enternecem. Vontadeiam. Se intricam. E temperam, destemperam.
 
Mantenho, para-de-sempre, reminiscências sobre. A aula de cerâmica no The Art Museum of Greater Lafayette. As trocas-em-proseio com duas favoritas pessoas, Jane e Jeff Boswell. E todos os dias de recebimentos em idas ou vindas. Estranhezas, ranhuras também. Muitas, de-por certo. Indultos, acalantos. Distâncias, viagens, casamentos. Melindres, dedicação. São cenas que resplendoram, de forma uma-ou-outra. Porque a memória também tem seus labirintos de paixões e miragens. “Cada traço é um pedaço de nervo com a veemência de um coração bárbaro.” Afinal. De então que: o que não lembrarei mais… fantasio.
 
[Chaotic. Groove. Air. Mode Ab Bb Cb Db Eb Fb Gb. Uma hora e meia depois, saímos da casa de John Zorn. Em linha reta, transtorno bom, nenhuma linearidade. Muitas coisas para trás, zanzando, alternadamente-passos-um-depois-do-outro-andando. Lembrando a gente dos horrores e esplendores. Chiaroscuro de todos poemas do mundo. Ah, aquela “América” de três-notas-sol…]

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Carol Piva

*Carol Piva é doutoranda em Arte e Cultura Visual na UFG e uma das editoras-fundadoras do jornal literário "O Equador das Coisas". Servidora do TRT de Goiás, tradutora e ficcionista.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
16.10.2026
Evento para convidados marca estreia de série documental sobre Marília Mendonça; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A capital recebeu, na noite desta quinta-feira (15/10), a estreia de “Marília Mendonça: Sentimento Louco”, no Cine Aurum, no Centro Cultural Oscar Niemeyer. A série documental Original Prime estreia ao público nesta sexta-feira (16). A produção retrata a trajetória da cantora goiana, sua ascensão no sertanejo e o legado de uma […]

Joias do Centro
16.10.2026
Centro Cultural Marietta Telles Machado reúne memória, arte e novos planos para o futuro

Carolina Pessoni Goiânia – Na Praça Cívica, em meio aos edifícios que marcaram os primeiros anos da capital goiana, uma construção guarda diferentes capítulos da história de Goiânia e da vida cultural do Estado. O Centro Cultural Marietta Telles Machado foi o primeiro edifício público construído estrategicamente na praça, concebido para abrigar a Secretaria Geral […]

Noite e Dia
14.10.2026
Convidados prestigiam abertura de exposição de Kdu dos Anjos em Goiânia; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Centro Cultural UFG (CCUFG) recebeu, na terça-feira (13/10), a abertura para convidados da exposição “Memórias, Imagens e Arquiteturas da Permanência”, de Kdu dos Anjos. Na exposição apresentada em Goiânia, o artista reúne trabalhos das séries “Sentinelas — Carrancas Pinceladas”, “Nóis que Ficamo” e “Cidade de Deus”. Sua pesquisa parte de fotografias, […]

LABORATÓRIO PÚBLICO - CIÊNCIA, POLÍTICA E MEIO AMBIENTE
13.10.2026
Votemos, então

A vida me proporcionou exercer ofícios muito diferentes até aqui, ocupar portanto lugares e perspectivas distintas na sociedade. Por isso, me sinto numa responsabilidade múltipla diante do segundo turno da eleição presidencial. Primeiro, antes do trabalho, por caminhos tortuosos, a vida me tornou radicalmente democrata. Isso é, em grande medida, herança do meu pai, Washington […]

Noite e Dia
12.10.2026
Famílias aproveitam o primeiro final de semana da reabertura do Mutirama; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Após obras de recuperação e melhorias na estrutura e na segurança, o Mutirama voltou a receber o público a partir deste sábado (10/10). No domingo, famílias aproveitaram para curtir o parque e antecipar as comemorações do Dia das Crianças. Com 22 atrações recuperadas, estão disponíveis ao público a roda-gigante, telecombate, autopista, […]

CURADORIA AFETIVA
11.10.2026
CoCriar

Poucas mulheres na história da Humanidade conseguiram um feito tão nobre quanto o de Indra Devi (1899-2002). Natural da atual Letônia, usou do poder de sua diplomacia cultural para conseguir ser aceita como aluna no Palácio de Mysore, na Índia e aprender os segredos do yoga, até então apenas praticado por homens. Submetida à rígidas […]

Noite e Dia
09.10.2026
Curso de Jornalismo da UFG lança Cordel em comemoração aos 60 anos; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Em celebração aos 60 anos do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás (1966-2026), foi lançado nesta quinta-feira (8/10), às 10h30, no Pátio das Humanidades, no Câmpus Samambaia da UFG, o Cordel da Fundação do Curso de Jornalismo da UFG. O Cordel foi composto e impresso no Ateliê Tipográfico da […]

Joias do Centro
09.10.2026
Monumento à Paz Mundial celebra união dos povos em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – “A terra é um só país e os seres humanos são seus cidadãos.” A frase de Bahá u lláh, fundador da Fé Bahá’í, inscrita no monumento de concreto na região central de Goiânia convida à reflexão sobre a existência humana. A citação é parte do Monumento à Paz Mundial, localizado no […]