Logo
O geógrafo Aziz Ab'Saber (1924-2012), um dos maiores cientistas brasileiros (Foto: IEA/USP)

Da razão absoluta à razão humilde

WhatsAppFacebookLinkedInX
28.04.2026 - 09:00:24

Toda época e sociedade humana é, em larga medida, definida pelo tipo de relação que estabelece com a dúvida e com a certeza — ou antes, pela maneira como resolve o problema da incerteza e dos riscos. O peso absoluto do mistério e do caos é insuportável e nos empurra para a guerra de todos contra todos. Por isso, seja por meio de deuses, de um único Deus, de forças naturais ou de poderes absolutos dados a governantes, tentamos domesticar as incertezas e extrair sentido para nortear nossas vidas individuais e a convivência em sociedade.

De três séculos para cá, inauguramos essa época a que os pensadores convencionaram chamar de “modernidade”, que se caracteriza por dois mecanismos indissociáveis que passamos a usar para debelar essas incertezas: ciência e democracia.

Ciência e democracia são duas faces de uma mesma ideia: a de que o mundo é inteligível e pode ser conhecido e controlado por meio da razão. A ciência aplica essa ideia ao domínio da natureza, a democracia ao domínio da sociedade.

Desde sempre, entretanto, no campo da ciência, essa ideia estabelece uma dissociação, que hoje se tornou insustentável, entre a ciência que idealizamos e a ciência real. Na visão simplista que cultivamos, e que apazigua nossos corações em relação às incertezas, a natureza se organiza segundo leis simples que o método científico desvenda, trazendo cada vez mais autonomia e progresso à humanidade.

Tive a sorte de me graduar em uma época em que ainda havia muitos cientistas de uma velha guarda. Não isolados em subdisciplinas, transitavam com facilidade entre questões sociais e questões naturais, entre a demografia e o urbano e a tectônica de placas e a biogeografia. Eram sobretudo cientistas forjados no trabalho de campo, antes dos modelos e das estatísticas virarem fetiches — na floresta e no cerrado, onde as rochas afloravam; nos rios, nas montanhas, nas restingas e no mar. 

E, tanto no campo como na sala de aula ou no laboratório, essas figuras saudosas transmitiam, em suas palavras e gestos, dois aspectos complementares e indissociáveis do que é a ciência real. Nas palavras, falavam da ciência como método, do rigor analítico e da crítica impiedosa — a ciência do “podemos saber mais e melhor”. Nos gestos, transparecia, de outro lado, a ciência de um encantamento respeitoso e humilde diante da grandeza e complexidade do mundo natural — uma ciência do “não sabemos quase nada”.

Impossível não pensar em Aziz Ab’Saber, um de nossos maiores cientistas. Era um homem que se impunha por seu tamanho e pelo rosto esculpido em pedra, mas que tinha uma fala mansa e aconchegante. Ele fechava os olhos e seus braços se estendiam circunscrevendo o espaço e o tempo e trazendo o mundo para dentro da sala de aula. Eu me lembro de fechar também os olhos e, ouvindo sua narração calma e grave, imaginar, com enorme riqueza de detalhes, geologia, relevo, clima, águas e vida se entrelaçando para conformar o mundo. Pulsando no tempo, Cerrado e Amazônia avançavam e retrocediam no ritmo das glaciações, com as espécies selecionadas sob a pressão dos elementos, adaptando-se ou desaparecendo. Havia método e rigor, mas havia encantamento e humildade.

A ciência vista assim de perto não absolutiza a razão. Ao contrário, maneja-a como uma bóia que flutua em um vasto mar de mistério sem nunca perder a consciência de que esse mistério é infinito e muito mais poderoso. Ela é farol em meio à névoa espessa, vela na floresta escura.

A razão é uma luz poderosa, mas quando passamos a venerá-la, como a uma deusa, paradoxalmente, cruzamos a linha em direção à irracionalidade. A ciência não produz verdades. Ela nos aproxima, sempre de maneira provisória, de algo a que podemos dar esse nome — mas que não perde sua força por isso.

Parte da crise contemporânea reside na profunda dificuldade para compreendermos que a ciência das certezas absolutas não existe — e que, portanto, o mundo não pode ser decifrado por completo e controlado. Negacionismo climático, movimentos antivacina e delírios francamente conspiratórios em relação a supostos malefícios de tecnologias surgem, em parte, da dificuldade em aceitar a ciência como imperfeita e sempre provisória. De outro lado, a desconfiança em relação às próprias instituições democráticas também se origina, em alguma medida, da promessa não cumprida pela tecnocracia para transformar automaticamente mais conhecimento em maior possibilidade de planejamento e controle do mundo social.

Como lembra Chesterton, a loucura não é a ausência de razão, mas exatamente a razão absolutizada. “O louco não é o sujeito que perdeu a razão, mas aquele que perdeu tudo exceto a razão”. É uma mente que funciona com perfeita lógica interna, mas dentro de um círculo pequeno e fechado. É o paranoico, cujo sistema explicativo é internamente coerente, inatacável e, justamente por isso, impermeável à realidade. Loucura é a racionalidade que se fecha sobre si mesma e não deixa entrar o mistério, o inesperado, o inexplicável. Em termos coletivos, estamos, de certa forma, enlouquecidos justamente porque absolutizamos a razão. Acreditar que há chips chineses nas vacinas é precisamente a tentativa desesperada do paranoico para tapar os buracos da razão real — que não explica inteiramente a Covid-19 —, de forma a não destronar a razão idealizada e se confrontar com a incerteza. 

Nosso problema não é, portanto, o da ausência de razão, mas o de uma razão idealizada e absolutizada que não tem como gerar o que essa mesma idealização prometeu. Para nos acalmarmos, podemos, entretanto, quem sabe, aprender justamente com a própria ciência real e com os velhos cientistas que nunca absolutizaram a razão. A realidade é maior, mais complexa e caótica do que qualquer sistema que construamos para explicá-la.  Na formulação inspiradora do grande naturalista Edward Wilson, falando sobre seu trabalho:

“Os mistérios não respondidos da floresta tropical são amorfos e sedutores. São como ilhas inominadas escondidas nos espaços em branco de velhos mapas, formas escuras que mal se vislumbram deslizando pela parede distante de um recife rumo ao abismo. Eles nos atraem e despertam estranhas apreensões. O desconhecido e o prodigioso são drogas para a imaginação científica, despertando uma fome insaciável com um único sabor. No fundo do coração, esperamos nunca desvendar tudo. Rezamos para que continue a existir um mundo como este, em cujo limiar eu me sentava na escuridão. A floresta tropical, em sua riqueza, é um dos últimos repositórios desse sonho atemporal.”

Em outras palavras precisamos de uma razão humilde, recolocada no centro do mistério e da escuridão. 

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG. / [email protected]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
lABORATÓRIO pÚBLICO - cIÊNCIA, pOLÍTICA E MEIO AMBIENTE
29.09.2026
Sem apocalipse ou redenção II

No último artigo por aqui, comentei das visões diametralmente opostas a respeito da inteligência artificial. De um lado, os otimistas tecnológicos acreditam que ela resolverá todos os nossos problemas; de outro, os tecnofóbicos já decretam para breve o fim da humanidade à medida que a IA rapidamente evoluir e sair de nosso controle. Argumentei que […]

Noite e Dia
28.09.2026
Armazém AZ apresenta mostra sobre Maria Abadia Haich em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Armazem AZ apresentou no último sábado (26/9), em Goiânia, a exposição Tessituras: Histórias de Bá, dedicada à trajetória de Maria Abadia Haich, co-fundadora da loja e personagem ligada à formação e à difusão do design brasileiro na cidade. Construída a partir do olhar de seus seis netos, com coordenação de […]

Curadoria Afetiva
27.09.2026
Códigos atemporais

Há uma contagiante efervescência cultural, como costumávamos caracterizar o circuito social na década de 80, que, curiosamente, vem se reprisando na capital goiana. Salões de arte, mostras de artistas renomados (estejam eles vivos ou mortos), apresentações públicas e privadas de espetáculos clássicos, caricatos e criativos. Aparentemente, um despertar coletivo que contamina, no bom sentido, todos […]

Joias do Centro
25.09.2026
Avenida Goiás: a linha que desenhou o coração de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Há avenidas que levam a algum lugar. E há aquelas que, antes mesmo de serem abertas, já foram concebidas para dizer alguma coisa sobre a cidade. Em Goiânia, a Avenida Goiás pertence à segunda categoria. Desenhada no plano original da capital pelo arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima, ela nasceu como […]

Noite e Dia
25.09.2026
Evento apresenta primeira mostra de Di Cavalcanti para convidados em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Cerrado Galeria realizou nesta quinta-feira (24/9) a abertura exclusiva para convidados da apresentação do novo ciclo expositivo da galeria, que traz pela primeira vez à Goiânia obras do renomado artista Di Cavalcanti, além da primeira individual do goianiense Walter Pimentel. As mostras Di Cavalcanti: Lírico, brasileiro, modernista, e Anímica e […]

Noite e Dia
21.09.2026
Jardim Potrich une Yoga, cerâmica e arte em programação especial; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Jardim Potrich abriu suas portas para uma programação que aproxima duas práticas aparentemente distintas — Yoga e cerâmica — a partir de um território comum: a presença. No dia 12 de setembro, o jardim recebeu “Beta & Bia no Jardim”, uma manhã dedicada ao movimento, à respiração e à consciência […]

CURADORIA AFETIVA
20.09.2026
Da Tranquilidade botânica

“No entanto, o sábio não pode desprezar os maus, porque, em todos os tempos, as condições morais quase sempre são as mesmas. Se o mal é uma necessidade da vida, da qual os homens não podem subtrair, não se deve odiá-los, mas aprender a respeitá-los.” (Da tranquilidade da alma, Sêneca) A palavra mal vem do […]

Joias do Centro
18.09.2026
Praça Cívica preserva a ideia de ágora onde Goiânia encontrou sua identidade

Carolina Pessoni Goiânia – Antes de Goiânia existir como cidade, ela já existia como desenho. E, nesse desenho, havia um ponto destinado a concentrar o poder, organizar os caminhos e criar um lugar de encontro. Era a Praça Cívica, concebida pelo urbanista Attilio Corrêa Lima como o centro administrativo da nova capital. A ideia, segundo o […]