Toda época e sociedade humana é, em larga medida, definida pelo tipo de relação que estabelece com a dúvida e com a certeza — ou antes, pela maneira como resolve o problema da incerteza e dos riscos. O peso absoluto do mistério e do caos é insuportável e nos empurra para a guerra de todos contra todos. Por isso, seja por meio de deuses, de um único Deus, de forças naturais ou de poderes absolutos dados a governantes, tentamos domesticar as incertezas e extrair sentido para nortear nossas vidas individuais e a convivência em sociedade.
De três séculos para cá, inauguramos essa época a que os pensadores convencionaram chamar de “modernidade”, que se caracteriza por dois mecanismos indissociáveis que passamos a usar para debelar essas incertezas: ciência e democracia.
Ciência e democracia são duas faces de uma mesma ideia: a de que o mundo é inteligível e pode ser conhecido e controlado por meio da razão. A ciência aplica essa ideia ao domínio da natureza, a democracia ao domínio da sociedade.
Desde sempre, entretanto, no campo da ciência, essa ideia estabelece uma dissociação, que hoje se tornou insustentável, entre a ciência que idealizamos e a ciência real. Na visão simplista que cultivamos, e que apazigua nossos corações em relação às incertezas, a natureza se organiza segundo leis simples que o método científico desvenda, trazendo cada vez mais autonomia e progresso à humanidade.
Tive a sorte de me graduar em uma época em que ainda havia muitos cientistas de uma velha guarda. Não isolados em subdisciplinas, transitavam com facilidade entre questões sociais e questões naturais, entre a demografia e o urbano e a tectônica de placas e a biogeografia. Eram sobretudo cientistas forjados no trabalho de campo, antes dos modelos e das estatísticas virarem fetiches — na floresta e no cerrado, onde as rochas afloravam; nos rios, nas montanhas, nas restingas e no mar.
E, tanto no campo como na sala de aula ou no laboratório, essas figuras saudosas transmitiam, em suas palavras e gestos, dois aspectos complementares e indissociáveis do que é a ciência real. Nas palavras, falavam da ciência como método, do rigor analítico e da crítica impiedosa — a ciência do “podemos saber mais e melhor”. Nos gestos, transparecia, de outro lado, a ciência de um encantamento respeitoso e humilde diante da grandeza e complexidade do mundo natural — uma ciência do “não sabemos quase nada”.
Impossível não pensar em Aziz Ab’Saber, um de nossos maiores cientistas. Era um homem que se impunha por seu tamanho e pelo rosto esculpido em pedra, mas que tinha uma fala mansa e aconchegante. Ele fechava os olhos e seus braços se estendiam circunscrevendo o espaço e o tempo e trazendo o mundo para dentro da sala de aula. Eu me lembro de fechar também os olhos e, ouvindo sua narração calma e grave, imaginar, com enorme riqueza de detalhes, geologia, relevo, clima, águas e vida se entrelaçando para conformar o mundo. Pulsando no tempo, Cerrado e Amazônia avançavam e retrocediam no ritmo das glaciações, com as espécies selecionadas sob a pressão dos elementos, adaptando-se ou desaparecendo. Havia método e rigor, mas havia encantamento e humildade.
A ciência vista assim de perto não absolutiza a razão. Ao contrário, maneja-a como uma bóia que flutua em um vasto mar de mistério sem nunca perder a consciência de que esse mistério é infinito e muito mais poderoso. Ela é farol em meio à névoa espessa, vela na floresta escura.
A razão é uma luz poderosa, mas quando passamos a venerá-la, como a uma deusa, paradoxalmente, cruzamos a linha em direção à irracionalidade. A ciência não produz verdades. Ela nos aproxima, sempre de maneira provisória, de algo a que podemos dar esse nome — mas que não perde sua força por isso.
Parte da crise contemporânea reside na profunda dificuldade para compreendermos que a ciência das certezas absolutas não existe — e que, portanto, o mundo não pode ser decifrado por completo e controlado. Negacionismo climático, movimentos antivacina e delírios francamente conspiratórios em relação a supostos malefícios de tecnologias surgem, em parte, da dificuldade em aceitar a ciência como imperfeita e sempre provisória. De outro lado, a desconfiança em relação às próprias instituições democráticas também se origina, em alguma medida, da promessa não cumprida pela tecnocracia para transformar automaticamente mais conhecimento em maior possibilidade de planejamento e controle do mundo social.
Como lembra Chesterton, a loucura não é a ausência de razão, mas exatamente a razão absolutizada. “O louco não é o sujeito que perdeu a razão, mas aquele que perdeu tudo exceto a razão”. É uma mente que funciona com perfeita lógica interna, mas dentro de um círculo pequeno e fechado. É o paranoico, cujo sistema explicativo é internamente coerente, inatacável e, justamente por isso, impermeável à realidade. Loucura é a racionalidade que se fecha sobre si mesma e não deixa entrar o mistério, o inesperado, o inexplicável. Em termos coletivos, estamos, de certa forma, enlouquecidos justamente porque absolutizamos a razão. Acreditar que há chips chineses nas vacinas é precisamente a tentativa desesperada do paranoico para tapar os buracos da razão real — que não explica inteiramente a Covid-19 —, de forma a não destronar a razão idealizada e se confrontar com a incerteza.
Nosso problema não é, portanto, o da ausência de razão, mas o de uma razão idealizada e absolutizada que não tem como gerar o que essa mesma idealização prometeu. Para nos acalmarmos, podemos, entretanto, quem sabe, aprender justamente com a própria ciência real e com os velhos cientistas que nunca absolutizaram a razão. A realidade é maior, mais complexa e caótica do que qualquer sistema que construamos para explicá-la. Na formulação inspiradora do grande naturalista Edward Wilson, falando sobre seu trabalho:
“Os mistérios não respondidos da floresta tropical são amorfos e sedutores. São como ilhas inominadas escondidas nos espaços em branco de velhos mapas, formas escuras que mal se vislumbram deslizando pela parede distante de um recife rumo ao abismo. Eles nos atraem e despertam estranhas apreensões. O desconhecido e o prodigioso são drogas para a imaginação científica, despertando uma fome insaciável com um único sabor. No fundo do coração, esperamos nunca desvendar tudo. Rezamos para que continue a existir um mundo como este, em cujo limiar eu me sentava na escuridão. A floresta tropical, em sua riqueza, é um dos últimos repositórios desse sonho atemporal.”
Em outras palavras precisamos de uma razão humilde, recolocada no centro do mistério e da escuridão.
